Clérigos querem enforcamento de "profanador do Alcorão"

| 12/12/2005 - 00:00


Durante as orações de sexta-feira, 2 de dezembro, em Punjab, Paquistão, clérigos muçulmanos, apoiados por representantes do governo, exigiram a execução pública de um cristão acusado de blasfêmia.
 
Muhammad Afzal Qadri, chefe de um grupo islâmico, pediu um protesto em nível nacional exigindo a execução de Yousaf Masih, um cristão de 45 anos acusado de queimar páginas do Alcorão há um mês. As acusações despertaram a violência de alguns muçulmanos na cidade de Sangla Hill, os quais destruíram quatros igrejas.
 
Dirigindo-se a um grupo de 3 mil homens na mesquita Rizvia, em Sangla Hill, Muhammad exigiu a pena de morte de Yousaf. Junto com ele estavam representantes do governo e Shahibzada Haji Fazal Kareem, membro da Assembléia Nacional do Paquistão.
 
Usando palavras duras, os homens exigiram a libertação imediata de 88 muçulmanos detidos por atacar e destruir quatro igrejas e outras propriedades cristãs em Sangla Hill, no dia 12 de novembro, um dia depois de Yousaf ter supostamente profanado o livro sagrado do islamismo.
 
As declarações de dois muçulmanos radicais afirmam que as reportagens publicadas pela mídia, sobre a destruição e o incêndio das igrejas, foram "forjadas" e que os líderes cristãos haviam incendiado suas próprias igrejas.
 
A fim de evitar que a violência em massa ressurgisse depois dos discursos de sexta-feira, a polícia local só deixou as pessoas que estavam na mesquita saírem em grupos pequenos. Depois alagaram o campo do ginásio da cidade, para impedir que eles se reunissem lá.
 
Enquanto isso, os cristãos se trancaram em suas casas, depois de receberem ameaças dos muçulmanos.
 
Apesar do presidente Pervez Musharraf condenar a violência, exigindo que a maioria dos muçulmanos "mostrasse mais tolerância", o governo paquistanês não conseguiu neutralizar a tensão entre as comunidades muçulmana e cristã de Sangla Hill.
 
As pessoas estavam preocupadas com os protestos marcados para o dia 9 de dezembro, pois a crise em Sangla Hill poderia acarretar mais violência, desta vez, em um nível nacional.
 
Bode expiatório

A comunidade cristã do Paquistão tem feito campanhas para divulgar as agressões de Sangla Hill. Uma delas foi fechar suas escolas em todo o país no dia 17 de novembro, além da recusa em limpar ou arrumar suas igrejas devastadas por 40 dias.
 
Os líderes cristãos acusaram as autoridades de usar Yousaf como um bode expiatório, já que a principal testemunha das investigações de blasfêmia admitiu mais tarde que, na realidade, ele não viu o cristão colocar fogo no Alcorão.
 
Em uma entrevista coletiva, realizada em 5 de dezembro, 10 organizações cristãs pediram ao governo que liberassem Yousaf. Diziam também que ele foi "feito vítima claramente por causa de sua religião".
 
"O distrito de Nankana está em ebulição com o discurso de ódio contra a minoria cristã", observou o Conselho Nacional das Igrejas Católicas pela Justiça e Paz (NCJP). "O governo não fez nada para neutralizar a crise, a não ser aquelas notas repetidas para os líderes da comunidade".

A comunidade cristã questionou o comprometimento do governo com a justiça, depois do primeiro ministro Chaudhry Pervaiz Elahi quebrar a promessa de que a Alta Corte investigaria o incêndio das igrejas.
 
Os cristãos esperavam uma autoridade imparcial de alto nível para conduzir o inquérito policial. Ao invés disso, designaram o juiz xeique Muhammad Yousaf para presidir o investigação. Embora o inquérito tenha sido expedido de acordo com a legislação anti-terrorista, e concluído dia 29 de novembro, ele ainda não foi publicado.
 
Alguns cristãos não acreditam que o primeiro-ministro vai conseguir cumprir sua promessa de pagar pela reconstrução das igrejas. Um porta-voz do NCJP, entretanto, disse ao Compass que o governo já começou a restaurar algumas casas e escolas, destruídas junto com as igrejas.
 
No dia 5 de dezembro, grupos cristãos de direitos humanos iniciaram uma campanha de publicidade para conscientizar as pessoas da intolerância religiosa no Paquistão.
 
Os grupos salientam o notório abuso das leis de blasfêmia do Paquistão, em vigor desde 1986. De acordo com essa legislação, que faz do insulto ao profeta Maomé e da profanação do Alcorão crimes puníveis com a morte ou prisão perpétua. Os casos de blasfêmia são geralmente usados nas cortes como um pretexto para acerto de contas.
 
Em uma reunião com o presidente Musharraf há duas semanas, o arcebispo de Canterbury Rowan Williams pediu para o governo rever a aplicação dessas leis de blasfêmia.

Sangla Hill: mais uma razão para rever a lei de blasfêmia

Críticos da lei de blasfêmia paquistanesa reforçaram sua desaprovação com os episódios de violência de Sangla Hill no mês passado, ocasião em que uma dívida de jogo provocou acusações de blasfêmia que deixou quatro igrejas em ruínas.

Em 11 de novembro, o católico Yousaf Masih estava apostando com seu amigo muçulmano Saleem Sunihra perto do ginásio de esportes de Sangla Hill.

O jogo terminou com a dívida alta de 21 mil rúpias paquistanesas (321 dólares), de acordo com o que foi noticiado pelos jornais paquistaneses, e 35 mil rúpias (585 dólares) segundo organizações cristãs - que o muçulmano devia ao cristão.

Recusando-se a pagar, Saleem ateou fogo a velhas páginas do Alcorão deixadas perto de um armazém e acusou Yosaf pelo ato. Testemunhas depois disseram às juntas de apuração da Campanha do Jubileu e da organização assistencial CLAAS ter visto Sunihara atirar um fósforo aceso na sala.

A notícia da queima do Alcorão rapidamente se espalhou pela cidade, seguida pelos apelos das mesquitas locais para que os muçulmanos defendessem sua religião e "ensinassem uma lição aos cristãos".

Depois de repetidos anúncios feitos na manhã seguinte pelos alto-falantes das mesquitas, uma multidão de cerca de 2 mil muçulmanos se encontrou, armada de vergalhões, machados e latas de querosene. Gritando "Deus é grande" e "abaixo os cristãos patifes" eles invadiram e saquearam quatro igrejas, um convento e sua capela, a escola de uma missão e várias casas de cristãos.

Centenas de famílias cristãs, a maioria de pobres lavradores e operários, fugiram da região durante e depois do ataque. Observadores cristãos confirmaram à Campanha do Jubileu e ao CLAAS que tinham visto vários ônibus lotados de muçulmanos chegando em Sangla Hill para se juntar à multidão naquela manhã.

Ao ouvirem os primeiros chamados da mesquita, o padre Samson Dilawar da Igreja do Espírito Santo pediu proteção policial. Mas, de cordo com o "Daily Times", a polícia não só deixou de proteger os locais de culto cristãos como se juntou à multidão vandalizando os templos das igrejas católica, do Exército da Salvação e duas igrejas presbiterianas.

A polícia de Sangla Hill também prendeu e torturou quatro dos seis irmãos de Yousaf levando o pretenso blasfemador a se entregar para que eles fossem libertados. Apesar de Yousaf não ter sido visto desde então, uma fonte afirmou que acredita-se que ele esteja sendo mantido na cadeia de Sheikhupura sem acesso a um advogado.

As casas de Yousaf e seus irmãos foram queimadas e ninguém sabe do paradeiro de sua esposa e três filhos.


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