Perseguição: normal e previsível

“Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós” (Jo 15.20)

Eles admitiram estar confusos, esses pastores e líderes que resistiram décadas de perseguição na extinta União Soviética. Ainda assim, concordaram em compartilhar as histórias de suas vidas, famílias e igrejas com a comunidade cristã internacional, e esperam ajudar igrejas e organizações missionárias do ocidente a desenvolver uma missiologia mais bíblica no que diz respeito ao sofrimento.

Esses pastores e líderes são bem familiarizados com a perseguição, o sofrimento e o martírio.

A confusão apareceu perto do fim de uma série de entrevistas. Histórias de vidas já tinham sido compartilhadas, episódios de perseguições narrados e documentados e lágrimas foram derramadas à medida que os eventos iam sendo dissecados. Os testemunhos foram impactantes. O entrevistador sentia como se fossem fatos descritos nas Escrituras – que estava ouvindo histórias bíblicas do nosso tempo.

Foi então que o momento chegou, quando o entrevistador começou a fazer umas perguntas pouco profissionais, pouco elaboradas. Depois de ouvir uma história emocionante atrás da outra, o entrevistador não pôde deixar de perguntar ao grupo de pastores e líderes: “Por que vocês enganaram os ocidentais? Por que não escrevem suas histórias? Um livro que relate sua fé e perseguição? Essas histórias dariam um filme. É como se as histórias tivessem saído diretamente da Bíblia! Por que vocês ainda não compartilharam as lições que aprenderam?”.

Tão natural quanto nascer do sol no leste

A explosão do entrevistador foi recebida com um silêncio confuso. Os pastores e líderes estavam pasmados. A maioria das pessoas simplesmente ignora as perguntas embaraçosas e as dificuldades de um desafio. Finalmente, um dos irmãos se levantou, pegou o entrevistador pelo braço e levou-o para a janela do grande cômodo.

Enquanto olhava para o horizonte, o homem falou ao entrevistador: “Enquanto seus filhos cresciam, quantas manhãs o senhor os levou até a janela de sua casa e disse a eles – olhe, o sol está nascendo no leste hoje?”.

O entrevistador achou a pergunta boba. “Bem, eu nunca fiz isso”, ele respondeu, “se tivesse feito, meus filhos teriam achado que eu tinha enlouquecido, porque o sol sempre nasce no leste!”.

O irmão, então, gentilmente concluiu seu pensamento: “Por isso falamos tão pouco sobre sermos perseguidos e sofrermos. Por isso não escrevemos nossas histórias. A perseguição é uma realidade sempre presente simplesmente por andarmos com Jesus. É como o sol nascendo no leste”.

“Além do mais”, ele continuou, “quando foi que os cristãos ocidentais pararam de ler a Bíblia? Nossas histórias já foram contadas. Deus já contou a todos nós tudo o que precisávamos saber sobre perseguição e sofrimento”.

Dizer que o entrevistador se sentiu profundamente humilhado é dizer o óbvio. Mas a verdade encontrou o caminho de seu coração naquele dia e ele foi mudado.

Que tipo de pessoa enxerga a perseguição como sendo bíblica, previsível e sem necessidade de ser mencionada? Certamente uma pessoa que vive as Escrituras e tem intimidade com Deus. Seremos sábios se ouvirmos e aprendermos as lições.

Primeiro: a perseguição é uma coisa normal para aqueles que seguem Jesus.

As Escrituras deixam essa questão bastante clara do começo ao fim. É bem simples, como o sol nascer no leste. A perseguição não é boa ou má, ela simplesmente existe. Os cristãos certamente não procuram a perseguição, mas ao mesmo tempo, os cristãos não devem se paralisar de medo.

A intenção dos perseguidores é punir, intimidar e (principalmente) silenciar o povo de Deus. Mas Deus pode usar a perseguição de outras maneiras. Seu maior propósito na perseguição é trazer seus filhos para mais perto de si e fazê-los prestar mais atenção ao sofrimento que o Senhor Jesus passou.

Quando os seguidores de Cristo sofrem por causa de seu Salvador, sua fé se torna mais valiosa. Esse tipo de sofrimento também aumenta o impacto de seu testemunho.

Segundo: a conversão é a principal causa de perseguição.

Isso pode soar esquisito, mas leve em consideração essa simples verdade: O resultado do encontro de uma pessoa com Jesus é a perseguição. A única maneira de parar com a perseguição é impedir que as pessoas tenham um encontro com Cristo.

Conversão e sofrimento por causa da fé são duas faces de uma moeda. Muitos cristãos ocidentais se apegam a uma missiologia que é, no mínimo, biblicamente inconsistente.

Eles vêem a perseguição como “ruim”, como uma “punição”, e algo a ser “evitado a todo custo”. Um cristão ocidental que enfrentasse perseguição normalmente se perguntaria: “O que fiz para merecer isso?” E a pergunta pode ser traduzida por “O que eu fiz de errado?”.

Mas os cristãos que estão mais acostumados com a perseguição vêem as coisas de maneira diferente. Eles provavelmente diriam: “Estamos sendo perseguidos porque estamos no lado certo!”. Que perspectiva diferente!

A Igreja ocidental tem sido conduzida por vários líderes e organizações que, com as melhores intenções, pedem para orar pelos irmãos que passam por perseguição. O pedido é bíblico e santo, mas os que oram, normalmente pedem para que Deus acabe com a perseguição.

Será que o nosso motivo de oração é esse, quando a única maneira de acabar com a perseguição é impedir que as pessoas tenham um encontro com Jesus?

Aqueles que vêem a perseguição como o nascer do sol no leste raramente pedem aos outros para orar pelo fim do sofrimento deles. Em vez disso, pedem-nos para orar para que:

• permaneçam obedientes em meio à perseguição;
• sejam ousados em seu testemunho;
• Deus use o sofrimento deles para atrair outros para si.

Mas eles não pedem pelo fim da perseguição.

De forma surpreendente, eles entendem que não há perseguição sem crucificação. Ao passo que não buscam sofrer, eles encontram alegria por poderem sofrer por e com Jesus. Em suas dores, têm o privilégio de se identificarem com seu Senhor ressurreto.

Terceiro: mesmo quando missionários fizerem tudo certo, o resultado de um testemunho destemido e culturalmente perspicaz será a perseguição, o sofrimento e o martírio de outros.

Esse é o resultado da “aventura” missionária. Um dos ataques mais poderosos de Satanás é por meio dos frutos de um testemunho cristão.

Pense nesta cena: A fé foi compartilhada e aceita. Um novo discípulo é adicionado à família. A pessoa que compartilhou as boas novas se sente responsável, e Satanás pode usar esse sentimento bom de responsabilidade para seus propósitos malignos.

As palavras que o diabo sussurra são devastadoras: “Você foi fiel em seu testemunho. Agora, veja bem, uma pessoa está sofrendo por causa do que você fez! Seu querido discípulo está sento perseguido! Foi você quem causou tudo isso. Talvez tivesse sido melhor se ele nunca tivesse encontrado Cristo”.

É fácil o inconsciente aceitar essas palavras. É fácil acreditar que a perseguição é culpa sua.

Para tentar suavizar essa culpa terrível, os missionários ocidentais normalmente entram no “modo resgate”. O plano é simples: “Talvez devêssemos levar esse novo discípulo para um local seguro!”.

É uma pena que durante esse processo, o chamado de Deus para plantar igrejas se perca. E, o que é mais grave ainda, os resgatadores começam a acreditar que segurança é algo que podem garantir.

Claro que não podemos ousar ser negligentes. Nenhum cristão tem o direito de se silenciar enquanto outro cristão sofre! A Igreja ocidental não tem o direito de ignorar o sofrimento de seus irmãos redor do mundo.

Para 80% da irmandade cristã no mundo atual, a perseguição continua tão comum quanto o sol nascer no leste. Claro que a perseguição nunca é procurada ou evitada a todo custo por causa de medo. Entretanto, quando ela chega, cada seguidor de Cristo é convidado a recebê-la, a enxergá-la como uma coisa normal e a orar para que Deus, de alguma maneira, use-a para o seu propósito.

Sobre o autor

Dr. Nik Ripken (pseudônimo) é um veterano em missões, envolvido há 24 anos com a International Mission Board, tendo servido em Malaui, África do Sul, Quênia, Somália e Alemanha.

Atualmente, ele e sua esposa servem com estrategistas para o Norte da África e o Oriente Médio, tendo responsabilidades especiais na região do Chifre da África e em alguns países do Golfo.