Relendo a história do Natal com os olhos do Oriente Médio

“Cristãos de Marrakech a Bali, do Iêmen ao Uzbequistão, sabem o que significa perder a reputação e a sua família quando trocam o islã por Cristo. O Natal, entretanto, diz respeito a ser rejeitado e prender-se a Cristo, sem ter aonde ir. Diz respeito a estar sozinho no campo, e, de repente, alguma coisa maravilhosa acontece.” Essas são as palavras de um obreiro da Portas Abertas sobre a experiência do Natal no Oriente Médio.

“Você já reparou como nos lembramos das histórias da Bíblia de modo totalmente diferente de como estão verdadeiramente narradas na Palavra? Quando se lê as Escrituras, encontram-se facilmente relatos de assalto, assassinato, traição e até incesto. Esses relatos, entretanto, raramente falam conosco. Preferimos viver em um mundo cheio de histórias amigáveis e, de alguma forma, a dura a realidade que encontramos ao nosso redor acaba minimizada quando lemos a Bíblia.”

Uma dessas histórias romanceadas é a do Natal. Na maior parte das culturas, o Natal é tempo de compartilhar, de se reunir com a família e de ter refeições em conjunto. As semanas que levam ao Natal são cheias de esperanças de criação de um pedacinho do céu em nossos lares, que nos permitira relaxar, curtir um ao outro e sentir-se seguro dentro longe das realidades, mas do lado de fora. Mas o Natal e realmente sobre isso?”

Solitário

“Saí de casa muito cedo. Eu era realmente apenas um adolescente quando me mudei um continente do outro lado do mundo, longe de minha mãe e de meu pai. Por causa da distância, eu não podia voltar para casa para o Natal. Então, algo parecia errado com o Natal. Todos sabem que se deve estar em casa para essa celebração, dentro de algum lugar seguro. Eu me lembro disso porque não havia família “substituta” que de alguma forma sentisse a necessidade de me acolher. Eu já sentia essa ansiedade desde outubro. Em novembro, estava em pânico e timidamente ligava para as pessoas tentando saber o que fariam no Natal – sondando minhas chances de ser convidado. Eu tentei não parecer desesperado, mas mesmo com as pessoas sabendo que eu não tinha família para visitar e não fui convidado para a casa de nenhum deles. Ano após ano – algum momento em Dezembro – eu encontrava uma forma de me convidar para a casa de um amigo e ficava muito aliviado assim que sabia onde passaria o Natal e que não seria deixado de fora em algum lugar no frio. Eu passei um Natal sozinho na casa de minha amiga, porque ela foi ver sua família e não seria apropriado me levar. Quero dizer, eu era cristão e parte de uma igreja, não sou invisível e, definitivamente, não sou indestrutível. E em nossa idéia individualista de como celebrar o Natal eu me sentia excluído.”

Oriente Médio

“Anos depois, fui viver no Oriente Médio. Eu amava o sentimento de comunidade entre os cristãos. Pois, de alguma forma, eles eram minoria, então faziam do Natal um momento especial em grupo. Natal não era algo para celebrar apenas com sua família. Natal era algo que para celebrar com sua tribo, igreja, comunidade. De alguma forma, o Oriente Médio considera mais as tribos e comunidades do que somente indivíduos. Eu me lembro de passar toda a tarde com uma amiga somente contando quantos primos ela tinha. E é admirável como todos conseguem lembrar os nomes dos parentes distantes de até cinco ou seis gerações. Não importa o que aconteça, sua tribo cuidará de você. Você pode contar com sua família para ajudá-lo a conseguir um emprego, construir sua casa, arrumar alguém para casar e cuidar de seus filhos. Eles estão ao seu redor dia e noite com bons conselhos e sábias lições e ensinam a você tudo o que precisa saber sobre a vida.”

Belém

“Foi neste cenário que eu reli a história do Natal e percebi algo que nunca havia visto antes. José recebeu a ordem para retornar à cidade de onde vinha sua tribo para se registrar. Ele estava noivo de Maria, mesmo ela estando grávida. Quando foi para Belém, o lugar onde ele deveria ter muitos tios, primos, tias-avós e sobrinhas distantes, não havia lugar para ir! Isso é grandioso. Você nâo consegue não pensar: o que aconteceu com a família de José? Todos sabem que hospitalidade é um dos valores mais importantes no Oriente Médio. Vi inúmeros lares onde a família inteira dorme na sala, no carpete, e sempre há lugar para mais um. Não resta dúvidas de que eles oferecem a melhor comida da casa para o visitante, e se não tiverem um lugar para ficar uma família completa, os anfitriões preferem pedir a seus próprios filhos que durmam fora, para não deixar de acomodar seus convidados.

Após a árdua viagem no jumento, indo de Nazaré até Belém, José deveria ter parado e se hospedado com seus parentes. Ele iria para a cidade, de onde vinha seu clã. Seguramente havia familiares ali que poderiam recebê-lo. Curiosamente, ele não o fez. A Bíblia realmente não mostra isso, mas ainda que houvesse multidões de pessoas chegando a Belém, seguramente seus parentes teriam oferecido o melhor para ele e sua mulher grávida Maria. Mas isso não aconteceu! Na realidade, a história que não se conta é que José viajou para longe de sua casa somente para ser rejeitado por sua tribo. Há apenas 50 anos atrás, as mulheres em nossas sociedades foram rejeitadas quando ficaram grávidas fora do casamento; quanto mais no Oriente Médio naquela época. Provavelmente, a família de José teria ouvido os rumores sobre Maria e sua reputação questionável e decidiram que, se José ainda estivesse com ela, eles o rejeitariam também. Quem imaginaria que na história do Natal há um caso de rejeição? Cristo, antes mesmo de nascer, foi rejeitado. No entanto, José se manteve firme, somente para depois se ver afastado das coisas mais importantes que uma pessoa no Oriente Médio pode ter: sua reputação e sua família. É difícil descrever com palavras quão grande sua perda teria sido.”

Perda

“Não é pouco perder seu status e seus recursos. Qualquer um que tenha perdido seu emprego, sua casa ou talvez ambos pode falar sobre isso. Outros, que perderam seu cônjuge ou seus amigos devido à crise econômica podem falar sobre o tamanho do trauma que isso pode produzir. Isso se parece com o Natal? Se você perdeu alguém ou algo, o Natal é a última celebração que você quer que aconteça, pois só aumenta o senso de perda. No Oriente Médio ainda existem pessoas que sabem exatamente como isso doi.

Muitos dos cristãos de Marrakech a Bali e do Iêmen ao Uzbequistão sabem como se sentem aqueles que perderam sua reputação e sua família quando rejeitaram o Islã e confessaram seu amor a Cristo. Mas o Natal é sobre ser rejeitado e se apegar a Cristo. É sobre não ter um lugar para ir. É sobre estar lá fora nos campos sozinho – e de repente alguma coisa maravilhosa acontecer: um coro de anjos aparece. Eles dizem “Não temas!” “Temos boas notícias!”. Você consegue ouvir José e Maria pensando: ‘Boas notícias seriam muito bem-vindas! As coisas ficaram tão ruins quanto possível. E então o anjo diz: ‘Um menino nasceu, e seu nome é Deus conosco!’ É difícil de acreditar. O casal que havia sido rejeitado é quem melhor pode entender o que isso significa. Deus conosco! Isso nos dá uma perspectiva totalmente diferente dos acontecimentos. Era somente aos olhos das pessoas que José e Maria estavam excluídos. Da perspectiva celestial, eles faziam parte de um dos mais importantes eventos da história. Eles estavam inseridos no plano de Deus.  Eles estavam onde o Senhor poderia falar com eles e dizer: ‘Existem boas noticias! Eu sou com vocês. Eu sou tudo o que vocês poderiam querer ou necessitar. Isso é algo muito radical. Você já experimentou o Natal desta forma? Você precisa experimentar o Natal desta forma? Você sabe de alguém que necessite?”

Oração

Ore pelos cristãos secretos dos países do Oriente Médio, que celebrarão o Natal de forma especial, quase sempre secreta. Ore por proteção e sabedoria e por maneiras criativas para que eles comemorem o nascimento do Jesus Cristo.