Laicidade e laicismo não são a mesma coisa

É necessário diferenciar o laicismo, como privatização do religioso e exclusão da vida pública, da laicidade, que supõe a separação necessária entre a Igreja e o Estado, assumindo o religioso como parte da esfera social.

A Constituição da Itália, por exemplo, está baseada no princípio da laicidade. Mas laicidade entendida no sentido anglo-saxônico e não no francês, que fez da França da terceira República um modelo de comportamento antireligioso.

Este princípio precisa ser aprofundado. Há elementos que auguram uma evolução daquela rígida laicité. Junto ao modelo francês de laicidade, está o anglo-saxão, que mostra outra aproximação do fato religioso.

Enquanto muitos pensadores expressam um conceito de laicidade aberto ao diálogo e à confrontação construtiva, alguns meios de comunicação expressam uma laicidade cultural definida por oposição ao fato religioso (cristão), assumida como modelo de uma laicidade política que parte do critério de exclusão do religioso.

Habermas

Houve um diálogo entre o então cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Jürgen Habermas no qual se concluiu que “uma autêntica democracia leiga permite às instituições religiosas que publiquem suas mensagens para poder oferecer aos cidadãos uma matéria de reflexão de forma equânime”.

Impedir as Igrejas de mostrarem sua postura sobre qualquer tema não é um ato de laicidade, mas de ostracismo para um sistema de valores, só porque este não encaixa dentro da cultura dominante.

Alguns defensores da laicidade crêem que não devem existir valores absolutos, porque sua existência pressuporá automaticamente a falta de laicidade. Habermas, ao contrário, afirma que para salvar-se do risco do relativismo radical e do totalitarismo ideológico, são necessários uns princípios absolutos, o ‘mínimo comum ético’.

A tarefa de qualquer pessoa que tenha um sistema forte de valores, seja católico ou de outra confissão ou cultura é a de “realizar o esforço de traduzir seus próprios valores à ‘linguagem universal’ do debate democrático”.

Cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano