Morte violenta de pelo menos 15 missionários católicos em 2004

| 08/01/2005 - 00:00


Assassinados por salteadores ou com deliberada intenção de eliminá-los, 15 missionários --sacerdotes, religiosos e leigos-- perderam a vida no ano passado.

A Congregação vaticana para a Evangelização dos Povos fez públicos os dados de 2004 relativos não só aos missionários «ad gentes» em sentido estrito, mas a todo o pessoal eclesiástico assassinado ou que sacrificou sua vida com consciência do risco que corria, sem abandonar seu compromisso de testemunho e apostolado.

A África --Burkina Faso, Uganda, Burundi, África do Sul, Quênia e Chade-- registra o maior número de mortes: cinco sacerdotes, um religioso e uma religiosa. Na América morreram ao menos três sacerdotes --México, Guatemala e Chile--, número a que haveria que acrescentar a morte violenta de outro sacerdote na Colômbia.

A Ásia «parece viver de forma especial as tensões fundamentalistas: são três os jovens católicos paquistaneses feridos até a morte sob falsas acusações ou para fazê-los adjurar a fé»; na Índia «um sacerdote foi encontrado morto após sofrer ameaças porque visitava famílias hindus, onde era bem recebido», aponta o dicastério missionário.

Eles pagaram «um generoso tributo de sangue de muitos irmãos e irmãs para o crescimento da Igreja no mundo», tributo que «raramente chega às páginas» informativas, aponta o cardeal Crescenzio Sepe, prefeito desta Congregação vaticana.

Não conhecemos de todos os motivos que causaram sua morte» --acrescenta o purpurado--, mas «de alguns deles estão claras as causas da fé, que determinaram seu testemunho».

Nem podemos esquecer --diz o dicastério através da agência «Fides»-- a longa lista de católicos assassinados no Iraque ou de muitos "soldados da fé" em todo rincão do planeta, dos quais talvez jamais se terão notícias».

De 63 anos de idade e origem espanhola, o irmão Ignacio García Alonso, do Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs (de La Salle), morreu em 6 de fevereiro a golpes de machado em seu escritório de diretor do Colégio que o Instituto tem em Bobo-Dioulasso, em Burkina Faso. Havia passado 40 anos de missão no Marrocos, Nigéria e sobretudo no país onde caiu assassinado (Cf. Zenit, 10 de fevereiro de 2004).

Umas semanas depois, um missionário comboniano italiano de 76 anos teve destino semelhante. O padre Luciano Fulvi foi encontrado na manhã de 31 de março em sua casa da missão de Layibi, nos arredores de Gulu (Uganda), degolado. No país africano se havia ocupado principalmente da educação e da pastoral vocacional. De caráter sereno e afável com todos, o sacerdote era consciente dos riscos que implica a vida missionária nessa região (Cf. Zenit, 1 de abril de 2004).

Só 19 anos tinha o estudante paquistanês originário de Quetta, Javed Anjum, quando faleceu em 2 de maio passado no hospital de Faisalabad. Apresentava 26 feridas em seu corpo, provocadas por um professor e alguns alunos de uma escola islâmica que queriam convertê-lo ao islã (Cf. Zenit, 19 de maio de 2004).

Preso por suposta blasfêmia em agosto de 2003, outro jovem paquistanês, Samuel Masih, de 32 anos, morreu no hospital em 28 de maio passado, nas mãos de uma polícia muçulmana fundamentalista. Masih, enfermo de tuberculose, também havia sofrido violência na prisão (Cf. Zenit, 2 de junho de 2004).

O seguinte assassinato se registrou em Cidade Juarez, no México. Em sua residência perto da paróquia onde desenvolvia seu ministério, em 6 de julho foi encontrado morto a punhaladas um sacerdote mexicano de 58 anos, o padre Ramón Navarrete Islãs. A investigação policial apontou o roubo como motivo do crime (Cf. Zenit, 8 de julho de 2004).

Aos servos de Maria (servitas) pertencia o padre Faustino Gazziero de Stefani, missionário italiano de 68 anos presente no Chile desde 1960. Foi ali, na catedral de Santiago, onde 24 de julho, ao acabar de celebrar a Missa, caiu apunhalado nas mãos de um jovem próximo a grupos satânicos (Cf. Zenit, 26 de julho de 2004).

Muito comprometido na promoção e desenvolvimento social estava o sacerdote guatemalteco de 45 anos Eusébio Manuel Sazo Urbina, pároco do «Divino Salvador do mundo», nos arredores de Cidade da Guatemala. Em 31 de julho, quando acudia a atender uma pessoa enferma, um homem o atacou na rua aparentemente para roubar e disparou. Seu predecessor à frente da paróquia havia tido que deixar seu posto após ser ameaçado de morte.

Poucos dias depois, em 16 de agosto, outro católico paquistanês, Nasir Masih, de 26 anos, era seqüestrado de sua casa no distrito de Baldia Siekhupoura, a 45 quilômetros de Lahore, e preso à força por um grupo de muçulmanos que o acusavam --falsamente-- de roubo. Em seu linchamento participaram policiais. Aos três dias chegou à família a notícia de sua morte. Numerosas feridas e hematomas se encontraram por todo o corpo do jovem (Cf. Zenit, 9 de setembro de 2004).

O Estado indiano de Kerala foi cenário da violência fundamentalista quando o padre Job Chittilappilly morreu apunhalado. Tinha 71 anos --45 levava atendendo a comunidade católica de rito siro-malabar--. Seu corpo foi encontrado em 28 de agosto em sua casa, junto à paróquia «Nossa Senhora das Graças» no povoado de Thuruthiparambu. O sacerdote estava rezando o Rosário antes de celebrar a Missa quando foi assassinado. Havia sido ameaçado se não deixasse de fazer «proselitismo», pois sempre visitava famílias hindus; nelas era bem recebido, mas não levava a cabo atividade evangelizadora alguma (Cf. Zenit, 31 de agosto de 2004).

Na diocese sul-africana de De Aar foi encontrado morto em sua casa, junto à Igreja de Santa Maria e São José em Colesberg, o sacerdote inglês de 63 anos Gerard Fitzsimos. Sete anos levava na África do Sul ocupando-se sobretudo dos pobres e dos enfermos de aids.

Pároco de Jilotlan (México), Macrino Nájera Cisneros, de 42 anos, foi assassinado em 18 de outubro durante a festa posterior à celebração de uma Missa de primeira comunhão. O sacerdote defendeu uma jovem de 15 anos a quem molestava um indivíduo. Este voltou à festa e disparou contra o pároco matando também outras duas pessoas. Outra jovem ficou ferida.

Vigário episcopal em Burundi, Gerard Nzeyimana, de 65 anos, morreu em 19 de outubro quando regressava a esta diocese desde Bujumbura junto a outras pessoas. Alguns homens armados pararam o automóvel em que viajava, comprovaram a identidade do sacerdote e o assassinaram a tiros. O padre Nzeyimana era muito conhecido por seu compromisso na promoção da paz e suas denúncias frente aos autores de violência contra a população nos onze anos de guerra civil no país africano (Cf. Zenit, 25 de outubro de 2004).

Também foi brutalmente assassinado um missionário irlandês de 65 anos, o padre John Francis Hannon, cujo corpo se encontrou em 25 de novembro nos locais do centro social em construção na paróquia de St. Barnabás em Matasia, diocese queniana de Ngong, a uns vinte quilômetros de Nairobi. Crê-se que o roubo pôde ser a causa do crime perpetrado por assaltantes. O padre Hannon havia sido ordenado sacerdote na Sociedade de Missões Africanas (SMA) em 1967 em seu país. Desenvolveu seu trabalho na Nigéria e no Quênia (Cf. Zenit, 25 de novembro de 2004).

Bósnia-Herzegóvina foi o cenário da única morte violenta registrada na Europa. Na noite de 17 para 18 de novembro, o pároco de Saint Roko, em Bosanska Gradiska --no norte do país, na diocese de Banja Luka-- foi assassinado. Atado e ensangüentado, o corpo do padre Kazimir Vieseticki, de 66 anos, foi encontrado na casa anexa à paróquia. Crê-se que o roubo esteja na origem do crime.


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