Cristã paquistanesa é vítima de violência doméstica

| 24/07/2006 - 00:00


Uma garota islâmica do Paquistão se escondeu para fugir de seu marido. Ele a agrediu e estuprou por abandonar o casamento forçado e por se recusar a praticar o islamismo.

Asya Khadim, 15 anos, ganhou o divórcio de seu marido muçulmanos em fevereiro. Ela buscou abrigo em uma organização local de ajuda, para evitar ataques de vingança

O caso de Asya enfatiza o debate nacional em curso sobre a controversa Ordenança Hudood. Alguns dizem que essa lei incentiva a violência doméstica contra a mulher.

Asya estava casada com Tanvir Qadir por quase 13 meses, quando a mãe dela fez um pedido de divórcio em favor da garota em janeiro de 2006.

"Eles tentavam me fazer ler o Alcorão", a garota cristã disse à agência de notícias Compass. "Meu marido me bateu todos os dias durante dois meses porque eu me recusava a ler o Alcorão".

Asya, sua mãe, quatro irmãos mais novos e um irmão mais velho se converteram legalmente ao islamismo em dezembro de 2004.

Naquela época, a família vivia em uma vizinhança de maioria islâmica, na cidade de Wazirabad, Estado de Punjab. O irmão mais velho de Asya, Azam Masih, se tornou um bom amigo de Tanvir. Tanvir convenceu Azam de que sua família deveria se converter ao islamismo.

"Azam repreendia nossa mãe e batia nela, dizendo-lhe que ela deveria aceitar o islamismo", Asya conta. Ele também agrediu Asya, algo que assustou sua mãe e a fez se converter ao islamismo.

Ignorando os protestos de sua mãe, Azam deu a irmã em casamento para Tanvir. Ele dizia que era vergonhoso sua irmã, de 14 anos, ficar em casa naquela idade.

Tanvir contratou uma mulher para ensinar sua noiva a ler o Alcorão, mas a garota cristã se recusou a aprender.

Asya dizia à mulher: "Eu sou cristã e eu não quero ler o Alcorão". Depois disso, todos da família do noivo começaram a agredi-la e diziam que ela era imunda.

Armado com facas

Em janeiro de 2006, Asya voltou à casa d sua mãe por diversas semanas, enquanto seu marido estava em Dubai a negócios. Tentando ajudar sua filha a terminar aquele relacionamento de maus-tratos, a mãe de Asya pediu divórcio para sua filha na Vara Familiar Islâmica da cidade de Kharian.

A família então se mudou para Gujranwala, a 30 quilômetros de distância. Lá, eles esperavam evitar Tanvir.

Mas Tanvir achou Asya logo depois de chegar de Dubai. Armado com facas, ele e mais 10 parentes entraram à força na casa de Asya e a levaram de volta a Wazirabad.

A mãe de Asya relatou imediatamente o acontecido à polícia, que invadiu a casa de Tanvir, mas não conseguiu encontrar Asya. A polícia prendeu um tio de Tanvir e dois primos.

Naquela noite, Tanvir mandou Asya para a casa de uma irmã dele em uma pequena vila a 50 quilômetros de Wazirabad.

"Ele me trancou em um quarto, me espancou e me estuprou", disse Asya. Ele ainda lhe disse que ela era muçulmana. Se ela não fosse, ele iria estupra-la de novo.

Tanvir aprisionou sua esposa em Jehlum, deixando uma mulher idosa para observa-la durante o dia. Asya escapou em uma tarde, enquanto sua guardiã estava dormindo. A garota conseguiu pedir dinheiro suficiente para pegar um ônibus de volta à casa de sua mãe.

Quatro dias mais tarde, em 22 de fevereiro, Asya ganhou seu divórcio.

Temendo vingança da família de Tanvir, o advogado cristão de Asya, Samson Joseph, recomendou-lhe que procurasse ajuda no Centro para Assentamento e Ajuda Legal (CLAAS, sigla em inglês). A organização ajudou a esconder Asya e lhe deu cursos de bordado e costurar.

A mãe de Asya e os irmãos mais novos também foram re-alojados em um local desconhecido.

"Tememos que a família do marido de Asya possa machucar os seus irmãos mais novos, se os descobrirem", disse um funcionário do CLAAS ao Compass.

Apesar de voltarem ao cristianismo, Asya e sua família continuam a ser legalmente muçulmanos.

"Não há nenhuma provisão constitucional " o advogado Samson disse ao Compass. Samson contou que a família de Asya foi obrigada a se esconder por causa do perigo que suas vidas correm caso alguém saiba que eles se converteram do islamismo ao cristianismo.

Revendo os conceitos

A experiência de violência doméstica que Asya passou é a mesma que a maioria das mulheres paquistanesas têm.

O Conselho de Paz do Paquistão relatou em março que uma estimativa de 70% das mulheres paquistanesas são vítimas de violência doméstica.

"Espancamentos, queimaduras, mutilações e tortura estão entre os métodos de maus-tratos", a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão afirmou em seu último relatório anual.

A advogada e ativista de direitos humanos Asma Jahangir disse ao Compass: "Não estou certa quanto aos números apresentados aqui, masé grande, enorme".

Estudos mostram que as leis paquistanesas geralmente frustram as tentativas dessas mulheres procurarem justiça contra seus agressores.

Pelo menos 50% das mulheres que delatam estupro são presas sob a Ordenança Hudood, relatou o Conselho de Paz do Paquistão.

As leis Hudood foram implementadas em 1979 pelo general Zia ul-Haq, responsável pela islamização do país. Entre essas leis há uma que lida especialmente com o adultério, popularmente conhecida como Ordenança Hudood. Ela exigem que as mulheres tenham quatro testemunhas homens muçulmanas para provar suas alegações de estupro.

As mulheres consideradas adúlteras são apedrejadas e os homens são mutilados. Até o cumprimento da sentença, os condenados devem ser presos. Hudood significa limitações ou limite em urdu.

"Um mulher estuprada que denuncia seus estupradores se expõe a acusações de adultério", Hina Jilani, ativista pelos direitos das mulheres, disse ao jornal Daily Times na semana passada. "De forma surpreendente, o número de mulheres presas aumentou desde que a lei Hudood foi implementada."

Debates na televisão sobre a Ordenança Hudood, feitos em junho, levou a sociedade paquistanesa a rever profundamente seus conceitos. Muitos muçulmanos negaram que essa lei tenha sido baseada na sharia, a legislação islâmica.

Mas, radicais da Aliança Muçulmana, do Paquistão, dizem que qualquer um que se opõe à lei Hudood se opõe ao Alcorão.

Em meio a esse debate nacional, o presidente Pervez Musharraf emitiu um decreto presidencial no dia 7 de julho, permitindo que todas as mulheres presas, exceto as acusadas de terrorismo e assassinato, sejam libertadas.

Pervez disse a dois dias que o governo irá fazer emendas a essas leis controversas. Isso acaba com as esperanças de grupos de direitos humanos, que esperavam que a lei Hudood fosse totalmente repelida.


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