Festival hindu revela temor do avanço do cristianismo

| 20/02/2006 - 00:00


O cristianismo é a maior ameaça para o nacionalismo indiano, disseram os organizadores de um congresso de reconversão que ocorreu semana passada em Gujarat, durante a cerimônia de encerramento.

Os organizadores do "Shabri Kumbh" levaram uma multidão de 60 mil pessoas a repetirem: "Eu salvarei a minha religião... Eu salvarei a minha comunidade das conversões fraudulentas... Eu salvarei aqueles que caíram como presas em táticas maliciosas do inimigo do nosso país para que se reconvertam ao hinduismo". A multidão gritava repetidamente: "Jai Shri Ram" (Louvado seja o deus Rama).

A assembléia decidiu salvar o hinduísmo e Bharat Mata (deusa-mãe da Índia) reconvertendo os cristãos.

Sadhvi Ritambhara, uma popular pregadora hindu, cujos programas são vinculados em vários canais de TV disse: "Eles (os cristãos) nos chamam à ação. Eles pretendem nos arrancar (as tradições). E os estrangeiros também".

Sadhvi Ritambara disse que era imperativo para os hindus agir para salvar a religião.

"É o nosso próprio povo que ajuda os estrangeiros em seus esquemas", ela disse. "E eles convertem os tribais através da educação e do serviço social". 

Ela também alegou que os missionários convertem os tribais pobres através de mecanismos ilusórios, tal como mergulhar em água um ídolo de pedra de Rama e uma cruz de madeira, e depois dizem que Rama afundou e Cristo não.

"Mas nós acreditamos no teste pelo fogo - coloque fogo no ídolo de Rama e na cruz, e você verá que a cruz vai queimar, mas Rama permanece", ela disse.

Sadhvi encorajou o encontro para mobilizar seus amigos para permanecerem contra o inimigo e continuar trabalhando até que todo o país esteja "alaranjado". A bandeira de cor alaranjada do grupo extremista Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é um símbolo da ideologia nacionalista Hindutva.

Finalmente, Sadhvi disse que aqueles que não amam o seu país não deveriam ter permissão para viver nele.

"Ameaça para a nação"

Shankaracharya Vasunandan, líder convidado para o evento, disse que as "forças estrangeiras" poderão ser derrotadas apenas se os hindus estiverem unidos e reavivados.

"A conversão é um grande desafio e ameaça à nação", disse Shankaracharya, chegando a alegar que a Igreja cristã está por trás de Naxal, um violento grupo cujas raízes são de fato baseadas no comunismo. Ele também reiterou a comum suposição de que todos o indianos são orginalmente hindus.

Shankaracharya encorajou a multidão a ajudar a deter as conversões e rapidamente reconverter os cristãos. "Dedique sua mente, corpo e dinheiro a essa causa", ele disse.

Ele também afirmou que o evento não acabaria na cerimônia do dia 13. "Muitas outras programações do gênero serão organizadas em diferentes partes do país", ele disse.

Os organizadores homenagearam vários hindus que reconverteram pessoas ao hinduísmo: Shani Ram Ji Maharaj, por reconverter cristãos no sul do estado de Andhra Pradesh; e Sindhu Tai, por seu orfanato em Maharashtra, cujos líderes disseram que evitaram que mil crianças fossem convertidas ao cristianismo.

"Nós não vamos tolerar a chegada de missionários estrangeiros no nosso país", Tai disse.

"Um ritmo alarmante"

Cartazes anticonversão adornaram o palco "kumbh", cujo painel de fundo consistia em uma enorme figura do deus Rama matando o demônio Ravana.
 
"As conversões estão acontecendo em um ritmo alarmante", alertava um cartaz, atribuindo a citação a Swami Vishweshwar Tirth Maharaj. "Se nós não solucionarmos este problema, o hinduísmo será abolido."

Outro cartaz, citando Padambhooshan Rani Mai Dintyu, avisava: "Quase todos os dias nós lemos em informativos cristãos que a Índia é campo de missões das nações orientais, e eles irão converter a Índia em uma nação cristã".

Os hindus representam aproximadamente 80% da população de 1,1 bilhão de pessoas na Índia, e os cristãos representam menos de 3%. Entretanto, os cristãos são 15% da população do distrito de Dangs.

Conversão: um assunto nacional

O número de hindus "sadhus", ou "líderes", também foi assunto de uma das reuniões "kumbh", na qual eles passaram uma resolução demandando que o governo central tenha séria atenção aos assuntos de conversão em áreas tribais e decretem leis para preveni-las. A resolução foi lida aos participantes durante o evento.

A resolução declarava que, na ausência de uma lei central ou nacional, os governos estaduais deveriam decretar suas próprias leis para "salvar a população tribal".

Os líderes também declararam que as leis implantadas pelos governos dos estados de Madhya Pradesh, Chattisgarh, Gujarat e Orissa provaram ineficiência por causa de falhas.

Uma voz cristã na escuridão: Padre Cedric Prakash

No segundo dia do  "kumbh", Nirmala Carvalho entrevistou o padre jesuíta Cedric Prakash, porta-voz oficial do Fórum da União Cristã pelos Direitos Humanos em Gujarat, um corpo ecumênico que defende os direitos de católicos e protestantes.

Qual era o clima em Dangs quando o  "Shabri Kumbh" começou?

Padre Cedric - A vila Subir, onde o "kumbh" aconteceu, foi transformado em uma fortaleza virtual, com aproximadamente 5 mil policiais de plantão para o caso de que alguma violência acontecesse. No seu discurso de abertura, o ministro chefe de Gujarat, Narenddra Modi juntou sua voz à daqueles líderes religiosos, dizendo que o tempo chegou para que as tribos convertidas retornem ao hinduísmo. Modi e outros líderes disseram que a conversão não seria tolerada. Modi, em particular, teve como alvo os missionários, dizendo que os serviços médicos eram um meio de sedução para converter os tribais pobres e iletrados. Nós também percebemos que muitos dos participantes foram trazidos em caminhões dos estados vizinhos de Rajasthan e Madhya Pradesh.

O que você acha que vai acontecer após o kumbh?

Padre Cedric - Quando o "kumbh" chegar ao final, eles talvez declarem Dangs como um estado hindu - eles já declararam muitas partes do lado oriental de Ahmedanad como estado hindu. Então eles lançarão sua campanha contra conversões. Esta reunião é apenas o começo. Em novembro de 2005, a RSS decidiu não ter como alvo nenhuma região do estado de Gujarat. Eles se concentraram em Madhya Pradesh, Rajasthan e Maharashtra, mas não Gujarat - eles decidiram ir com calma nesta região para evitar publicidade negativa antes do "kumbh". Assim que as luzes da mídia se apagarem e a segurança for retirada, aí, sim, nós esperamos ver começar o problema real.

O senhor falou publicamente sobre as leis anticonversão. Pode nos dar um breve relato sobre suas objeções?

Padre Cedric - O Estado de Gujarat passou pelo Ato de Liberadade Religiosa em março de 2003. Três anos depois do prazo eles ainda não estruturaram as regras e regulamentos que regem a implementação do Ato. Por exemplo, se eu quiser mudar a minha religião, preciso ter permissão das autoridades civis. Mas, no momento, a autoridade civil não sabe por quais motivos pode me dar permissão. Isto deixa o sistema aberto para abusos. É difícil provar as declarações de conversão fraudulenta ou forçada. Por que Modi não foi capaz de provar uma única conversão forçada em Gujarat? Ele não tem resposta para isso. Mas ele ainda fala sobre seu direito constitucional de prevenir conversões forçadas.


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