Réus do caso Malatya se contradizem e declaram inocência

Todos os cinco culpados presos na primavera passada pelo assassinato brutal de três cristãos na Turquia oriental declararam inocência e disseram que não mataram nenhuma das vítimas pessoalmente. Os testemunhos deles terminaram na segunda-feira, dia 12 de maio, na sexta audiência ocorrida no Terceiro Tribunal Criminal de Malatya.

Os cinco jovens turcos culparam uns aos outros pela matança. Todos insistiram que não planejaram o assassinato e que nenhum grupo extremista os instigou a invadir o escritório da Editora Zirve, no dia 18 de abril de 2007, contrariando as próprias declarações dadas a meios de comunicação na Turquia (leia mais).

Os cidadãos turcos Necati Aydin e Ugur Yuksel, acompanhados do alemão Tilmann Geske, foram amarrados, esfaqueados e torturados durante várias horas antes que as gargantas deles fossem cortadas. Os cinco suspeitos foram capturados pela polícia na cena do crime.

"Nosso propósito lá na editora foi só colher informação para transmitir à imprensa", disse Emre Gunaydin, apontado como um dos cabeças da operação. Ele leu uma declaração de nove páginas à corte em que dizia que os acusados "só levaram facas para se proteger". E insistiu: "Se nós tivéssemos o objetivo de matá-los, teríamos trazido uma arma de verdade”, afirmou.

Os suspeitos tinham três armas sem munição. "Eu não matei ninguém. Eu só bati um pouco neles", disse Emre Gunaydin. "Eu não ordenei ninguém para os matar."

Suspeitos acusam Emre Gunaydin

De acordo com os outros quatro suspeitos, Hamit Ceker, Cuma Ozdemir, Abuzer Yildirim e Salih Gurler, foi Emre Gunaydin quem planejou o ataque inteiro, sem lhes dizer que tinha a intenção de matar os cristãos. Em testemunhos separados no tribunal durante os últimos quatro meses, os quatro responsabilizaram Emre  diretamente por todos os três assassinatos e alegaram que não sabiam ao certo quem havia matado as vítimas.

Mas o último suspeito a testemunhar, Emre Gunaydin, apontou Salih Gurler como líder da violência e disse que viu quando ele apunhalou Ugur Yuksel. "Eu me lembro claramente que Salih apontou a faca, o apunhalou e o atingiu até nas costas", disse Emre.

Ele também disse que Abuzer Yildirim bateu em Necati Aydin tão fortemente que ele desmaiou, e que então Salih Gurler tentou sufocar o pastor de 35 anos com uma corda ao redor do pescoço dele.

Naquele momento, Emre disse que se sentiu mal do estômago e que foi lavar o rosto na pia. Quando ele voltou, disse que viu Salih e Cuma Ozdemir em volta da cabeça de Tilmann Geske. "Salih estava batendo nele e eu suponho que o tenha cortado", afirmou.

Ele se defende

Emre Gunaydin repetiu relatos anteriores de que a violência explodiu quando Aydin os enfureceu ao caluniar o islã e seu profeta Maomé, e insistindo que Jesus era Deus. Mas ele negou várias acusações feitas contra ele pelos demais suspeitos, incluindo as ligações dele com uma poderosa máfia, conhecida como Sedat Peker, por parte de seu irmão mais velho e de tios.

Emre Gunaydin também negou que depois da incursão em Malatya tivesse planejado ir para província de Kocaeli a fim de matar o cunhado de Necati Aydin, também um pastor protestante.

Ele disse que os médicos lhe disseram que seria preciso seis meses para se recuperar dos danos ocasionados quando ele caiu de uma sacada do terceiro andar na editora Zirve, no momento em que tentava fugir da cena do crime. Ele alegou ainda que um mês depois da liberação dele do hospital, ele ainda teve que passar quatro dias em intensivos interrogatórios.

Por isto, Emre Gunaydin disse, que rejeitava todas as suas declarações anteriores assinadas e disse que agora estava apresentando no tribunal a "verdadeira" declaração. Mas ao ser questionado pelo juiz e pelo promotor, ele pareceu inseguro quando perguntado por detalhes da declaração nova. "Eu não me lembro", ele disse repetidamente. "Eu passei por um trauma."

Contradição

Salih Gurler contou que ele e os demais tentaram fugir ao perceberem que Emre planejava assassinar os cristãos, mas disse que Emre havia trancado a porta e posto a chave no bolso para evitar que eles partissem.

No entanto, de acordo com o testemunho do próprio Salih Gurle, foi ele quem abriu a porta para a polícia entrar. Ele alegou não saber como é que a chave havia voltado para a fechadura. Emre Gunaydin alega que deixou a chave na fechadura depois de trancar a porta.

O juiz Eray Gurtekin lembrou a Salih Gurler e Emre Gunaydin que de acordo com o Artigo 4 do Código Penal da Turquia, as sentenças deles poderiam ser reduzidas se eles informassem a corte sobre qualquer indivíduo ou organização que estivesse por trás do ataque.
“Não há ninguém por trás deste incidente", declarou Emre Gunaydin, ecoando todos os quatro suspeitos. "Eu não acusarei ninguém injustamente."

Um teste realizado nos ossos de Emre, a pedido de seus advogados de defesa, revelou que ele tinha menos de 18 anos no dia do ataque. No entanto, o tribunal rejeitou o laudo alegando que estava inconcluso.

Confinamento

O advogado de defesa de Emre Gunaydin, Niyazi Tokmak, pediu que o tribunal o retirasse da solitária na qual ele foi encarcerado durante o último ano. "Este tratamento a meu cliente não é humanitário", disse o advogado, reclamando ainda que a cela ficava iluminada 24 horas por dia e sob vigilância constante de câmeras.

Incapaz se conter, a mãe de idade de Ugur Yuksel, enquanto se sentava no banco dianteiro, próxima da viúva Suzanne Geske, gritou: "E o que eles fizeram não é humanitário?" Vários jornais turcos informaram que o advogado replicou: "Cale-se. Não discuta comigo. Fique quieta."

Próxima audiência: 9 de junho

Por causa das contradições entre os cinco testemunhos, o juiz anunciou que todos  serão chamados a serem interrogados na próxima audiência, marcada para o dia 9 de junho.

A viúva turca Semse Aydin boicotou novamente a audiência, como forma de protestar contra a parcialidade da ação dos juízes que estão com o caso.