Cristãos se tornam alvos durante protestos de muçulmanos

| 01/03/2006 - 00:00


Protestos contra as caricaturas de Maomé publicadas primeiramente na mídia dinamarquesa, fizeram com que milhares de manifestantes no norte do Paquistão e em Lahore destruíssem propriedades públicas e privadas, sendo os cristãos transformados em alvo.

Todas as escolas foram fechadas nessa semana na cidade de Kasu, a 40 quilômetros de Lahore, depois que uma multidão enfurecida de muçulmanos atacou uma estudante da Igreja Presbiteriana Unida em meados de fevereiro. Os manifestantes quebraram as janelas da escola com tijolos e madeira enquanto os 500 estudantes e professores fugiam do estabelecimento.

A multidão também tentou atacar a igreja católica da cidade, mas foi impedida pela polícia, o padre Yaqoob Barkat, de Kasur, disse ao Compass. Os cristãos "foram o único alvo por aqui", disse o padre.

Segundo o religioso, o clima se acalmou na cidade, com a polícia e as forças parlamentares intervindo, mas mesmo assim, os cristãos estão com medo. "Sempre quando há algo diferente, os cristãos e as igrejas passam a ser os alvos".

Em Lahore, protestos violentos contra as caricaturas de Maomé causaram grande destruição tanto para cristãos como para muçulmanos. A catedral católica da cidade por pouco escapou da destruição.

Depois que duas pessoas morreram, em 14 de fevereiro, o ministro Chaudry Pervaiz Ellahi, de Punjab, convocou o exército do Paquistão para restaurar a ordem e inibir as manifestações. Mas a violência e o vandalismo continuaram no dia seguinte, resultando na morte de um manifestante durante os conflitos com a polícia.

"Será que estamos tentando convencer o mundo ocidental de que os muçulmanos de fato são violentos?", foi a indagação do ministro divulgada pela BBC.

Um cristão dono de uma lan-house no subúrbio de Lahore foi preso no dia 16, acusado de exibir as caricaturas do profeta Maomé. Mas, depois das investigações, o oficial Mohammad Anwar descobriu que líderes muçulmanos locais teriam arranjado alguém para se passar por outra pessoa dando queixa contra o dono da lan-house.

"Encontrei-me com esse cristão e também com quem deu queixa, os dois fazem parte da mesma célula", disse Wasin Muntizar, da agência de assistência legal CLAAS. "Quem deu queixa disse que foi forçado - ele não chamou a polícia, outra pessoa chamou, agora ele está com vergonha do que aconteceu".

De acordo com informações da CLAAS, líderes muçulmanos tentaram usar de alegações de blasfêmia para incitar uma reação violenta de seus seguidores depois das orações de sexta-feira, mas essas alegações foram frustradas quando cinco ônibus policiais garantiram a segurança da área. Anwar concordou em retirar as acusações contra o dono da lan-house, mas se recusou a liberá-lo até que se acalmasse a multidão.

No fogo cruzado

Em Peshawar, numa passeata, universitários e membros da uma organização islâmica atacaram a escola missionária Edward, em 13 de fevereiro, segundo informações da Nacional Commission for Peace and Justice (NCJP). Janelas foram quebradas danificando a livraria, a ala de ciências e a entrada do principal prédio.

Dois dias depois, 60 mil pessoas promoveram atos violentos pela cidade, alvejando instituições cristãs.

Duas pessoas morreram em Peshawar, em 15 de fevereiro, uma lanchonete do grupo americano FKC, uma loja da Telenor, empresa de telefonia móvel norueguesa, e dezesseis ônibus sul-coreanos foram atacados. Um manifestante foi eletrocutado por um fio de alta tensão que se rompeu com os tiros de gás lacrimogêneo da polícia.

O secretário executivo da NCJP, Peter Jacob, foi breve em explicar que em Peshawar os manifestantes não alvejavam instituições cristãs, mas esses ataques vieram como parte de um enorme vandalismo contra o mundo ocidental.

"Existe um sentimento geral de insegurança entre a comunidade cristã", disse Jacob ao Compass em Lahore. "Mas não existem ataques diretos aos cristãos". Mas, ao mesmo tempo é difícil acreditar nisso, pois a comunicação em Peshawar está complicada.

"Dr Tahil Quadry, presidente da Min Hdail Quran, reagiu positivamente, assim como Pir Ibrahim Sialvi, líder do Comitê Distrital para a Paz", comentou Jacob. De acordo com Jacob, Sialvi fez um discurso aos lideres muçulmanos no dia 12 de fevereiro dizendo que os cristãos eram pessoas locais que não têm nada a ver com as caricaturas de Maomé.

Em contraste com as demonstrações em Peshawar e em Lahore, houve uma manifestação sem violência de 50 mil pessoas no sul da cidade de Karachi. Sunitas disseram aos manifestantes que é contra os princípios do Islã matar pessoas, atacar ônibus, ou queimar propriedades.

Duas escolas sofreram as conseqüências da violência perto de Peshawar, onde janelas foram quebradas e crianças agredidas no dia 6 de fevereiro, antes da intervenção da polícia. Em 7 de fevereiro, o Conselho Nacional de Igrejas no Paquistão convocou o ocidente para condenar as caricaturas, já que elas geraram problemas para os cristãos que vivem em países muçulmanos.

Segundas intenções

Primeiramente impressos pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em setembro, como um teste em que o editor chefe Carsten Juste deu o termo de "auto-censura que rege boa parte do mundo ocidental", os doze desenhos incluíam um de Maomé como um terrorista com uma bomba em seu turbante. Muitos muçulmanos argumentaram que o desenho violava os valores básicos do Islã, que proíbe qualquer caricatura do profeta.

Enquanto os paquistaneses alegavam que estavam protestando contra as caricaturas e contra os governos que permitiram a publicação, eles mesmos foram acusados de usar as demonstrações com segundas intenções.

"O incidente de quarta-feira proporcionou uma oportunidade para os empresários locais aterrorizarem as multinacionais rivais", disse o colunista Ghafar Ali no jornal "Daily Times". Ghafar Ali afirmou ainda que os que destruíram os ônibus da Daewoo foram membros do sindicato local que sofrem com a competição internacional.

Mas as empresas estrangeiras não foram o único alvo durante os motins em Lahore e em Peshawar. Bancos locais, postos de gasolina, cinemas, lojas de música, carros, motocicletas, residências, lan-houses, escolas, sapatarias e até mesmo semáforos foram alvos de violência pela multidão nessas duas cidades.

"Esses alvos não têm nada a ver com as caricaturas, mas historicamente têm estado na mira de ativistas religiosos que sempre que encontram um motivo para tomarem as ruas", escreveu Aamer Ahmed Khan, da BBC.

Parece que os elementos religiosos têm tirado proveito do furor para cumprir sua própria agenda. Em uma reunião do partido da oposição em 15 de fevereiro, líderes culparam o governo paquistanês pela reação inadequada às caricaturas e chamou o presidente Pervez Musharraf de "agente do ocidente", informou o "The National", jornal paquistanês.

Embora os líderes da Mutahida Majlis-i-Amal (MMA) tenham manifestado publicamente sua posição contra essa violência, os estudantes dessa instituição estavam nas ruas em combate com a polícia.

As contradições da MMA se estenderam à liderança, já que oficiais do governo disseram que os protestos devem continuar de maneira pacifica, mas não suspenderam as demonstrações públicas que se tornaram violentas em Peshawar.

Na quarta-feira dia, 15 de fevereiro, Musharraf alertou que "elementos criminais e anti-sociais" estavam tentando explorar o ódio sobre as caricaturas, informou o "Daily Times".


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