Cristãos da zona rural da Índia sofrem perigos constantes

| 26/12/2006 - 00:00


O estupro da esposa de um pastor na vila de Elha, situada no Estado de Bihar, em 29 de novembro, foi um sinal do aumento da perseguição, atingindo os cristãos da zona rural na Índia.

Kamlesh Singh Yaday, morador de Elha, que foi aparentemente encorajado por extremistas hindus a romper atividades cristãs na vila, estuprou Neelam Paswan, de 28 anos, em um campo perto de sua casa. Em um incidente similar, uma gangue na vila Nadia, no estado de Madhya Pradesh, estuprou duas mulheres cristãs no dia 28 de maio depois que o marido de uma das vítimas, Gokharya Barela, se recusou a negar Cristo.

Pandya Patel, o líder de 12 vilas, incluindo a vila Nadia, pediu depois aos cristãos que renunciassem à sua fé ou fossem embora da vila. Pandya alertou aos outros aldeões que se alguém falasse com a polícia sobre ele ou sobre os estupradores, eles seriam expulsos da vila, não importando suas religiões.

Em Ranchi, no distrito do Estado de Jharkhand, duas famílias cristãs foram duramente espancadas e expulsas de suas vilas por se recusarem a abandonar sua fé. Os moradores hindus da vila de Dubalia, em Kanke Block  expulsaram as famílias de Raju Toppo e Santosh Karmali ,em junho, após os atacar diversas vezes. Agora essas famílias estão morando em locais alugados no subúrbio da cidade de Ranchi.

Vulnerabilidade rural

A perseguição atinge tanto a população rural quanto a população urbana, mas os cristãos que vivem nas vilas sofrem mais, devido à pratica de freqüentarem os mesmos lugares e a presença de hierarquia religiosa e das comunidades de castas nos lugares isolados.

A maior parte dos cristãos da Índia mora em zonas rurais. De acordo com o censo 2001 da Índia, 2,3 % da população de 1 bilhão é cristã (24 milhões de pessoas). Dessa quantidade, quase 16 milhões vivem em zonas rurais. A maioria dos cristãos da parte rural são dalits (o nível mais baixo do sistema de casta hindu, anteriormente conhecidos como "os intocáveis"), ou de descendência tribal.

Além dos ataques violentos iniciados e incitados pelos extremistas hindus, os cristãos das zonas rurais enfrentam a proibição do uso de lugares públicos como lagos, fontes, pasto para o gado, escolas e crematórios. De vez em quando, eles também são tratados como excluídos sociais por sua fé em Cristo. Às vezes, aldeões estupram mulheres cristãs como meio de intimidação, mas, pela vergonha que está associada ao estupro, poucos desses incidentes são denunciados.

As vilas na Índia são governadas por chefes das vilas, ou mukhiyas, que presidem as cortes das vilas chamadas de panchayats. Os panchayats são conselhos eleitos localmente apoiados pelo governo da Índia e consiste, em geral, na "alta casta" dos homens.

Como um código de conduta não declarado, espera-se dos aldeões que recorram aos panchayats em vez de recorrerem à polícia ou um tribunal para resolver disputas ou denunciar atos criminosos. Quando os cristãos vão até aos panchayats, eles não recebem justiça devido à sua posição econômica e social relativamente baixa.

Na verdade, os panchayats, freqüentemente, pressionam as famílias cristãs a deixarem sua religião. Se eles se recusam a abandonar o cristianismo, aldeões hindus os banem e, às vezes, os expulsam da vila.

A maioria das vilas indianas escolhe, coletivamente, as divindades do panteão de deuses e deusas hindus, e vê essas divindades como seus protetores. Eles temem que aconteçam desastres se a vila falhar em adorá-los adequadamente. Quando uma família cristã se abstém desses rituais, cria uma hostilidade no vilarejo, trazendo temor de que a fúria dos deuses possa cair na vila inteira.

Os aldeões também se reúnem para festivais hindus tais como o Holi, também conhecido como "Festival das Cores" (no qual as pessoas praticam jogos aquáticos e consomem bebida alcóolica fermentada em casa) e o Diwali ou Festival das Luzes (celebrado com luzes e fogos de artificio para honrar Laksmi, deusa da fortuna). A vila inteira fica ofendida quando os cristãos não participam desses festivais.

A alienação social também afeta a condição econômica das famílias cristãs. As vilas rurais possuem recursos limitados e são, normalmente, auto-suficientes. Os aldeões dependem uns dos outros para ajudar no cultivo e na colheita da safra ou para cuidar do gado. Sem essa ajuda, as famílias lutam para sobreviverem financeiramente.

Quadro econômico

De acordo com o John Dayal, secretário geral do Conselho Geral Cristão da Índia (AICC, sigla em inglês), os cristãos das zonas rurais, freqüentemente, não possuem terras e têm pouca instrução, e exercem trabalho não especializado - é comum que trabalhem nas terras da alta casta hindu para sobreviver.

Um dalit ou um tribal que faz trabalhos manuais ou trabalhos agrícolas sazonais, freqüentemente, recebe menos que 1 dólar por dia. É difícil de arranjar emprego no setor de serviço.

John Dayal acredita que é necessária a intervenção do governo na questão do isolamento social e da condição econômica dos cristãos rurais. "As igrejas organizadas e independentes não estão equipadas para aceitarem esse desafio, e esse é um problema que o Estado tem de discutir em reuniões com especialistas e ativistas," ele afirmou.

O governo anunciou, recentemente, planos para melhorar a posição social e econômica da minoria muçulmana na Índia, seguindo um relatório da Comissão de Justiça Rajinder Sachar sobre a questão, apresentada ao parlamento no dia 30 de novembro.

Em resposta a esse anúncio, o John Dayal emitiu uma nota a imprensa no dia 11 de dezembro, suplicando ao governo que faça projetos similares a esse para dar assistência a comunidade minoritária cristã. Ele declarou: "Esse processo de desenvolvimento não deve ser limitado apenas a minorias poderosas politicamente, mas deve também se concentrar na comunidade cristã, que é tão pobre e subdesenvolvida quanto as comunidades muçulmanas, mas que não tem influencia eleitoral" .

Enquanto isso, as organizações cristãs como o AICC e o Conselho Global de Cristãos Indianos (GCIC, sigla em inglês), fornecem assistência legal para as vítimas de perseguição sempre que possível, e esclarecem a eles quais são seus direitos.

"Devido à falta de conhecimento legal dos cristãos das zonas rurais, a maioria dos incidentes de perseguição não são denunciados à polícia," afirmou Tehmina Arora, secretário da Associação Jurídica Cristã da Índia (CLAI).

Até mesmo se esses cristãos forem à delegacia de polícia, os policiais, normalmente, se recusam a registrar suas queixas. A maior parte das vítimas não está cientes da medida legal que lhe permite denunciar incidentes diretamente ao tribunal se a polícia se recusar a prestar assistência.

A CLAI conduz ocasionalmente workshops de esclarecimento jurídico para cristãos da zona rural e espera que o número de workshops aumente no próximo ano.


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