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O que é a Igreja Ortodoxa Etíope?

Entenda como tradição e fé se relacionam em uma das igrejas mais antigas do mundo

Publicado em 12 jun 2025 • Atualizado em 18 jun 2026

Igreja Ortodoxa Etíope (foto: 2010)

A Igreja Ortodoxa Etíope (IOE) é uma das comunidades cristãs mais antigas do mundo, com mais de 1600 anos. Sua identidade está profundamente conectada à história e à cultura da Etiópia.

No entanto, em alguns contextos locais, as tradições e rituais podem ocupar um espaço central na prática da fé, até mesmo acima do evangelho.

Neste artigo, você vai entender o que é a Igreja Ortodoxa Etíope, sua história, quais são suas principais práticas e como grupos ultraconservadores impactam cristãos em diferentes regiões do país.

O que caracteriza uma igreja ortodoxa?

Uma igreja ortodoxa é uma expressão histórica do cristianismo que preserva tradições antigas da fé, com forte ênfase na liturgia, nos sacramentos e na continuidade da doutrina transmitida desde os primeiros séculos.

De forma geral, as igrejas ortodoxas se caracterizam por:

  • Liturgias estruturadas e simbólicas
  • Valorização da tradição, além das Escrituras
  • Veneração a santos e figuras importantes da fé
  • Uso de línguas litúrgicas antigas
  • Liderança centrada em sacerdotes e bispos

A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo faz parte de um grupo conhecido como Igrejas Ortodoxas Orientais, composto por seis igrejas:

  • Igreja Copta Ortodoxa (Egito)
  • Igreja Ortodoxa Eritreia
  • Igreja Apostólica Armênia
  • Igreja Ortodoxa Síria (de Antioquia)
  • Igreja Ortodoxa Malankara (da Índia)
  • Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo

Elas se uniram durante o Concílio de Calcedônia, que discutia a natureza divina e humana de Jesus. O nome Tewahedo, comumente associado ao nome da Igreja Ortodoxa Etíope significa “unidade” em ge’ez, língua semítica litúrgica tradicional da Etiópia.

O termo expressa a crença defendida no concílio, de que Jesus Cristo possui uma natureza unificada, plenamente divina e plenamente humana.

Diferente da igreja católica, as igrejas ortodoxas não estão em comunhão com Roma, ou seja, não reconhecem a autoridade do papa.

Não se deve confundi-las também com as Igrejas Ortodoxas Orientais Bizantinas (grega, russa, sérvia e outras).

Quem fundou a Igreja Ortodoxa Etíope?

A Igreja Ortodoxa Etíope (IOE) é uma das instituições cristãs mais antigas do mundo. Ela foi estabelecida oficialmente no século 4, quando o rei etíope declarou o cristianismo a religião do Estado.

Embora estivesse formalmente afiliada à Igreja Copta do Egito no início, devido à distância geográfica, na prática, era o rei etíope que determinava o destino da IOE. Desde o começo, portanto, a igreja estatal era ligada à elite dominante. 

Ao longo da história, alguns líderes da Igreja Ortodoxa Etíope usaram a religião e a igreja para legalizar seu poder e consolidar uma identidade nacional.

Estima-se que a epopeia nacional etíope Kebra Negest foi criada no século XIII ou XIV. A obra estabelece que os governantes etíopes são descendentes do filho da rainha de Sabá com o rei Salomão (1 Reis 10:1-13 e 2 Crônicas 9:1-12).

Também é dito que esse filho levou a Arca da Aliança de Jerusalém para a Etiópia, onde se diz que ela permanece numa catedral até hoje.

Isso deu origem a uma crença profundamente enraizada de que cristãos etíopes são herdeiros especiais do povo de Israel do Antigo Testamento.

Os governantes etíopes e braços ultraconservadores da Igreja Ortodoxa veem a si mesmos como guardiões da herança da rainha de Sabá e do rei Salomão; como aqueles que garantem a continuidade, a tradição e a identidade etíope.  

Até mesmo o último imperador Etíope, Haile Selassie (1892–1975), se autoentitulava de “o vitorioso Leão de Judá” e tinha sua linhagem “salomônica” incluída na Constituição. Ele também se via como o “defensor da fé ortodoxa,” tinha a si mesmo como imperador ungido da igreja e designava eclesiásticos para cargos políticos.

Em troca, clérigos ortodoxos e fiéis veneravam o imperador e seu nome era adorado nas orações diárias. Assim, ao longo dos séculos a Igreja Ortodoxa Etíope se tornou uma importante formadora da identidade nacional na Etiópia.

Quando a Igreja Ortodoxa Etíope perdeu sua posição como igreja estatal? 

Em 1974, Haile Selassie foi deposto como imperador e a IOE perdeu sua posição como igreja estatal. Porém, seu passado como uma instituição influente e formadora de cultura continua a moldar a mentalidade até os dias atuais.  

Cristãos ortodoxos ultraconservadores são orgulhosos quanto a sua suposta descendência salomônica e sua longa tradição cristã. Ayana* juntou-se a uma congregação protestante quando era um jovem adulto, mas cresceu em uma família ultraconservadora.

Hoje ele atua como um parceiro local da Portas Abertas, mas compartilha suas memórias sobre o impacto da visão de muitos cristãos ortodoxos ultraconservadores ao longo de sua vida.

Quais são as principais tradições da Igreja Ortodoxa Etíope?

As tradições da Igreja Ortodoxa Etíope incluem uma forte ênfase litúrgica, práticas que remetem ao Antigo Testamento e a uma profunda valorização de símbolos considerados sagrados.

Desde suas origens, a IOE desenvolveu práticas que lembram elementos da lei judaica, como:

  • Circuncisão de meninos.
  • Observância do Shabbath — além do domingo, o sábado é guardado como um dia de descanso e dedicado a orações e cultos.
  • Lei dietética do Antigo Testamento — regras alimentares baseadas em animais considerados puros e impuros.

Essas tradições fazem parte da compreensão de que a igreja preserva uma herança espiritual ligada ao povo de Israel.

A arquitetura das igrejas também revela essa influência. Muitos templos possuem divisões semelhantes às do antigo templo judaico, e o acesso a determinadas áreas é restrito.

Em algumas comunidades, os fiéis permanecem do lado de fora durante as celebrações, limitam-se a beijar a entrada e escutar a liturgia do lado de fora. Apenas líderes religiosos entram nas áreas mais internas.

Outro elemento central é a presença de tabots, réplicas da Arca da Aliança, nos altares que eles acreditam ter um poder espiritual. Na tradição etíope, acredita-se que a Arca da Aliança original — descrita no Antigo Testamento — esteja na Etiópia, ligada à narrativa da rainha de Sabá e do rei Salomão.

Essa crença fortalece a ideia de que o povo etíope tem uma conexão especial com a história bíblica e com Israel.

Na prática cotidiana, rituais e devoções ocupam um espaço significativo. A doutrina oficial da IOE afirma claramente que Jesus é o Filho de Deus. No entanto, pela forma como a fé ortodoxa é praticada localmente, os fiéis muitas vezes não conhecem o evangelho e buscam a salvação em tradições e rituais.

A veneração aos santos é amplamente difundida, com destaque para a Virgem Maria, que motiva mais de 30 celebrações ao longo do ano.

A liturgia tradicional é frequentemente realizada em ge’ez, uma língua antiga que já não é compreendida pela maioria da população. Isso pode dificultar o entendimento do conteúdo das celebrações por parte dos fiéis que falam amárico, idioma oficial da Etiópia.

Qual é o lugar da Bíblia na Igreja Ortodoxa Etíope?

Embora a IOE reconheça a Bíblia como parte de sua tradição, em alguns contextos locais, o texto bíblico não é o foco principal das práticas religiosas.

Por exemplo, o estudo da Bíblia muitas vezes não é exigido dos sacerdotes da Igreja Ortodoxa Etíope. O treinamento se concentra na recitação da liturgia nesses casos.

Relatos de cristãos locais indicam que:

  • A leitura bíblica nem sempre é ensinada de forma acessível
  • A pregação frequentemente enfatiza tradições e escritos da própria igreja
  • Muitos fiéis têm pouco contato direto com o evangelho

Isso resulta em uma vivência da fé mais centrada em rituais do que na compreensão pessoal da mensagem de Cristo.

Sim, a Bíblia da Igreja Ortodoxa Etíope é uma das mais extensas do cristianismo, contendo 81 livros, mais do que a Bíblia protestante e a Bíblia católica.

Essa Bíblia inclui livros presentes na tradição católica (deuterocanônicos) e outros textos considerados sagrados dentro da tradição etíope. Apesar disso, a leitura e explicação da Bíblia não são centrais na prática da fé.

A perseguição a cristãos que buscam outras igrejas

A Igreja Ortodoxa Etíope é frequentemente vista como parte inseparável da identidade nacional. Para muitas pessoas, a igreja continua sendo um lugar que frequentam porque faz parte de sua cultura e porque consideram os rituais espiritualmente poderosos, mas não porque entendem o evangelho

Por isso, cristãos etíopes que buscam uma experiência de fé centrada na leitura bíblica e em um relacionamento pessoal com Jesus em outras igrejas podem enfrentar desafios significativos, como:

  • Pressão social e familiar
  • Rejeição em comunidades locais
  • Marginalização religiosa

Por que ainda assim as pessoas deixam a IOE e quebram a tradição? Quando cristãos ortodoxos na Etiópia juntam-se a congregações de outras denominações, não estão em busca de formas mais “modernas” de expressar sua fé, mas de caminhos para um relacionamento real e sincero com Jesus.  

É importante destacar que nem todos os cristãos da IOE perseguem cristãos de outras denominações. A pressão está relacionada principalmente a sacerdotes e seguidores de movimentos ultraconservadores que querem proteger sua tradição centenária a todo custo e utilizam sua influência para direcionar outros fiéis a perseguirem os cristãos de outras denominações.

Setores ultraconservadores da Igreja Ortodoxa Etíope veem a si mesmos como guardiões da cultura etíope e como a denominação “única e verdadeiramente” cristã. Outras denominações são consideradas influências “estrangeiras”, “anti-etíopes” e concorrentes.  

Isso é especialmente verdade para as comunidades protestantes que têm crescido rapidamente desde os anos 1960.

Ao mudar de denominação, as pessoas são vistas como traidoras por aqueles ao seu redor. Como renegados que quebraram a tradição familiar, traíram sua linhagem nacional, e juntaram-se a uma comunidade estrangeira.

Sacerdotes ortodoxos ultraconservadores também incitam nos cultos e nos meios de comunicação da igreja a exclusão dos “pentes” — gíria pejorativa para cristãos protestantes na Etiópia—, demonizando o grupo e quem quer que tenha contato com ele. Às vezes, chegam a ameaçar de expulsão da igreja os que falam com os “pagãos”. 

“Eles fazem ameaças do tipo: ‘Onde você será enterrado?’, pois segundo eles, você só irá para o céu se for enterrado no solo sagrado do terreno da igreja”, explica Yakob. 


“O Jesus que você chama de Deus não é Deus – é o diabo. Então pare de acreditar nele!”, vociferou a mãe de Enat* depois que a jovem foi batizada em uma congregação de outra denominação. 

A mãe de Enat tentou matá-la várias vezes, por isso, a jovem não mora mais com a família. 

Participe do Shockwave 2026 e ore pela Etiópia 

No contexto em que membros de igrejas ultraconservadoras perseguem outros cristãos, impedindo que as pessoas conheçam Jesus, nossa oração é muito importante. No Shockwave 2026, você pode juntar um grupo de amigos e orar para que Jesus supere as barreiras do protecionismo denominacional e se revele às pessoas que ainda não o conhecem pessoalmente no Chifre da África. Inscreva seu grupo de oração e acesse os materiais digitais gratuitos.

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Perguntas frequentes sobre a Igreja Ortodoxa Etíope

A Igreja Ortodoxa Etíope acredita em Jesus?

Sim, a doutrina oficial afirma que Jesus é o Filho de Deus. No entanto, a forma como essa fé é vivida pode variar significativamente entre diferentes comunidades.

Por que os fiéis ficam do lado de fora da igreja?

Isso está relacionado a práticas de pureza ritual e à estrutura tradicional dos templos, onde apenas determinadas pessoas podem acessar áreas internas.

A Bíblia é usada nos cultos?

A Bíblia faz parte da tradição da igreja, mas, em alguns contextos, não é o elemento central das celebrações, que tendem a enfatizar liturgias e tradições.

Existe perseguição entre cristãos na Etiópia?

Em alguns casos, cristãos de diferentes denominações enfrentam oposição, especialmente quando deixam tradições historicamente estabelecidas.

A Igreja Ortodoxa Etíope está em comunhão com Roma?

Não. Ela faz parte das igrejas ortodoxas orientais e não reconhece a autoridade do papa.

A Igreja Ortodoxa Etíope é igual à igreja católica?

Não. Embora compartilhem elementos históricos, possuem diferenças doutrinárias, estruturais e litúrgicas.

A Igreja Ortodoxa Etíope tem relação com a igreja copta?

Sim. Historicamente, a igreja etíope esteve ligada à copta, da qual herdou parte de sua tradição.

A Igreja Ortodoxa Etíope e a Eritreia são a mesma?

Não, mas são muito próximas. A igreja ortodoxa eritreia surgiu a partir da etíope e mantém práticas semelhantes.

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