União para além da divisão: o desastre como oportunidade para a reconc

| 27/09/2005 - 00:00


Nas últimas semanas, o mundo testemunhou catástrofes naturais e desastres provocados pelo homem. O furacão Katrina causou graves perdas de vida e de propriedades no sul dos Estados Unidos. Mil pessoas morreram em uma multidão em pânico no Iraque.

"Especialistas" apressaram-se em avaliar as causas e as razões da tragédia. Em um dos canais de TV do Oriente Médio, a Al Qaida divulgou uma declaração de que o furacão era uma punição pelo envolvimento dos Estados Unidos no Iraque. No mesmo dia, recebemos um e-mail em nosso escritório indicando que o desastre era o resultado do apoio da administração Bush à retirada de Israel da Faixa de Gaza.

Um importante rabi afirmou que o desastre não era só o resultado da retirada, mas também foi causado porque a população da Louisiana não estudava a Escritura e se divertia com o jazz. Alguns consideraram a inundação como o julgamento de Deus sobre uma cidade pecaminosa e questionavam o estilo de vida e conduta daqueles que perderam a vida ou os bens. Outros apontavam a negligência das autoridades na construção e manutenção dos diques. Poderia ser o aquecimento global. E a lista prossegue. Algumas dessas declarações parecem mesmo refletir o gozo com o sofrimento alheio.

Unilateralidade & ensino bíblico

Quando a tragédia e o sofrimento afetam nosso próprio povo, queremos nos unir e ajudar. Quando acontece com outro povo ou com o nosso inimigo, alguns de nós se alegram em dizer que finalmente Deus está julgando nossos inimigos. Ouvimos essas vozes com freqüência.

Refletindo sobre essas reações e nas Escrituras, alguns versículos da Bíblia vêm à mente. Paulo escreve sobre proferir juízo em 1 Coríntios 4.5: "Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação".

Em Lucas 13.1-5, Jesus estava falando com os líderes em Jerusalém sobre duas tragédias, uma em que Pilatos misturou sangue galileu ao sacrifício deles e outra em que uma torre desabou. "Jesus respondeu: Vocês pensam que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros, por terem sofrido dessa maneira? Eu lhes digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão. Ou vocês pensam que aqueles dezoito que morreram, quando caiu sobre eles a torre de Siloé, eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu lhes digo que não! Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão.".

A proposta cristã

Jesus descarta a relação entre sofrimento e pecado (v. 2). O povo acreditava que aqueles que sofriam eram mais pecadores. Sua resposta no versículo 3 contradiz essa idéia. Ele responde que os desastres são sinais para que as pessoas se arrependam, senão elas perecerão.

O que podemos aprender com isso? Julgar aqueles que sofrem e atribuir o desastre a atos pecaminosos de outros está errado, de acordo com o ensinamento de Jesus. Ao julgar, colocamo-nos na posição de Deus. Os desastres devem servir como um aviso para estarmos preparados quando a tragédia aparecer no nosso caminho.

Outra resposta que deveríamos ter para com aqueles que experimentaram o sofrimento é a piedade. O ensino fundamental é que os cristãos devem ir ao encontro das necessidades das viúvas e dos órfãos. Fomos ensinados a ser misericordiosos para com os fracos e oprimidos, a nos alegrar com os que se alegram e a chorar com os que choram.

Um terceiro aspecto dos desastres naturais ou produzidos pelo homem é a relação da humanidade com a criação. Em Gênesis 1-2, Deus dá aos seres humanos autoridade sobre a Terra e o que há nela. Temos responsabilidade para com a criação, e quando usamos mal ou abusamos dela, sofremos as conseqüências. Enquanto desastres naturais ou produzidos pelo homem não são necessariamente o resultado direto da negligência humana, com freqüência a sociedade de fato desempenha um papel causando ou deixando de prevenir circunstâncias trágicas. Precisamos entender e prezar nossas responsabilidades para com a criação.

Nossas respostas a desastres e crises são fundamentais na prática e na difusão da mensagem do evangelho. Jesus nos disse para permitirmos que a nossa justiça fosse vista. As crises podem ser oportunidades de edificar pontes, como na Indonésia, quando dois grupos rivais foram levados à reconciliação após o tsunami.

Voltarmo-nos para o nosso inimigo e ir ao encontro de suas necessidades emite uma alta e poderosa mensagem. "Ao contrário: Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem" (Romanos 12.20-21). O desastre pode ser uma oportunidade de melhorar relacionamentos, de estender nossa mão através de uma grande divergência para derrubar estereótipos.

Ao responder às crises, que não desperdicemos nossas energias em julgamentos ou justificações. Esse é o trabalho do Senhor. Nossa tarefa é buscar o arrependimento, demonstrar misericórdia, fazer o bem aos outros, e nos juntar àqueles que estão em necessidade.

Salim J. Munayer (PhD)
Diretor do Musalaha - Ministério de reconciliação entre judeus messiânicos e cristãos palestinos


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