"Trabalho preventivo" da ex-KGB com minorias religiosas

| 21/02/2004 - 00:00


A lei sobre religião no Uzbequistão bane atividades religiosas que não estejam registradas. Caso os membros de uma comunidade não registrada se reunam em uma residência, mais cedo ou mais tarde a polícia entrará no local e irá levá-los à delegacia. Eles serão então julgados e multados ou até mesmo submetidos à prisão administrativa por até 15 dias.

Entretanto, freqüentemente essa cadeia de eventos não se desdobra imediatamente mas, como o Forum18 NewsService soube, é precedido pelo trabalho preventivo dos fiéis submetidos pelos oficiais do Serviço de Segurança Nacional - NSS (orgão da extinta KGB) aparentemente visando intimidá-los e ameaçá-los. Tal trabalho preventivo é conduzido somente com membros de minorias religiosas.

Comunidades muçulmanas não registradas são fechadas tão logo que as autoridades tomam conhecimento de suas existências, devido ao pânico do governo com os radicais dessa religião.

Neste artigo, o Forum18 NewsService teve que se basear somente na informação passada pelos fiéis, já que oficiais da NSS se recusaram a falar com o Forum18 sobre esta investigação. O Forum18 conseguiu entrar em contato com Vadim Negreyev, oficial da NSS - citado por um número de fiéis pelo seu papel em investigar minorias religiosas - por telefone no dia 11 de fevereiro, mas ele também não quis nos responder qualquer pergunta.

Rustam Satdanov, advogado que atua em Tashkent - capital do país - que está trabalhando em defesa das Testemunhas de Jeová, disse ao Forum18 no dia 10 de fevereiro de um típico exemplo de como tais trabalhos preventivos entre a NSS e os fiéis se desdobram: No dia 16 de dezembro de 2003 Vadim Anatolyevich Negreyev, oficial da matriz da NSS, ligou para o meu celular, embora eu não tivesse fornecido meu número a qualquer membro da NSS. Ele sugeriu que eu visitasse-o no dia seguinte em seu escritório. Quando eu perguntei o motivo dessa visita, ele não quis me dar explicações, dizendo somente que era para negócios no qual eu estava envolvido.

Satdanov disse ao Forum18 que ele foi lá conforme foi solicitado. Negreyev o conduziu até um corredor que levava a um porão. No final deste corredor tinha uma porta que levava à um pequeno quarto que tinha somente uma mesa e três cadeiras, todas presas ao chão.

Atrás da mesa estava Bokhodir Kakhramonovich Alayev, que se apresentou como sendo o chefe da administração da NSS para o combate do extremismo religioso, disse ele. Ele me ameaçou de forma bem natural. A primeira pegunta que ele fez à min foi como estavam indo as coisas em minha residência e como estavam meus filhos. Ele mencionou meus filhos pelos seus nomes. Ele perguntou da minha esposa, mãe, pai e meu irmão mais novo Timur.

Satdanov, que estivera anteriormente trabalhando para o Ministério do Interior, disse a Alayev continuar a fazer mais perguntas. Essas perguntas foram designadas para encurralar-me com o número de informações que eles tinham - Eu conheço essas táticas, tendo feito um curso inteiro sobre técnicas em interrogatórios na Academia de Relações Internas do Uzbequistão.  Alayev fez com que ele entendesse que ele soubesse que quase todas as semanas Satdanov organizava reuniões com as testemunhas de jeová em sua residência.

Negreyev disse que caso eu quisesse, ele poderia providenciar para mim um trabalho em defesa das testemunhas de jeová. Ele acrescentou, agindo ironicamente, que eles deixariam que as testemunhas de jeová se reunissem na virada do ano, e assim eu poderia ter bastante trabalho; ele disse que eles estavam planejando isso depois dos feriados de fim de ano. Eles então começaram a parabenizar-me por ser comunicativo, dizendo que a NSS estava atualmente tomando notas que ele nem poderia por no relatório junto.

Satdanov disse então que eles tinham lhe falado que ele era um oficial como eles e que não foi uma boa escolha ter deixado seu cargo público. Eles disseram que ele poderia ter uma boa carreira profissional, que ainda era jovem, e que não valia a pena estragar sua relação com a NSS, que poderia influenciar sua vida no futuro, para o bem de alguns clientes.

Alayev falou que ele mesmo tinha o poder tanto para fazer com que eu subisse profissionalmente como também para me arruinar - ele simplesmente teria que me acusar de difamador para a pessoa certa e eu perderia minha licença como advogado. Eu ainda disse que não tinha a intenção de trabalhar com eles e que caso eu quisesse eu não teria deixado meu cago público. Ai eles começaram a explicar que eu não precisaria trabalhar para eles, somente passar as informações que seriam de interesse. Eu recusei, e não os escutei. A conversa durou cerca de três horas.

Significantemente, quando o Forum18 citou Satdanov, com seu argumento, no telefonema com Negreyev no dia 11 de fevereiro, a NSS imediatamente começou a perseguir o advogado com ameaças por telefone. Tivemos uma conversa amistosa com você, e logo em seguida você telefonou para os jornalistas e divulgou os nomes de nossos agentes, Satdanov citou oficiais da NSS. Agora vamos ter que ver novas maneiras de lidar com você.

Oficiais da NSS tiveram uma conversa semelhante com membros de outras religiões. Em junho do ano passado, Nelya Denisova, membro da Igreja Protestante da Ásia recebeu intimações de oficiais da NSS em Tashkent. Negreyev ficou quatro horas interrogando Nelya para ter informações das atividades da Associação das Igrejas Independentes, no qual a igreja da Ásia faz parte. Simplesmente não publique na internet um artigo sequer da nossa conversa disse ele à Nelya assim que o interrogatório terminou. Ninguém aqui te torturou ou te violentou sexualmente! Somente tivemos uma conversa amistosa.

Isso está longe da primeira vez que membros de nossa igreja foram intimados por oficiais da NSS, disse Vladimir Zhikkar - coordenador da Associação - ao Forum18 no mês seguinte. Ele acreditava que a principal razão do interesse da NSS pelas atividades da igreja era a atuação sem registro junto ao governo.

Forum18 recebeu relatórios de várias conversas similares entre oficiais da NSS e os fiéis. Outro indicativo é que quando eles se encontram com o Forum18, muitos fiéis se comportam como se eles tivessem fazendo parte de uma missão secreta, constantemente certificando que ninguém está espionando-os. Eles alertaram que o telefonema com o correspondente do Forum18 foi grampeado e a sua residência está sob vigilância.

A NSS também parece usar outros meios de se infiltrar em grupos religiosos. Cerca de um ano atrás Bakhtier Tuichiev, pastor de uma igreja protestante em Andijan, disse ao Forum18 que ele tinha sido visitado por um grupo de pessoas afirmando serem joranlistas russos da CNN e da BBC. O pastor achou estranho o fato de que o principal interesse deles era saber o seu ponto de vista sobre o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov. O pastor disse ao Forum18 que acreditava que os jornalistas que estiveram com ele na verdade eram oficiais da NSS. O Forum18 entrou em contato por telefone com correspondentes da CNN e da BBC em Tashkent e em Moscou e ambas disseram que nenhum jornalista estivera em Andijan naquela ocasião da entrevista com o pastor Bakhtier.

O correspondente do Forum18 também descobriu práticas de trabalho da NSS. Em junho de 2002, em meio a investigação da violação dos direitos dos religiosos em Nukus - noroeste do Uzbequistão - dois homems entraram sem avisar no quarto do hotel onde estava hospedado o correspondente do Forum18, alegando serem do Departamento de Vistos e Registros da polícia local. Embora eles afirmavam que estavam apenas fazendo a rotina de vistoria nos estrangeiros, na verdade estavam primeiramente interessados no que esse correspondente estava fazendo em Nukus. Os outros hóspedes ficaram espantados; eles sabiam, por exemplo, que no dia anterior o correspondente tinha deixado a cidade por um período de 24 horas.

A equipe do hotel disse ao Forum18 que de todos os estrangeiros hospedados somente este correspondente passou por essa vistoria rotineira. O pessoal do hotel também disse que depois que esse funcionário do Forum18 tivera feito alguns telefonemas, a NSS entrou em contato com o hotel pedindo informações sobre este hóspede. Também sugeriram que o telefone desse correspondente fosse grampeado.


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