Perseguida pela honra perdida

| 11/07/2006 - 00:00


Sentado diante da vítima de violência sexual e de sua família, que mora em um cômodo só, eu fiquei desconfortável ao saber que o estuprador e seus parentes viviam apenas há alguns quarteirões.

Ribqa Masih vive aqui um terror diário, sem qualquer tipo de segurança. Eu, para fazer aquela visita noturna à sua vila, tinha dois carros cheios de homens e um policial armado.

O paquistanês acusado de estupra-la foi libertado sob fiança e continuou ameaçando a jovem cristã. Ele foi acusado de pressiona-la a se converter ao islamismo por meio do estupro.

"Tenho medo de sair", disse Riqba, antes de cair no choro. "Tenho estado perturbada demais para estudar."

Ribqa Masih terminou seu Ensino Médio e esperava os resultados em setembro de 2005 quando foi seqüestrada e estuprada por vizinhos muçulmanos e ricos. Eles vivem em Gorala, perto de Faisalabad. Dez meses depois, Riqba, 19 anos, ainda precisa refazer duas das provas para seguir seu sonho de se tornar médica.

Um dos dois homens que Riqba acusou de estupro, Muhammad Kashif, recebeu fiança por causa de uma abertura que a lei dá a suspeitos criminosos que sofrem alguma doença. Ele tem psoríase: manchas vermelhas e secas na pele.

"Psoríase não o impediu de estuprar Riqba", disse Khalil Tahir Sindhu, advogado de Riqba. Nem impediu Muhammad de fugir da polícia outubro passado em um tribunal de Faisalabad, quando seu pedido de fiança pré-prisão foi rejeitado.

Mas, em dezembro do ano passado, a Alta Corte de Lahore libertou o suspeito de estupro.

No mês passado, a mesma corte negou fiança a Ghulam Abbas Hussain, o outro homem acusado de estuprar Riqba. Com Ghulam na prisão, a família de Riqba disse que Muhammad os pressiona a interromper o processo legal.

O pai de Riqba diz que Muhammad o ameaça ao telefone uma vez atrás da outra, dizendo para ele desistir desse caso.

Vamos acabar logo com isso

Minha patrulha de segurança e eu chegamos na vila de Gorala depois de escurecer. Chegamos com quase duas horas de atraso, depois de nos perder no emaranhado de estradas de terra fora de Faisalabad.

Eu estava ansioso por recuperar o tempo perdido, mas meu anfitrião (que por razões de segurança deseja permanecer anônimo) me advertiu: "Espere, deixe os policiais saírem primeiro". O policial saiu do carro e exibiu sua arma e seu uniforme à rua vazia e suja.

Fui rapidamente conduzido por uma porta no muro de concreto, atravessando uma sala vazia, com diversas cadeiras. Depois cheguei na escuridão do quintal, do outro lado da sala.

Antes que meus olhos pudessem se acostumar à noite, senti pessoas ao meu redor. O quintal estava cheio de crianças de pele escura, recuando com os olhos estatelados. Pessoas mais velhas, de cabelo cinza, se aproximaram e colocaram sus mãos sobre minha cabeça, como que me abençoando. Eles murmuraram palavras entusiasmadas que eu não conseguia entender.

Por um momento, eu relaxei. A área comum, protegida por muros, estava cercada de cômodos habitados pelos parentes de Riqba.

Ribqa Masih me recebeu. "Estávamos orando para que você pudesse chegar aqui em segurança."

Suas próximas palavras estavam longe de ser confortadoras: "Foi ficando tarde, e alguma coisa poderia ter acontecido com você, porque todas as pessoas acusadas de me estuprar vivem nesta vila".

Meu tradutor, um paquistanês, sussurrou no meu ouvido: "Estou ficando assustado. Vamos acabar logo com isso".

Não perguntei a Riqba sobre o estupro de setembro de 2005. Todos nós conhecíamos a história. Uma amiga muçulmana, Humaira Hussain, havia convidado Riqba para visitar a cidade vizinha de Faisalabad com ela. Seu irmão, Ghulam Hussain, e seu amigo, Muhammad Kashif, encontraram as duas mulheres assim que chegaram.

Riqba disse que eles lhe ofereceram um gole de água. A próxima coisa que ela se lembra foi de acordar em uma sala trancada onde Ghulam Hussain e Muhammad a estupraram por toda a noite.

Seus agressores lhe disseram para se converter ao islamismo, ou então eles iriam matar sua família e ela. Riqba disse ter acreditado neles, pois eles pertenciam a uma família influente e donas de muitas terras em suas vila.

Em janeiro de 2006, um tribunal local libertou Humaira Hussain e sua mãe com o pagamento de fiança. As duas mulheres foram acusadas de colaborar com os estupradores.

É impossível que Riqba se esqueça do seqüestro com as audiências contínuas e as ameaças de seus agressores. "Para mim, o mais difícil foi ver como isso afetou meu pai, minha mãe e meus parentes. Eles têm sido muito bons comigo".

Prostitutas

O estresse dos últimos meses tem perturbado a família de Riqba.

Sentada próxima de sua filha, a mãe de Riqba demorava para falar ou sorrir. Seu marido me disse que ela emagreceu e sofreu depressão. Os irmãos mais novos de Riqba tiveram que se matricular na escola de Faisalabad, porque seus colegas muçulmanos da vila começaram a chamá-los de "prostitutas".

O pai de Riqba ficou feliz pelo pedido de fiança de Ghulam Hussain ter sido rejeitado. Isso aconteceu um dia antes da minha visita. Mas ele, pai de sete filhos, admitiu que nos últimos dez meses tem sido impossível manter ter um emprego fixo por causa das audiências das quais ele deve participar.

A falta de cooperação da polícia pode ser acrescentada às dificuldades da família. O caso, que já tem quase ano, ainda não teve seu challan preenchido, um relatório usado como evidência nos julgamentos criminais do Paquistão.

Khalil, o advogado, disse que o challan poderia ter sido feito em 14 dias. Ele acusou os policiais de apoiarem os suspeitos de estupro em outubro passado e pediu que o tribunal indicasse novos policiais para cuidarem do caso. O advogado tomou o caso de Riqba sem cobrar nada.

Prendendo as vítimas

O estupro de Riqba não é um caso isolado. Uma organização de ajuda à mulher paquistanesa disse que foram relatados 2.412 seqüestros de mulheres e crianças no país em 2005.

O Conselho de Paz do Paquistão descobriu que muitas mulheres não têm a coragem e o apoio da família para exigir justiça em face às leis parciais e à burocracia corrupta. Quase 50% das mulheres que denunciaram estupro estão presas sob as Ordenanças Islâmicas Hudood do país, que consideram crime relações sexuais extra-conjugais.

A lei requer que a vítima de estupro tenha quatro testemunhas muçulmanas do sexo masculino, que sejam "pessoas confiáveis" e "se abstenham de grandes pecados".

Perto da vila de Riqba, outra mulher, de uma minoria religiosa, tem lutado para processar policiais que, segundo ela, a seqüestraram e a estupraram. Sonia Naz ganhou as manchetes internacionais em agosto de 2005, tornando público o estupro cometido pela polícia de Faisalabad.

Desde então, os supostos estupradores desta mulher ahmadi, incluindo o superintendente de polícia de Faisalabad, foram libertados sob fiança. O marido de Sonia se divorciou dela e a família dele a rejeita por causa da "desgraça" que ela lhes trouxe.

Mas, os estupradores paquistaneses, nem sempre são libertados. As autoridades enforcaram quatro homens em Faisalabad no começo de julho, por violarem uma garota cristã há sete anos. Seus apelos à Alta Corte de Lahore , à Suprema Corte e ao presidente do Paquistão foram negados.

Apoio raro

Na vila de Riqba, um político muçulmano ficou ao lado da família da moça, atestando que Muhammad tem ameaçado os cristãos. Muhammad Latif, o político, negociou o retorno de Riqba com Humaira e Muhammad, depois que ela desapareceu.

Latif, membro do conselho muçulmano da vila, se levantou para me receber assim que saí da casa de Riqba. Ele encheu a rua, antes vazia, com uma dúzia de homens sentados em cadeiras.

Nossas brincadeiras foram interrompidas pelo meu ansioso anfitrião. Mais abaixo na estrada, dois clérigos muçulmanos pararam para me observar.

Voltando às pressas para a relativa segurança de Faisalabad, pensei novamente nas últimas palavras de Riqba: "Percebi agora que, se uma garota sai de casa por apenas uma única noite, o respeito que ela tinha antes não volta nunca mais".

Mas, como a família de Riqba a apoiou em vez de rejeitá-la, ela pode ser uma das mais sortudas vítimas de estupro do Paquistão.


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