Família alemã é impedida de entrar na Turquia

| 20/04/2006 - 00:00


Um cristão alemão teve uma licença de trabalho negada pelas autoridades de Turquia, que o consideraram "uma ameaça à segurança nacional". Ele acredita que as atividades cristãs de sua família fizeram com que eles fossem rotulados como missionários e proibidos de entrar no país em fevereiro.

Alex Eisele, sua esposa Jutta e seus dois filhos, Sarah e Joshua, foram impedidos de entrar na Turquia em 4 de fevereiro, depois de terem ido ao Chipre para renovar o visto de turistas.

No aeroporto de Adana, a caminho de Chipre, em 3 de fevereiro, o superintendente de polícia Ali Uzun preveniu os Eiseles de que eles não teriam permissão para voltar à Turquia. Na viagem de volta, no dia seguinte, a polícia da fronteira confirmou o aviso, lançando nos documentos da família alemã a declaração de que eles haviam sido "rejeitados".

A ordem citou o artigo 8 da lei 5.682, que dá à Turquia o direito de rejeitar a entrada por várias razões, incluindo prostituição, insanidade, febre infecciosa, deportação anterior ou a intenção de destruir a "ordem geral e a segurança da República da Turquia".

Para Alex Eisele o argumento repete o que fez a uma corte de Ancara, que rejeitou seu pedido de autorização de trabalho um ano antes porque ele era uma "ameaça à segurança nacional".

A Paixão de Cristo

A família alemã nem sempre viveu na Turquia com licença de turistas válida por três meses. Em 2002, depois de um ano de estudos idiomáticos em Istambul, Alex, 35, se mudou com sua família para a cidade de Adiyaman, a sudeste da Turquia, onde abriu uma empresa de consultoria em línguas estrangeiras e lecionava inglês com um visto de trabalho.

Porém, dois anos depois, sem especificar qualquer razão, o Ministério do Trabalho e Segurança Social recusou a renovação da licença de trabalho de Alex. O documento de julho de 2004 indicava que uma cópia da decisão tinha sido enviada à polícia secreta turca, a MIT.

A 8ª Corte Administrativa de Ancara confirmou a decisão, citando uma lei que diz que um estrangeiro pode ter sua permissão de trabalho negada se ele "representar uma ameaça à segurança nacional, à ordem pública, à segurança geral, ao interesse público, à ética ou à saúde".

"Obviamente eu tenho uma idéia dos motivos que fizeram com que minha licença não fosse prorrogada", escreveu Alex Eisele em um apelo feito em agosto de 2004. "Em Adiyaman passei meu tempo livre com cristãos, organizando concertos de grupos musicais estrangeiros e divulgando o filme de Mel Gibson, A paixão de Cristo. Claro que algumas instituições na cidade não gostavam disso".

O apelo de Alex arrastou-se até abril de 2005, quando a corte incluiu um documento da Diretoria de Segurança de Adiyaman como evidência e o processo passou a correr em sigilo.

"Era tão secreto que eles me negaram até mesmo o direito de saber o que estava escrito naquele documento", contou Alex ao Compass. "Nem o juiz nem o dirigente da corte em Ancara quiseram falar comigo pelo telefone".

Além dos Eiseles, há apenas uma única família estrangeira vivendo em Adiyaman. Alex declarou ao Compass que havia uma única razão possível para que o governo os considerasse uma ameaça à segurança.

"Desde o começo, não escondi o fato de que eu era um cristão que honra suas convicções e que não faz segredo sobre o que qualquer pessoa queira saber sobre minha fé", declarou Alex. "Eu também me reunia regularmente com cristãos turcos."

A família alemã disse que eles freqüentemente eram visados por causa de suas atividades cristãos, chegando a receber algumas mensagens ameaçadoras em seus telefones celulares. Em maio de 2005, quando Alex ajudou a organizar a apresentação do grupo de rock Finnish Christian, em Adiyaman, o jornal de circulação nacional "Vakit" publicou a seguinte manchete: "Concerto em Adiyaman na obscuridade da atividade missionária". A reportagem trazia o nome de Alex Eisele como coordenador do concerto.

Os alemães também disseram ao Compas que eles estavam certos de que seus telefones foram grampeados. Certa vez, quando um policial perguntou a Alex como estavam seus parentes, ele respondeu: "Você deve saber melhor do que eu, já que estão monitorando meu telefone e e-mail". O policial simplesmente deu risada.

Código 56

As suspeitas de que sua autorização de trabalho estava sendo negada por causa de suas atividades cristãs foram confirmadas em maio de 2005, quando Alex viajou para a Síria para renovar seu visto de turista.

Depois de inserir as informações do passaporte de Alex no computador, dois policiais da fronteira leram uma nota eletrônica que apareceu na tela. Ele os ouviu comentar sobre um certo "código 56". "Código 56 não é o de atividade missionária?", um perguntou para o outro, segundo Alex.

"Você está envolvido em atividade missionária?", um dos policiais perguntou então a Alex.

Ele contou que os policiais disseram a ele que a nota eletrônica declarava que sua licença de moradia não seria renovada, mas não especificaram se ele poderia entrar no país.

Um mês depois, no aeroporto de Adana, quando ia para Alemanha, o superintende Uzun disse a Alex que a notificação policial em seu arquivo significava que ele poderia não obter permissão para voltar o país. Apesar disso, a família não teve dificuldades para retornar ao país através de Istambul, em agosto de 2005. Foi o superintendente Uzun, em Adana, quem negou sua entrada em fevereiro.

Voltando sozinho, duas semanas depois, para fazer a mudança e vender os pertences da família, Alex não teve dificuldades para entrar no país. "Eu não entendo o sistema", comentou.

Ataque ao orgulho turco

Proselitismo e conversão a qualquer religião são permitidos sob o sistema legal secular da Turquia, mas as autoridades turcas permanecem hostis a missionários estrangeiros suspeitos de ter interesses políticos.

Na Turquia oriental, onde os curdos separatistas recentemente promoveram violentas manifestações, o contato de estrangeiros com os curdos é visto como uma questão delicada.

Quando representantes da Igreja Luterana Alemã visitaram o sudeste da Turquia, em junho de 2005, o diário nacional islâmico "Zaman" noticiou que o Ministério de Assuntos Estrangeiros turco enviou um documento secreto ao parlamento advertindo quanto aos motivos políticos dos luteranos.

"Os evangelistas apóiam a organização terrorista PKK e querem forçar a Turquia a reconhecer o genocídio armênio antes de ligar-se à União Européia", publicou o jornal em reportagem em 30 de junho, atribuindo a declaração ao ministério.

Mas, motivos políticos à parte, muitos turcos vêem o islã como uma parte essencial de sua identidade nacional. O proselitismo de estrangeiro é sempre visto como um ataque a esse sentimento.

Uma pesquisa recente feita pela Universidade Bilgi apontou que para 52.4% dos pesquisados, ser ateísta, cristão ou judeu não combina com ser um turco. Mais de 22% disseram que ser um muçulmano sunita define melhor o que é ser um turco autêntico, de acordo com o estudo, publicado na revista semanal "Tempo".

Duas opções

Estrangeiros não podem obter permissão para trabalho religioso sem contratar os serviços de uma organização que esteja estabelecida legalmente. Cristãos exilados, que querem começar uma nova igreja onde ainda não exista uma, têm duas opções: tentar conseguir uma autorização de trabalho sob outra profissão ou viver na Turquia com um visto de turista, que precisa ser renovado a cada três meses.

Nos últimos meses as autoridades turcas aumentaram as taxas e os pré-requisitos para estrangeiros proprietários de negócios, tornando muito difícil para um pequeno empresário estrangeiro se qualificar para a obtenção de autorização de trabalho.

Apesar de a lei turca prometer fornecer autorização de trabalho para estrangeiros no prazo máximo de 90 dias, os estrangeiros afirmam que os atrasos superam os seis meses.

Um cristão estrangeiro que vive na Turquia oriental disse ao Compass que depois de esperar por oito meses a renovação de sua autorização de trabalho de três anos, ele acabou recebendo uma permissão de apenas um ano. Quando a autorização foi enviada para ele, a duração era de apenas quatro meses.


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