Mistério do último reino eremita

| 02/03/2004 - 00:00


No dia 1º de fevereiro a BBC apresentou uma reportagem muito impressionante sobre as condições dos direitos humanos na Coréia do Norte. O programa mostrou um regime totalitário voltado para controlar os pensamentos e comportamentos de seus cidadãos em todos os aspectos e a ameaça com a possibilidade de uma guerra nuclear. Dissensão não é permitida e o Estado exige que seus cidadãos adorem seu ditador, Kim Jong-II, e seu pai, o presidente (emérito) Kim II-Sung.

Os que são considerados não confiáveis devido a herança familiar ou que traíram o país por escaparem são os mais prováveis à uma servidão para a vida toda nos campos de prisão estando sujeitos às piores e cruéis situações como cobaias de experiências químicas e biológicas. O resultado final disso é a morte.

Entretanto, mesmo quando a BBC demonstrou o quanto a gente sabe a respeito das condições horríveis neste país, existe também muita informação sobre as condições internas deste Reino Eremita do qual somos ignorantes. Apesar das adorações efusivas ao Kin Jon- II e as atitudes veementes contra os Estados Unidos, é a questão nuclear que preocupa o povo norte coreano que está ciente da situação difícil de seu país e portanto céticos sobre a divulgação do regime que é feita pela imprensa internacional.

Embora possuamos alguma informação sobre as condições nos campos de prisão vindas de fontes confiáveis, ainda sabemos pouco sobre as condições dos internos. Levando em consideração o ambiente apertado e a atual capacidade do regime atual para se virarem da maneira que podem, parece pouco provável descobrirmos respostas para essas questões tão cedo.

Um dos aspectos mais misteriosos sobre a Coréia do Norte é as condições das organizações religiosas presentes por lá. Qualquer pessoa que tem um pouco de entendimento sobre a natureza do sistema político do país estará cética sobre a existência de práticas religiosas por lá. Na resolução de 2003 que condenava as práticas de direitos humanos na Coréia do Norte, a Comissão de Direitos Humanos da ONU observou as restrições severas e persuasivas sobre a liberdade de pensamento, consciência e religião neste país. O Departamento do Estado Americano, em seu Relatório de Liberdade Religiosa Internacional para a Coréia do Norte, pelo terceiro ano consecutivo, foi ainda mais direto: Não existe liberdade religiosa genuína.

Claramente, ninguém põe em dúvida as condições deploráveis da liberdade religiosa na Coréia do Norte. O que de fato sabemos é a extensão de que existem (ou não) atividades religiosas e praticantes dessas. Em uma tentativa de buscar uma resposta à essa questão, em suas observações de 2001 sobre os registros mais recentes enviados pela Coréia do Norte em submissão com os requerimentos da Aliança Internacional do Direitos Políticos (ICCPR), ratificado pelo governo da Coréia do Norte, o Comitê dos Direitos Humanos da ONU, o corpo que monitora a submissão dos Estados com as provisões da ICCPR, não só expressou sua preocupação com a violação da liberdade de religião, mas pediu que as autoridades da Coréia do Norte fornecessem informação atualizada sobre o número de cidadãos pertencentes à comunidades religiosas e o número de templos.

Tal pedido reflete de forma compreensível o ceticismo sobre a credibilidade do governo em questão. Entretanto, o ceticismo deve se basear em algum conhecimento sobre as condições religiosas neste país que contradiz a retórica do governo. Consequentemente surge a questão: o que nós sabemos?

Desde que muitos estrangeiros que visitaram a Coréia do Norte tiveram suas atividades confinadas na capital Pyongyang, é natural que tenhamos mais observações confirmadas sobre as condições religiosas em Pyongyang do que em outras partes do país. Pelo que consta, Pyongyang possui duas igrejas protestantes (a igreja Protestante de Chigul e a Igreja do distrito de Nangnang) e uma igreja católica, em Changchung. Oficiais estrangeiros, jornalistas e até mesmo turistas comuns estiveram nesses templos, incluindo o arcebispo Celestino Migliore, o subsecretário do estado do Vaticano, e o reverendo Billy Graham, cuja esposa frequentou uma escola missionária em Pyonyang na década de trinta.

Estrangeiros que freqüentaram as reuniões nessas igrejas discordaram se esses membros desses templos foram colocados lá pelo governo ou se os participantes da igreja realmente eram cristãos. O que eles concordam é que os sermões incluem referências políticas. Os céticos alegam que as igrejas primeiramente existem para apoiar a divulgação oficial delas e que na verdade não existe uma atividade regular. Eles observaram o acúmulo de poeira nos bancos quando estiveram nestes templos. Um jornal sul-coreano registrou em 2002 que o chefe da associação católica da Coréia do Norte afirmou que não havia um padre sequer para atender a comunidade católica.

Mais templos estão sendo construídos em Pyonyang. A igreja ortodoxa russa comandou uma cerimônia em junho do ano passado para a dedicação de seu novo templo Santa Trindade no bairro de Jongbeak na capital cuja construção tinha sido aprovada por Kim Jong-II durante a sua visita à Sibéria em 2002. A Igreja Unificada da Coréia do Sul (conhecida como Moonies) também está construindo um centro religioso na cidade. A recente onda de construção de prédios religiosos, infelizmente não indica nenhuma luz no escopo das atividades religiosas. Na visita a Pyongyang para a consagração da igreja ortodoxa russa, os arcebispos Liment de Kaluga e Borovsk levantaram a hipótese da existência de fiéis ortodoxos norte-coreanos. Três estudantes seminaristas estão agora na igreja ortodoxa russa concluindo seus estudos. Ainda assim, o acesso à vida religiosa de qualquer comunidade ortodoxa no país é quase impossível. De fato, em outubro de 2002, um padre da igreja ortodoxa russa que visitou a Coréia do Norte declarou que o futuro da sua igreja na capital norte-coreana serviria para atender russos dando nenhum indício de que ele estaria por dentro de qualquer situação dos participantes de sua igreja na Coréia do Norte.

Em comparação com o que sabemos a respeito da comunidade ortodoxa, há mais informações relacionadas a outras comunidades na Coréia do Norte. Entretanto, ainda é pouco. Em julho do ano retrasado, o governo deste país informou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que havia 800 católicos, dois centros de adoração e um santuário. O governo não indicou a existência de uma arquediocésia, que corresponde ao relatório feito pela Coréia do Sul. Entretanto, ainda há pouca informação sobre as três instalações religiosas mencionadas. Mesmo se alguém assumisse que o santuário em questão fosse a igreja na capital do país, não existe fonte independente que pudesse confirmar a existência de centros públicos de adoração. Na verdade, tais documentos leva a uma percepção comum de que as três igrejas em Pyongyang são somente instalações oficialmente sancionadas.

Se o conhecimento sobre as condições da comunidade católica na Coréia do Norte é incerto, as informações sobre a comunidade protestante passam a serem mais dúbias. O governo alega a existência de três igrejas, 500 centros de adoração em família, e vinte pastores atendendo cerca de 12.000 crentes. Além das duas igrejas, parece haver pouca semelhança entre os dados do governo e as estimativas estrangeiras do tamanho da população protestante, geralmente indicando uma população bem maior do que divulgada pelo governo.

Por exemplo, em janeiro de 2004, o reverendo Isaac do Ministério Cornerstone disse à Comissão Americana de Direitos Religiosos Internacional que havia cerca de 100.000 norte-coreanos protestantes. Um missionário estrangeiro que tivera a experiência de lidar com o governo da Coréia do Norte alega que havia mais de quinhentas igrejas subterrâneas, que, mesmo se for verdade, não nos informa muito sobre o tamanho da população protestante já que não sabemos o tamanho médio dessas igrejas. Curiosamente, o número quinhentos foi mencionado tanto pelo missionário como pelo governo. Será que eles realmente estavam falando sobre a mesma coisa? Entretanto, parece que mesmo representantes do governo não estão muito certos sobre suas próprias estatísticas. Quando dois parlamentares britânicos, Baroness Cox e Lord Alton, estiveram na Coréia do Norte em setembro passado, eles receberam a informação vinda do governo de que havia duzentas igrejas.

O mesmo mistério rodeia nosso entendimento sobre as condições das comunidades religiosas não cristãs. Mesmo que o governo norte-coreano tenha registrado a existência de 800 budistas, 60 templos (O Registro Internacional de Liberdade Religiosa do Departamento do Estado Americano estima cerca de 300), e 200 mesquitas, fontes confiáveis aponta que não existe a presença genuína do budismo. Na verdade, não existem provas de que esses templos sirvam para qualquer função a não ser relíquias culturais. Os britânicos também notaram que os monges que residem nesses templos eram mais zeladores do que monges. Eles duvidaram de que fossem realmente monges pois eles não aderiam aos requerimentos budistas, tais como o celibato.

Nós temos ainda menos conhecimento de primeira mão tanto para confirmar ou negar as alegações do governo sobre a existência de 15.000 fiéis à religião Chondogyo, seita primitiva coreana, que supostamente mantém 800 salas de pregação em apartamentos.

Os maiores especialistas concordam que o regime totalitário obteve um grande sucesso em erradicar de forma intensa todos os vestígios de religião da parte norte da península. O Estado norte coreano, através do título do estado religião, Juche, com sua versão acompanhada da adoração imperial, têm demonstrado tolerância zero na disputa com as religiões. Ironicamente, a explicação do governo que há mais de cinquenta anos, anciões religiosos estão extintos e as gerações seguintes não aderiram às religiões pode na verdade conter elementos significativos de verdade. Em relação a isso, parece que o governo tem se dedicado em dados criativos (provavelmente como estratagema de relações públicas para se dirigir às preocupações internacionais) para concluir as estatísticas de várias comunidades religiosas. Esses achados históricos também levantam questões sobre dados estatísticos fornecidos pelas comunidades religiosas da Coréia do Norte por fontes estrangeiras.

De fato, muitos especialistas têm observado que dado ao ambiente de alto controle, ficou impossível ter acontecido a propagação religiosa. Estrangeiros que trabalham próximo à fronteira chinesa tem relatado casos envolvendo norte coreanos que eram vizinhos e ainda assim por cinquenta anos não sabiam que compartilhavam a mesma fé. Embora alguns crentes tenham sobrevivido à repressão, pareceria ilógico de que eles representariam uma comunidade diminuída. Na luz da repressão do regime, parece irônico que a mãe de Kim II-Sung fosse líder de uma igreja presbiteriana em Pyongyang e que uma das duas igrejas protestantes na capital hoje foi estabelecida em sua memória.

Apesar das condições deterioradas no país, a perseguição do governo para com os fiéis parece continuar inabalável. Um caso específico aconteceu em 2000. Um sul coreano que entrevistou refugiados da Coréia do Norte disse ao Forum18 que um grupo de idosos cristãos (que mantiveram sua fé desde 1950) em uma pequena cidade junto à fronteira chinesa foram executados por recusar a renunciar a sua fé em Jesus. Ex-oficiais da Coréia do Norte e prisioneiros como Soon-Ok Lee também testificaram que pessoas religiosas, especificamente os cristãos, que estiveram presos, tiveram que se sujeitar aos piores tratamentos se comparado a outros prisioneiros. Entretanto, eles não sabiam informar o número de prisioneiros detidos por razões religiosas.

Baseado nesses fragmentos de informações, como então podemos levar em conta algumas das altas estimativas do tamanho da comunidade protestante na Coréia do Norte? Muitos têm atribuido esse fenômeno ao aumento de intercâmbio de pessoas entre a fronteira chinesa desde o início do período de fome na Coréia do Norte do início aos meados da década de noventa. Segundo especialistas em trabalhos humanitários no nordeste chinês, muitos da Coréia do Norte se converteram ao cristianismo trazendo a palavra de Deus com eles para o seu país de origem. O reverendo Isaac do Ministério Cornerstone informou à Comissão Americana Internacional de Liberdade Religiosa que a maioria dos 100.000 protestantes na Coréia do Norte hoje adotaram a fé cristã direta ou indiretamente em contato com chineses e sul coreanos.

Nos anos recentes, o regime da Coréia do Norte tem ficado alerta dessa fonte de poluição espiritual e tem tentado interrompe-la. Existiram relatos que oficiais da Coréia do Norte, incluindo guardas junto à fronteira chinesa e diplomatas na China e agentes, estão de sobre aviso no nordeste chinês, onde um número estimado entre 100.000 a 300.000 refugiados da Coréia do Norte, em uma tentativa de identifica-los, prendem e repatriam esses refugiados. Uma defesa de direitos humanos do Japão alega que o governo da Coréia do Norte estabeleceu o que aparenta ser uma igreja forjada em Yanji, na província de Jilin, que está aproximadamente a vinte kilômetros da fronteira. Ele disse ao Forum18 que oficiais chineses parecem ter adotado uma atitude de João sem braço em relação à igreja e ao seu pastor apesar do conhecimento da existência de que refugiados norte coreanos frequentam a igreja mencionada. A fonte japonesa também alega que muitos norte coreanos que frequentavam a igreja foram presos pela polícia chinesa e forçados a serem repatriados. Ele sugeriu que o pastor em questão pode ter sido forçado a trabalhar nessa capacidade pois sua família está como refém na Coréia do Norte.

Como inúmeros refugiados e grupos cristãos de sul coreanos na China têm testificado, os refugiados que foram presos por oficiais da fronteira foram questionados sobre a veracidade dos contatos com missionários da Coréia do Sul enquanto que na China, foram questionados se eles lêem a Bíblia ou se eles freqüentam a igreja enquanto estão na China. Os que responderam que sim foram ou presos ou sujeitados à pena capital. Entretanto, a preocupação do regime que grupos cristãos tanto da China como da Coréia do Sul ponham em ameaça a segurança à Coréia do Norte não é inteiramente ilegítima. Por muitos anos, as organizações da Coréia do Sul e pessoas anônimas que têm o desejo de conduzir atividades humanitárias na Coréia do Norte ou junto à fronteira chinesa devem receber a aprovação do Ministério de Unificação da Coréia do Norte. A aprovação do governo sul coreano dessas atividades também está condicionada sob a disposição de juntar informação privilegiada a seu favor.

A prova que nós temos sugere que qualquer reavivamento religioso na Coréia do Norte é um fenômeno recente resultante de influências externas. Se isso for verdade, realmente passa a ser irônico que no meio de tanto sofrimento, o conforto na palavra de fé encontrado pelo povo norte coreano tenha sido ilegítimo. Sendo assim, ficaria parecendo que a religião do Estado tem demonstrado sua natural falência e o regime totalitário não passa a ser tão completo. As implicações desses achados são severas. Ao regime da Coréia do Norte, os Estados Unidos de repente passa a não olhar de forma tão ameaçadora se comparado com os próprios cidadãos deste país asiático que acharam a salvação em outros lugares que não sejam o estado norte coreano. Parece que Kim Jong-II e seus camaradas têm algumas coisas com que se preocupar.


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