"Que palestinos e israelenses sejam salvos"

O texto a seguir foi escrito por Labib Madanat, diretor de Desenvolvimento da Sociedade Bíblica Palestina, nos últimos dias.

No ano passado, depois do assassinato de Rami Ayyad, tive a chance de visitar Gaza muitas vezes. A mais memorável de todas foi em fevereiro de 2008, juntamente com o Irmão André.

Nessa visita, parei para pegar uma pedra de um lugar onde um soldado israelense fora morto em ação há 18 anos. Fiz isso a pedido do pai do soldado, que depois se tornou um amigo meu.

Também visitamos Pauline Ayyad e sua bebê chamada Sama; encorajamos ela a dividir sua dor, sua alegria e seu luto.

Durante essa viagem, conhecemos um líder muçulmano de Gaza. Um cristão, um judeu e um muçulmano: em uma única visita, ultrapassamos as fronteiras, compartilhando o amor de nosso Pai e sua compaixão pela humanidade torturada em Israel e na Palestina.

Nas últimas duas semanas, mesmo agora, testemunhamos atrocidades em Gaza; muito dolorosas e cruéis.

No sul de Israel, milhares de pessoas estão próximas de abrigos ou dentro deles, com medo dos bombardeios de Gaza. É claro que não se compara os mortos e feridos entre Gaza e o norte de Israel. Michael Sabbah, o patriarca latino aposentado em Jerusalém, disse que “a dor de cada pessoa é a dor do ser humano”. Quem culpar e até onde voltar no passado? Qual é a base para se decidir a justiça?

Como cristão árabe palestino/jordaniano, eu, naturalmente, deveria culpar Israel e julgá-los responsáveis pelo assassinato de muitas crianças em Gaza. No entanto, ao mesmo tempo, um amigo judeu pode vir e dizer o mesmo sobre o Hamas ou outros governos e organizações árabes ou palestinas, e responsabilizá-los pelo assassinato de muitas crianças judias.

Envolver-se no jogo da culpa é perpetuar o efeito da violência e do mal; é intensificar o conflito. Isso não significa inocentar-se, significa apresentar o arquivo de todos os culpados. Eu sou um deles, diante do único que julga justamente e cujas portas de misericórdia estão sempre abertas para aqueles que procurarem.

Então, o que fazemos? Dizemos que é responsabilidade de Deus e fugimos? É claro que não. Ele assumiu a responsabilidade da justiça e nos deu a responsabilidade da compaixão. “Ame seu inimigo” nesses dias têm muito significado, bem como “ame teu próximo como a ti mesmo”. Em Lucas 4, Jesus disse para  os congregados na sinagoga em Nazaré: “O que vocês acabaram de me ouvir ler se cumpriu hoje”. Nós somos a continuação desse cumprimento. Que ele entre em ação hoje.

Dentro do corpo de Cristo, somos pessoas que também pertencem a nações. Esse pertencer, essa cidadania, deveria ter significado, valor e forma em nossa cidadania celestial. Há dois dias, eu estava abatido por raiva e dor; ontem me encontrei com meu irmão e colega Victor Kalisher, que é judeu messiânico. Nós conversamos, abrimos nosso coração e oramos. O corpo de Cristo deveria ser um território seguro para se andar na luz, receber cura e praticar o perdão. Não deveria ser abandonado para se tornar outro campo de batalha, como Jesus disse: “Minha casa é uma casa de oração e vocês tornaram-na um covil de ladrões”.

Convido todos vocês, pedras vivas, Corpo de Cristo, para ser abrigo e cumprimento das boas-novas para nossa família ferida. Que palestinos e israelenses sejam salvos.

Labib Madanat
Diretor de Desenvolvimento da Sociedade Bíblica Palestina