Tendências para 2007

| 01/01/2007 - 00:00


Que contexto vamos enfrentar em 2007 para melhor servir a Igreja Perseguida? Como todo ministério, periodicamente, a Portas Abertas tem de rever em que condições continuará a atuar. Geralmente, o momento mais propício para isso é o da virada do ano e nesse sentido, o departamento de pesquisas da missão - situado na Holanda - está concluindo a atualização anual da Classificação de Países por Perseguição e, nas próximas semanas, os resultados estarão publicados aqui no site e na Revista Portas Abertas.

Mas, enquanto os dados oficiais não chegam, baseando-se no que já se sabe, podem-se discutir tendências para o ano que começa. A identificação dessas tendências é o objetivo deste artigo.

O artigo mostrará que, quando se fala de Igreja Perseguida, qualquer otimismo só faz sentido quando se reforça o compromisso com a fé. Há muita discriminação ainda acontecendo e parece que quanto mais eloqüente for o testemunho de nossos irmãos em seus países, tanto maior será a oposição que vão enfrentar.

II Timóteo, 3:12 está mais vivo do que nunca: "todo aquele que quiser viver piedosamente em Cristo Jesus, padecerá perseguições".

Método de estudo

Para fazer-se a identificação das tendências-2007, tomou-se uma amostra das notícias publicadas pelo site Portas Abertas em 2006, de 1º de janeiro até o dia 20 de dezembro. O número total de notícias publicadas nesse intervalo de coleta dos dados foi 884, mas a amostra usada para análise teve 60 artigos.

Os artigos da amostra tiveram dois tipos de pauta: 55 artigos trataram dos 10 primeiros colocados na Classificação de Países por Perseguição e 5 trataram de "fatos de destaque" segundo o critério da editora do site.

Apesar da pauta, deve-se registrar a não-sobreposição de classificações - perseguição & freqüência do país nos 884 artigos publicados. Os 10 países com mais artigos publicados em 2006 no site da Portas Abertas são os seguintes.

Classificação   País              Nº de           % do         Classificação
freqüência                             artigos        total         por Perseguição
       1                  Índia              144              16,29%           26 
       2                  China              68                7,69%           10
       3                  Indonésia        62                7,01%           35
       4                  Paquistão        52                5,88%          16
       5                  Irã                     26                2,94%            3
       6                  Nigéria            25                 2,83%          28
       7                  Vietnã              24                2,71%            7
       8                  Turquia            24                2,71%          36
       9                  Eritréia             22                2,49%          14
     10                  Internacional   22                2,49%

Percebe-se que, entre os países mais freqüentes, só China, Irã e Vietnã estão entre os 10 primeiros colocados da Classificação por Perseguição. Por um lado, essa dissociação reflete a independência editorial do site na seleção das notícias; e por outro lado, reflete a proeminência que alguns países têm ganho, casos de Índia, Indonésia, Paquistão, Nigéria, Turquia e Eritréia.

Para fazer-se a análise dos dados amostrais, separaram-se os países pelo tipo - campo ou livre - depois, contaram-se os casos relatados em cada artigo. O sinal do caso - negativo ou positivo - foi atribuído a partir do potencial de contribuir ou de piorar as condições da Igreja nos países-campo.

Resumo dos artigos do site Portas Abertas em 2006:


Tipo de país  País - casos             negativo    positivo   Total geral
Campo            Arábia Saudita - 6         83%            17%            100% 
                         Butão - 6                        17%             83%           100% 
                         China - 7                         71%            29%            100% 
                         Índia - 1                          100%            0%             100% 
                         Irã - 8                              100%            0%             100% 
                         Coréia do Norte - 6         33%            67%           100% 
                         Laos -7                           100%           0%             100% 
                         Maldivas - 2                     50%            50%           100% 
                         Oriente Médio - 1               0%           100%           100% 
                         Paquistão - 1                  100%             0%             100% 
                         Somália - 6                       83%            17%            100% 
                         Vietnã - 8                        100%             0%            100% 
                         Iêmen - 1                         100%             0%            100% 
Campo total   60 casos                          75%            25%            100% 

Livre              Alemanha - 1                  100%            0%             100% 
                       Brasil - 1                            0%            100%           100% 
                       Coréia do Sul - 2              0%            100%           100% 
                       E.E.U.U. - 10                     40%             60%            100% 
                       Inglaterra - 2                     50%             50%            100% 
                       Portugal - 1                        0%             100%           100% 
                       Vaticano - 2                       0%             100%           100% 
Livre total     19 casos                          33%              67%            100%  

TT GERAL      79 casos                          65%             35%             100%
 

Análise geral

No geral, têm-se 65% de casos negativos e 35% de casos positivos. Mesmo a porcentagem de casos positivos sendo, naturalmente, maior entre os países livres, percebe-se, com surpresa, que os casos positivos concentram-se nos países-campo (15 casos = 56%, contra 12 casos, 44% nos países livres). Os casos negativos dos países-campo (45 casos) são 88,2% dos casos negativos totais (51 casos). Entre os países-campo, os casos negativos representam o triplo dos casos positivos.

Os países livres

Por dois motivos, a porcentagem negativa vinda dos países livres é preocupante.

O primeiro motivo é o nível elevado, 33% das ocorrências registradas com teor negativo sugerem um ambiente contrário ao tão necessário apoio à Igreja Perseguida. Mas, além da alta porcentagem, o tipo das ocorrências negativas chama ainda mais atenção.

Na Inglaterra e na Alemanha, verificaram-se restrições à liberdade religiosa originárias no sistema legal dos dois países. Enquanto na Inglaterra, um evangelista era processado por distribuir folhetos num evento de homossexuais, na Alemanha, a ministra da justiça manifestou-se a favor de limitações à liberdade religiosa.

Já nos Estados Unidos, em dois casos, o órgão oficial responsável por se manifestar quanto às condições de liberdade religiosa no mundo parece ter submetida a precisão de informações a interesses político-econômicos. No primeiro caso, omitiu-se a Arábia Saudita da lista de países preocupantes, no segundo caso, deu-se ao Vietnã uma classificação que, segundo os afetados pela conduta do governo vietnamita, parece precipitada.

Entre os casos positivos destacam-se as diversas mobilizações a favor dos refugiados norte-coreanos em território chinês. Inglaterra, Estados Unidos, Coréia do Sul e até o Brasil entraram nessa lista.

Destacam-se também as manifestações do senhor Ratzinger - papa Bento XVI - e que chamaram a atenção do mundo a aspectos problemáticos para os cristãos no mundo todo. Num momento, ele defendeu o condicionamento da entrada na comunidade européia a práticas mais abertas de liberdade religiosa e no outro ele chamou a atenção para um teor de agressividade implícito no fundamentalismo islâmico.

Os países-campo

Entre os países-campo detectaram-se alguns padrões.

O primeiro padrão que se destacou é o do predomínio absoluto de casos negativos: Índia, Irã, Laos, Paquistão, Vietnã e Iêmen países em que 100% dos casos foram negativos. O total de países-campo analisados foi 11.

Outros padrões foram também verificados.

Na Arábia Saudita, o predomínio de prisões entre os casos negativos (3/5); o mesmo aconteceu com o Irã (4/8) e no Laos (2/7). Já os assassinatos predominaram tanto no Laos (2/7) - com a mesma representatividade das prisões - quanto na Somália (3/5).

Em termos gerais, entre os casos examinados verificam-se prisões, assassinatos, coações, expulsões, expropriação de terrenos, prisão de refugiados, iniciativas legais restritivas, supressão de informações, invasões de igrejas, morte de cristãos na prisão e perseguição generalizada.

Além dos padrões mencionados mais acima, alguns dos casos gerais merecem destaque:
1. A lei de identificação religiosa criada no Irã.
2. Obrigatoriedade de oração islâmica criada na Somália.
3. Os casos de morte na prisão ocorridos no Vietnã.
4. Ainda no campo dos destaques, dois países têm de ser mencionados: Índia e Iêmen.

O Iêmen porque não nos chegou nenhuma notícia sobre este que é o 8º país mais intolerante à fé em Cristo. Aliás, este é o caso atribuído ao país no quadro de tendências mais acima, a ausência completa de notícias sobre o país foi considerada um caso negativo.

E foi feita esta classificação porque, mesmo sendo notória a importância de sua cultura e do seu povo na região, não chegam notícias sobre o país. Ou talvez não saiam notícias. De se ouvir dizer, sabe-se que o país é altamente repressivo e não tolera qualquer tipo de "dissidência".

Opostamente ao Iêmen, tem-se a Índia. A Índia é o país que mais tem sido freqüente em termos de notícias no site Portas Abertas. Numa medição feita em setembro de 2005, a Índia tinha 9 artigos em 56 publicados em agosto do mesmo ano. Já em 2006, a Índia teve 144 artigos num total de 884, 16,29%, quase a mesma porcentagem anterior.

Por isso tudo, infelizmente, espera-se que a Índia suba na Classificação de Países edição 2007. Este tem sido seu padrão, já que em 2005 estava em 34º lugar e em 2006 subiu para 26º lugar. De todo modo, em poucas semanas saberemos a nova classificação alcançada por esse país.

Além da Índia, outros países que podem ter piorado suas classificações são a Indonésia, Paquistão, Nigéria, Turquia e Eritréia. Entre esses países, dois chamam a atenção, a Turquia e a Eritréia.

Nesses dois países, o acirramento das relações com cristãos teve destaque na imprensa mundial. Na Turquia, primeiro teve-se a prisão de missionários e, no fim do ano, houve as manifestações de contrariedade à visita de Bento XVI.

Na Eritréia, ganhou manchetes o aprisionamento de inúmeros evangélicos em contêineres, com destaque para a cantora Helen Berhane, cujos maus tratos e tortura sofridos e a posterior soltura foram noticiados até pela BBC e acompanhados pela Anistia Internacional.

Entre os casos positivos nos países-campo, o principal destaque vai para o Butão. Dos seis casos analisados, quatro tiveram o sinal positivo: avanço da pregação do Evangelho, mudanças políticas, soltura de presos e, até o falecimento do rei pode estimular importantes mudanças no exercício de poder naquele país.

Outro exemplo importante vem da Coréia do Norte. Mesmo sendo o 1º país mais intolerante à fé cristã, os números daquele país foram iguais aos do Butão e dos seis casos estudados, quatro tiveram valor positivo: houve permissão para um culto cristão; prisioneiros foram libertados; o país teve de pedir ajuda humanitária no exterior - o que poderá repercutir nos padrões de liberdade religiosa do país -; e acabou não aparecendo entre os 10 países de publicação mais freqüente no site Portas Abertas.

Finalmente, um importante precedente foi obtido na China em que um irmão teve sua sentença revogada.

Conclusões

Tomando-se os casos acompanhados pela Portas Abertas em 2006, as tendências para 2007 não se mostram promissoras. Especialmente porque a intolerância parece estar se fortalecendo também nos países "livres". Além disso, aos países-campo que já vinham se destacando negativamente, outros vieram se ajuntar.

Claro que os casos mostraram algumas vitórias e além dessas aqui discutidas, há outras vitórias que não foram sequer noticiadas, pois têm a ver com a execução dos projetos da Portas Abertas e, por isso, são confidenciais.

Mas no todo, respondendo à pergunta inicial do artigo, pode-se dizer que o contexto para 2007 deverá ser mais complicado do que foi 2006. Possivelmente, mais baixas de nossa família na fé, mais casos para serem noticiados, mais pedidos pelos quais interceder, mais necessidades para serem supridas, enfim, mais causa com que se engajar.

Que nosso Pai nos dê fé e perseverança para cruzar o ano em Sua presença, servindo cristãos perseguidos.


Douglas C Monaco
Secretário Geral
Portas Abertas Brasil


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