Trocando armas por Bíblias

| 15/11/2005 - 00:00


Nesse dia histórico, nossa missão foi entregar Novos Testamentos e literatura cristã aos paramilitares recém-desmobilizados. O incrível é que fomos até lá a convite deles. Jamais uma organização cristã pôde entrar nesse território. O nosso grupo era composto por Juan, cristão e o motorista de nosso táxi; Sérgio, colaborador de Portas Abertas na Colômbia, e Pablo, líder da juventude e pastor de uma igreja.

Depois de passarmos por quatro barricadas policiais sem a carta de autorização necessária, usamos os Novos Testamentos para obter passagem segura. Entregamos alguns exemplares aos policiais. Eles sorriram, dizendo: "Vão em frente, mas tomem cuidado".

Após discursos de representantes do governo e paramilitares desmobilizados, chegou a hora de depor as armas. As câmeras dos repórteres focalizavam homens e mulheres entregando armas às autoridades.

Pedi permissão ao Coronel Acosta para entrar no acampamento e distribuir materiais. Ele respondeu com um sorriso, mas sugeriu que eu esperasse até que todas as armas fossem entregues. Precisando aproveitar esses momentos preciosos e embora eu não estivesse autorizado a entrar para falar com eles, um paramilitar começou a me fazer perguntas sobre Cristo. De repente, eu estava cercado e todos me escutavam: "Talvez o governo os tenha traído. Até a própria sociedade pode ser contra vocês, mas, se vocês desarmarem o coração e deixarem Cristo curar a dor que o ódio e o rancor causaram, nem mesmo toda a traição e o desprezo das pessoas poderão fazê-los voltar atrás, porque já os terão perdoado".

Invisível

Os Novos Testamentos ainda não podiam ser distribuídos, mas as pessoas estavam indo embora. Peguei uma caixa de Bíblias e corri para a entrada, onde um policial vigiava para que somente pessoas autorizadas entrassem.Orei para que Deus me deixasse "invisível" e fui para o meio da multidão. Ninguém me barrou e comecei a distribuir a literatura. De repente, os ex-combatentes perceberam o que eu estava fazendo. Para minha surpresa, a procura foi maior que a nossa oferta.

Uma mulher brincou, dizendo: "Talvez este livro seja capaz de me mudar. Nem o governo, com todos os seus planos, conseguiu fazer isso". Alguém respondeu: "Cuidado! Pessoas que lêem a Bíblia nunca mais são as mesmas".

Juan, na outra extremidade do acampamento, e Sérgio, na entrada, ficaram distribuindo cópias do livro "Quando Deus Não Faz Sentido". Quem recebia um exemplar contava para os amigos, e estes contavam para outras pessoas. Foi incrível!

Demos um Novo Testamento a "Mancuso", chefe das Forças Unidas de Autodefesa da Colômbia (AUC), que se rendera dias antes, mas estava lá para apoiar o processo de paz com o governo e encorajar seus homens, alguns dos quais nem o conheciam. Muitos pediram a ele que autografasse seus Novos Testamentos e livros.

Durante uma sessão de perguntas e respostas com o comandante Baez, um dos líderes das AUC, perguntei a ele que papel Deus desempenhou nesse processo de pacificação.
"Ele é o autor da paz - o Deus de Paz. Se não fosse por ele, por esse Deus de quem você fala, não estaríamos aqui agora".

"Comandante", prossegui, "nesse processo há vencedores, perdedores e oportunistas. Não podemos confiar no homem porque o coração do homem, assim como o governo, é enganoso. O senhor pode ser traído várias vezes, até mesmo pelas pessoas mais próximas, mas Deus estará sempre lá, sem ciladas nem mentiras. Se o senhor acredita no Deus de Paz, deixe que ele opere a verdadeira paz em sua vida".

O comandante Baez, que não desviou os olhos de mim enquanto eu falava, sorriu e disse: "Ele é o único em quem confio, e não penso em recuar, pois muitos estão vindo atrás de nós, querendo seguir os nossos passos".

Procurando a paz verdadeira

Enquanto estávamos lá, conhecemos algumas vidas que precisam muito do poder de Deus. Seus corações ainda carregam o ódio e a falta de esperança. Mas naquele dia, eles receberam Bíblias, livros e o amor através da presença da nossa equipe. Entre eles, duas queridas pessoas marcaram minha vida.

Alfredo é muito jovem. Sete anos atrás, já estava lutando com os paramilitares. Quando adolescente, a exemplo de seus companheiros militantes, uniu-se ao grupo após o desaparecimento de seus parentes e a morte de sua mãe por grupos guerrilheiros.

Ele espera que o governo mantenha sua palavra, caso contrário, voltará ao conflito.
O título do livro chamou sua atenção. "Acho que não sou o único a pensar que Deus faz coisas que não fazem sentido". Orem para que Alfredo entenda as Boas Novas e seu coração seja curado do ódio que o vem consumindo.

Nancy não parava de mexer no revólver que a acompanhava em todo lugar - pelo menos até aquele dia. Era muito difícil largar seu "brinquedo". De um jeito nervoso, andava de um lado para o outro, como se pensasse em deixar. Por acaso ouvi o comentário de um combatente amigo dela: "Relaxa, garota! A vida não é só guerra, ela também é paz". Ela quis ficar com seu uniforme também e, no fim, só trocou de camiseta. Continuou com suas calças de camuflagem e botas de combate características.

Ninguém imaginava que Nancy pudesse querer um Novo Testamento ou um livro cristão, mas quando as cópias estavam para acabar e o pessoal já estava indo embora, ela disse, agitada: "Não sobrou nenhuma cópia para mim e eu queria saber de Cristo!"

Eu disse: "Não se preocupe. Embora suas roupas estejam sujas e seu coração solitário, Deus é amor. Ele vai perdoar você e fazê-la feliz". Perguntei se poderia abraçá-la. Imediatamente ela concordou.

"Obrigada", disse ela. "Embora minha família esteja longe, ela também é cristã e o que você acaba de repartir comigo hoje, nunca precisei tanto em toda a minha vida".

Este relato foi contado por uma pessoa que esteve em uma viagem junto com a equipe de Portas Abertas.


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