Centenas de orações alcançaram minha cela

| 03/08/2006 - 00:00


O texto a seguir foi escrito pelo pastor Carlos Lamelas sobre o tempo que passou na prisão. O relato traz palavras de sincera gratidão pela campanha de oração e cartas promovida pela Portas Abertas.

O Salmo 119.65-72 é o mais condensado resumo da traumática experiência pela qual tive de passar, junto com minha família (minha esposa Uramis e minhas filhas Estefania e Daniela), durante os 126 dias, entre 20 de fevereiro e 26 de junho de 2006. No entanto, decidi narrar, para o meu próprio bem, os acontecimentos mais relevantes durante esse período inesquecível de nossas vidas.

Detenção inesperada

Nas primeiras horas da manhã de 20 de fevereiro, cerca de dez oficiais do G-2 (Departamento de Segurança Estadual) apareceram em nossa casa, se identificaram e apresentaram uma ordem de prisão, sob a suposta acusação de "tráfico ilegal de pessoas". Eles revistaram a casa e o escritório, de onde eu trabalhava como presidente da Igreja de Deus. Eles examinaram meu computador e outros equipamentos de trabalho, os quais eram todos de propriedade privada e legalmente adquiridos. Eles também viram meus documentos pessoais e aqueles relacionados à instituição.

Ainda que o oficial encarregado da operação, major Jesus Miranda, tenha feito certas ameaças e usado expressões consideradas obscenas, os demais oficiais foram corteses e respeitosos comigo e com os membros da família presentes.

Fui levado às instalações do Centro de Investigação de Crimes contra a Segurança do Estado, mais conhecido como "Villa Maristas", onde eu ficaria durante os 126 dias que foram necessários para a investigação. É importante observar que eu fui interrogado apenas 5 vezes, durante o primeiro mês de encarceramento (de fato, na última vez em que fui levado para interrogatório, a sessão foi interrompida e deixada inconclusa pelo interrogador). No restante do tempo eu fui totalmente ignorado, talvez para que eu pudesse ter tempo para "ter fé e ler a Bíblia", conforme sugeriu o primeiro-tenente, sem conhecer o progresso do processo investigativo. Ele foi designado como responsável por mim depois que eu já estava lá há 85 dias.

Temperatura alta, ventilação deficiente

As celas que ocupávamos tinham 6 metros quadrados e eram ocupadas por até 4 pessoas. Nesse espaço havia dois beliches, uma privada e uma banheira, que só podíamos usar quando ligavam a água (geralmente depois das 10 da manhã e por apenas de 15 a 20 minutos). Além disso, se tivéssemos recipientes plásticos, coletávamos água para o restante do dia, para beber e usar para dar a descarga.

A temperatura na cela freqüentemente passava dos 40º C, e a ventilação era deficiente. Havia duas pequenas aberturas que não possibilitavam ver do lado de fora e não permitiam um fluxo de ar adequado.

As camas eram de metal. Para dormir, colocávamos acolchoados de espuma bem finos. Eles tinham que ser retirados às 6 horas da manhã e não tínhamos permissão para usá-los outra vez até às 10 da noite. Isso significa que os companheiros não podiam se deitar durante o dia, e, com o espaço reduzido, eles tinham de permanecer sentados ou de pé por longos períodos.

O favor de Deus

Embora os oficiais que lidavam comigo fossem hostis no começo, depois eles se tornaram respeitosos e me tratavam com consideração. Obviamente, todos os dias eu descobria o favor e graça de Deus sobre mim e os outros detidos.

Saúde abalada

Principalmente devido a uma fraqueza causada por essa situação traumática, minha saúde estava visivelmente afetada. Isso causou alterações na pressão arterial e outros efeitos relacionados a traumas físicos, como artrites, dores na coluna, torcicolo e perda de peso (embora não diretamente relacionada à dieta, que era, levando em consideração o lugar, bastante razoável). Na verdade, isso se devia ao meu estado emocional.

Recebi cuidados médicos, que eram bons, mas não ótimos. Eu não podia esperar que fosse melhor. Devo mencionar que o corpo médico prescrevia uma autorização para que minha esposa trouxesse refrigerante sabor cola, a fim de estimular minha pressão sangüínea com a cafeína. Além disso, eles prescreviam que, no dia da visita, ela devia me trazer um pouco de leite para aliviar o desconforto de uma gastrite crônica.

O alívio das visitas

As visitas eram limitadas a apenas 20 minutos e só ocorriam uma vez por semana. Apenas três adultos podiam entrar e deviam ser familiares diretos (pais, irmãos, filhos e esposas). O número de crianças não era limitado, e podiam ser filhos ou netos. As visitas aconteciam em uma sala decorada de modo aconchegante, mas sempre na presença de um oficial que vigiava a conversa.

Apesar disso, as visitas eram um grande alívio. Minha esposa foi forte como um guerreiro valente e me encorajou. Era como se ela fosse um oásis, me preparando para enfrentar as dificuldades da semana. Suas palavras, sempre cheias de amor e serenidade, eram um grande estímulo e inspiração, assim como as centenas de cartas e cartões que chegavam de vários países, como um derramar de graça bênçãos em tempos de aridez.

Também foi uma imensa satisfação ver a força que Deus derramou sobre meus pais e irmã, que demonstraram muita bravura e superaram todo tipo de obstáculo para estar lá a cada visita, fazendo o possível para aliviar a dor da minha prisão.

Barro nas mãos do Oleiro

Desde o começo, eu tinha a convicção de que todo esse traumático incidente fazia parte de um plano de Deus com um propósito bem definido. (A propósito, é por acaso ou por coincidência que o oficial que coordenou a prisão se chama major Jesus?) Agora cabe a mim me mostrar sensível e atento para compreender o que Ele quer me revelar, e discernir a razão por que Ele me levou àquele lugar.

Embora em algumas ocasiões eu lutasse ardentemente e minha alma fosse afligida por causa da separação de minhas queridas princesas, eu sabia que tinha de permanecer flexível como o barro nas mãos do Oleiro. Levando em conta que eu tinha permissão para ler minhas Bíblias (acabei tendo três comigo) e outros livros cristãos, não só eu tinha minha sede da Palavra saciada como também compartilhava o evangelho com quem quer que dividisse a cela comigo, discipulando os companheiros.

Libertação surpreendente

Mesmo que minha libertação fosse muito desejada e diariamente solicitada em oração, a notícia me surpreendeu. Fui informado pelo instrutor que substituiu o primeiro investigador Eu só vi esse instrutor uma vez, quando ele veio me informar da decisão de me libertar.

Talvez por causa da surpresa e do desejo de ir embora daquele lugar tristemente inesquecível, não perguntei - nem ele me informou - as condições da minha libertação, nem se tais condições existiam. O certo é que, com a mesma expressão jovial que eles me informaram da minha liberdade eles também informaram minha esposa, sem qualquer outro detalhe a não ser comunicar-lhe "as boas novas" de que eu poderia ir com ela para casa imediatamente.

Gratidão eterna

Minha família e eu seremos eternamente gratos e devedores ao povo de Deus que, de todos os continentes, nos enviou cartas e cartões, expressando apoio e solidariedade para com a nossa difícil experiência. Suas orações subiam continuamente ao trono da graça do nosso Senhor, como incenso aromático. Estou absolutamente convencido de que nos momentos em que eu mais necessitava de forças renovadas, foram as centenas de orações que alcançaram a cela em que eu estava.

Recebemos cartas do Brasil, Canadá, Holanda, Nova Zelândia, França, Bélgica, Mongólia, Nicarágua, Estados Unidos, Itália, Suíça, Irlanda, Reino Unido, e elas continuam chegando. Até hoje recebemos mais de 260 cartas e muitas foram entregues no centro de detenção.

Também expressamos nossa profunda gratidão àqueles irmãos que, com ofertas de amor, não permitiram que minha família fosse deixada sem sustento. Elas permitiram à minha esposa cobrir as despesas que se acumularam. Sei que nosso amado Deus irá recompensá-los com suas riquezas em glória.

"Até aqui o Senhor nos ajudou"

Tentei ser cuidadoso e ao mesmo tempo conciso nesse resumo informativo, mas obviamente tive de omitir muitos detalhes que, se, por um lado, poderiam enriquecer a descrição dessa experiência, também poderiam torná-la muito longa.

Talvez em outras circunstâncias seja possível ser mais explícito, mas, por enquanto, é suficiente que junto com todos os irmãos e irmãs que diariamente suplicaram por minha libertação diante do trono da graça do nosso Senhor, e pelo conforto e fortalecimento da minha família durante essa tribulação, podemos gritar com voz de júbilo: "Ebenézer! Até aqui o Senhor nos ajudou!" Amém.

Seu irmão e servo no Reino,

Rev. Carlos Lamelas Valdés


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