Testemunha detalha massacre contra cristãos em Malatya

| 05/02/2008 - 00:00


O primeiro dos cinco jovens muçulmanos turcos em julgamento por tortura e assassinato de três cristãos no leste da Turquia testemunhou na semana passada, negando vigorosamente que tivesse planejado matar os cristãos.

Em um testemunho frio sobre as últimas horas de Necati Aydin, Ugur Yuksel e Tilmann Geske, o acusado de assassinato Hamit Ceker declarou diante da Terceira Corte Criminal de Malatya que durante o ataque selvagem ao escritório da Editora Zirve, em 18 de abril, ele viu o principal suspeito, Emre Gunaydin, cortar as gargantas de dois dos cristãos (entenda o caso).

Negando que o grupo de jovens conspiradores tenha planejado matar os dois ex-muçulmanos que se converteram ao cristianismo e o colega alemão, Ceker disse ao juiz que o confronto ficou tenso quando Aydin, que pastoreava uma pequena congregação protestante em Malatya, declarou aos cincos jovens muçulmanos: “Nós todos somos filhos de Jesus”.

Depoimento

O acusado declarou que ele mesmo não participou da morte dos três cristãos. Apesar de Ceker ter testemunhado que eles tinham levado armas e uma longa corda, e que cada um deles portava uma faca recentemente comprada, um par de luvas plásticas e um jawshan islâmico (uma oração para proteção), ele insistiu que o objetivo da operação era obter evidências incriminadoras contra os cristãos, mas não matá-los.

Ele admitiu que ele e alguns dos outros tentaram persuadir Emre Gunaydin a deixar os homens amarrados no chão e fugir.

“Não, agora eles me conhecem”, replicou Gunaydin, de acordo com Ceker. “Eu não vou embora sem matá-los”.

Acusação

Ceker testemunhou que Gunaydin então ordenou que o suspeito Salih Gurler estrangulasse Aydin. Quando Gurler tentou, mas finalmente desistiu e disse que não conseguia fazer aquilo, o líder do grupo imediatamente atacou e começou a esfaquear Aydin, cortando sua garganta.

Gunaydin então pegou uma toalha para cobrir o rosto de Geske e cortou sua garganta, disse Ceker, acrescentando que ele não tinha conhecimento de como Yuksel havia morrido.

“Eu não vi como Ugur  Yusel foi morto”, declarou Ceker. “Eu só o ouvi gritando, ‘Jesus!’”Yusel, 32anos, que era noivo, morreu em um hospital horas depois que Ceker finalmente destrancou a porta e se entregou à polícia. Aydin, 35 anos, pai de dois filhos (veja como as crianças reagiram), e Geske, 46 anos, pai de três filhos, já estavam mortos, seus corpos foram mutilados com múltiplos ferimentos a faca.

Naquele momento, disse Ceker, Gunaydin tinha tentado escapar pela varanda do terceiro piso, caindo na calçada e sofrendo ferimentos sérios.

Sob questionamento de seu advogado de defesa, Ceker declarou que ele foi intimidado pelas ameaças de Gunaydin de machucar a ele e sua família se ele não cooperasse com o plano de expor e impedir as atividades missionárias daqueles cristãos em Malatya.

A cumplicidade da polícia

Ceker também disse que Gunaydin era conhecido por ter relações próximas com o chefe da polícia local. Por isso ele teve medo de relatar o plano do líder do grupo para a polícia. Mas admitiu que na noite anterior, ele e outros acusados se sentaram em seus dormitórios e escreveram uma carta a seus familiares em caso das coisas não correrem bem.

“Nós pensamos que nós poderíamos não voltar deste incidente, e que se nós voltássemos ou não, isto cairia sobre nossas cabeças”, declarou Ceker.

Ceker confirmou que o grupo havia feito “orações de agradecimento” muçulmanas especiais junto no começo da manhã dos assassinatos. Mas ele disse que não sabia nem o significado do ritual e nem por que eles o fizeram.

Respondendo a pergunta de seu advogado se ele tinha de alguma forma “ajudado os homens que estavam amarrados no chão”, Ceker declarou que ele havia afrouxado as cordas que prendiam firmemente os pulsos de Yuksel, e até colocado um pacote sob sua cabeça.

As declarações de Ceker, que duraram quase 10 horas, levaram a um ataque verbal de Semse Aydin, viúva de Necati Aydin e um dos que começaram o processo de acusação.

“Eles foram lá para matar nossos maridos, e agora eles dizem que fizeram coisas para mantê-los confortáveis!” gritou a viúva na corte. “Isto é desprezível!”

Depois de um segundo momento de ataques verbais, a viúva foi retirada da corte por ordem do juiz Eray Gurtekin, embora ele tenha relembrado tais momentos depois quando os advogados de acusação protestaram.

Retórica anticristã e preparação para o crime

Antes do testemunho de Ceker, dois homens jovens acusados de envolvimento nos planos para o assassinato foram chamados para testemunhar. O juiz ordenou que todos os outros acusados fossem retirados da corte para impedi-los de ouvir e influenciar os testemunhos uns dos outros.

O suspeito Kursat Kocadag admitiu que Gunaydin começou a falar contra os cristãos para ele quatro meses antes dos assassinatos. Em um café local, Gunaydin reclamou para ele e outros estudantes que havia 49 “igrejas domésticas” em Malatya, e que estas atividades missionárias cristãs representavam uma forte ameaça para o islamismo e para a sociedade turca.

Ele mostrou a Kocadag um livro intitulado “Mais que um Carpinteiro”, declarando que ele “difamava Alá, o nosso profeta e nosso livro”, declarou Kocadag.

“Ele disse que nós precisávamos nos infiltrar junto a eles para descobrir de onde vinha o dinheiro, de qual homem de negócios, e se necessário se tornarem mártires e matá-los”, disse Kocadag à corte.

Seis semanas antes dos assassinatos, disse Kocadag, ele aceitou esconder em sua casa uma pistola que Gunaydin havia lhe dado, dizendo que estava com medo de que as autoridades pudessem fazer uma busca em seu dormitório e encontrá-la. Na noite anterior aos assassinatos, Gunaydin pegou a arma na casa de Kocadag, que depois foi encontrada na cena do crime.

Ele também foi com Gunaydin a alguns encontros da seita islâmica Nur, onde ele contou que 25 estudantes universitários estudavam os livros de Said-i Nursi, um místico sufi influente na política turca em meados do século 20.

Sob questionamento, Kocadag declarou que Gunaydin não era muito religioso e admitiu que ele mesmo não fazia mais do que as orações às sextas-feiras.

Mas quando Kocadag se recusou a se juntar com Gunaydin em seu plano de espionar e intimidar os cristãos em Malatya, ele disse que Gunaydin parou de falar com ele sobre este assunto.

‘Outros’ apoiaram o plano

Junto com o suspeito de assassinato Ceker, Kocadag negou que ele tivesse qualquer informação sobre quem eram os “outros” aos quais Gunaydin se referia que apoiavam e encorajavam o plano antimissionário.

O segundo jovem acusado de conspirar para os assassinatos, Mehmet Gokce, imediatamente se identificou como filho de um policial local.

Gokce declarou que ele tinha pouco contato ou relacionamento com Gunaydin, cuja família morava do lado oposto ao de sua loja de computadores onde ele vendia CDs e consertava computadores.

De acordo com Gokce, Gunaydin simplesmente perguntou se ele poderia ajudá-lo a copiar o disco rígido de um computador que continha informações sobre missionários.

Ele apenas pensou que Gunaydin estava “cometendo um erro” quando ele disse que usaria a palavra “apple” (marca de computadores) ao invés de “computador” em suas mensagens do celular sobre o disco rígido que queria copiar, disse Gokce. Ele declarou que ele não tinha conhecimento dos planos criminosos do grupo.

Pela primeira vez, a mãe de Yuksel e seu pai idoso, que sofreu um sério derrame alguns meses depois do assassinato de seu filho mais novo, tiveram condições de assistir ao julgamento.

Consciência pesada

Em um momento no meio da manhã, quando os acusados saíram da corte fortemente escoltados por policiais, a mãe de Yuksel gritou para eles dos bancos dos que participam do tribunal: “Sua consciência está pesada? Vocês podem dormir à noite?”

Nas manchetes da imprensa turca no dia seguinte, a viúva Susanne Geske declarou que ela e seus filhos que ainda vivem em Malatya queriam visitar os assassinos na prisão.
“Nós queremos encontrar com os assassinos, mas estou esperando o momento correto”, disse ela. “Eu não quero fazer perguntas; eu só tenho algumas coisas para dizer. Meus filhos estão perguntando: ‘Quando iremos vê-los?’”.

Na véspera da segunda audiência, as duas viúvas concordaram pela primeira vez desde a semana dos assassinatos em serem entrevistadas pela televisão turca. As entrevistas gravadas compartilhando suas memórias de seus maridos foram apresentadas na CNN Turca na noite do julgamento.

Expondo os líderes da conspiração

Geske também reiterou que ela não acredita que o massacre tenha sido planejado somente pelos cinco jovens. “Eu quero saber quem colocou estas cinco pessoas nisto, quero encontrar quem está ‘por trás das cortinas’”, disse ela.

De acordo com o advogado Orhan Kemal Cengiz, que lidera a equipe de advogados de acusação, é vital que se identifique os criminosos que estão por trás do ataque.

Cengiz disse ao Compass depois da audiência que ele e seus colegas estavam “muito irritados” com as mortes, e também com a forma como as investigações estavam sendo feitas e como o caso estava sendo tratado judicialmente.

Em particular, ele citou a recusa da corte de entregar evidências chaves para os arquivos do processo, incluindo documentos, CDs e fotografias que Cengiz diz serem cruciais “para questionar adequadamente os acusados”.

Na semana passada, o juiz também negou permissão para gravar os trabalhos na corte, o que poderia fornecer os textos completos dos questionamentos orais e não apenas breves resumos.

Provas adulteradas ou descartadas

Pedidos formais para remover 16 arquivos de informações sobre as atividades religiosas dos três cristãos, e para acusar os criminosos de “genocídio religioso”, foram também negados.

A corte de Malatya se recusou a aceitar como evidência os filmes das câmaras de vigilância colocadas no quarto de hospital de Gunaydin durante o mês que ele se recuperava dos ferimentos, antes de ser mandado para a prisão. De acordo com os advogados de acusação, a polícia deliberadamente falhou em submeter as gravações no tempo limite de 24 horas e também não obteve permissão formal da corte para filmar o suspeito.

Em outro escândalo que chegou às manchetes da mídia turca, policiais, de acordo com o reportado, ignoraram procedimentos forenses padrão colocando todas as roupas dos suspeitos sujas de sangue em um único recipiente para ser mandado para o Laboratório Criminal de Ankara, tornando impossível distinguir que indivíduos tinham o sangue de qual vítima em suas roupas.

Perto do final das audiências da última semana, os advogados de acusação requisitaram que os arquivos das investigações policiais com relação ao cunhado de Necati Aydin, um pastor em Izmit que Gunaydin tinha jurado matar depois dos assassinatos de Malatya, fossem acrescentados ao caso de Malatya.

Acompanhamento internacional

Além dos parentes das três vítimas, a audiência de 14 de janeiro foi observada pela imprensa internacional e por equipes de televisão da Holanda, Alemanha e dos Estados Unidos, assim como por representantes de duas ONGs de direitos humanos, um diplomata alemão e vários líderes da Aliança Turca das Igrejas Protestantes.

Depois de um grande número de reportagens no final do ano passado, o Ministério do Interior da Turquia em 8 de dezembro abriu uma investigação judicial para apurar as alegações de sérias falhas nas investigações dos procuradores do Estado de Malatya e de conivência de funcionários públicos nos assassinatos.

Na semana seguinte, o Ministério do Exterior da Turquia confirmou que o relator especial das Nações Unidas para Liberdade e Tolerância Religiosa estava monitorando ativamente o caso de Malatya.


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