História: evangelismo e crescimento da Igreja em uma cultura de perseg

Fui enviada para Angola pela Sociedade Internacional de Estudantes Evangélicos (SIEE) a pedido da Aliança Evangélica de Angola para ajudar na implantação de um movimento estudantil. Trabalhei lá de 1984 a 1995.

No início, minha família pensou que eu havia enlouquecido: tinha um ministério abençoado e feliz com os estudantes no Brasil; por qual motivo deveria ir para “aquele país”? Mas tinha confiança de que o Senhor estava me chamando. Após voltar para casa pela primeira vez, compartilhei com minha família o que Deus estava fazendo em Angola. Logo começaram a apoiar meu ministério.

Durante o tempo em que estive em Angola, o país estava em guerra. Embora fosse um país marxista e impusesse restrições em relação à liberdade religiosa, de 1991 em diante houve um crescimento de liberdade para a Igreja. Todavia, a perseguição, sempre esteve presente.

Na verdade, ela não era tão forte, apesar de sempre ter havido pressão sobre as igrejas. O governo exigia que as igrejas fossem registradas, o que daria aos seus líderes o direito de viajar para o exterior e receber ajuda e visitas de pessoas de outros países.

Porém, não é fácil se registrar e, mesmo após o registro, as restrições continuam. Abaixo, seguem cinco exemplos do que acontecia:

Pressão psicológica
Alguns policiais foram a uma pequena igreja na zona rural e disseram: “Amanhã, às 7 horas, vocês deverão destruir essa igreja. Estaremos aqui para monitorá-los, e vocês sofrerão se não obedecerem!”.

Alguns membros da igreja destruíram o prédio. Os líderes foram à polícia para prestar queixa e pedir ajuda e o direito de reconstruir. Os policias zombaram deles, dizendo: “Seus membros destruíram a igreja. Como podem provar que nós ordenamos que eles o fizessem?”

Corrupção

Visitei algumas ONGs na Europa com o secretário geral da Aliança Evangélica. Por anos, a Igreja em Angola não recebeu nenhuma ajuda de fora. Eu o encorajei a fazer contatos, acreditando que mais ajuda viria. E havia promessas de ajuda.

Quando o primeiro contêiner chegou ao porto, com produtos de necessidade básica, o secretário de Assuntos Religiosos foi até nosso escritório, esbravejando que não tínhamos o direito de receber aquela ajuda. “Pelo contrário”, ele disse, “a ajuda deveria ser entregue a mim e distribuída pelo departamento de assuntos sociais”.

Embora isso tenha sido um choque, nós jejuamos e oramos. O secretário geral estudou algumas leis e procurou orientação da agência católica romana Caritas.

Na segunda visita, a atitude do diretor mudou completamente: “Claro que você pode receber esses produtos, porém, você poderia nos dar um pouco, já que sabe que precisamos.”

Delatores

Durante os meus primeiros meses em Angola, comecei uma pequena reunião com quatro estudantes em minha casa. O secretário geral disse que eu poderia usar a igreja, mas que não tinha o direito de fazer tais reuniões em casa. Havia “vigias civis” por todos os lugares

Perseguição contra universitários

A experiência mais difícil foi em relação aos alunos. Começamos de forma reservada, realizando nossas reuniões em prédios das igrejas, mas logo fomos descobertos e nos disseram que o que fazíamos era inaceitável.

Em uma cidade universitária, os fiéis cristãos do grupo foram chamados duas vezes, individualmente, pelo diretor, que lhes disse: “Você tem de escolher: ou continua seus estudos e desiste de sua fé ou se preferir continuar indo à igreja, perderá todos os direitos de estudar e não receberá nenhuma prova do que estudou”. Todos lhes disseram que queriam servir seu país, mas que não poderiam negar o Senhor.

Na terceira vez, a ameaça foi feita durante uma grande reunião pública. Eles tiveram de ficar em pé, um por um, e declarar sua escolha.

Como continuavam fiéis a Cristo, policiais foram às suas casas durante a noite e os levaram para servir no exército. Eles, porém, não eram tratados como os outros soldados, pelo contrário: eram considerados traidores do país. Foram enviados para locais perigosos.

Após dois anos, as acusações foram removidas e eles puderam voltar e terminar seus estudos.

Espionagem

Também era comum ter espiões em nossas reuniões. Sentia imediatamente quem era essa pessoa (um discernimento especial que Deus nos dá em certas ocasiões). Tinha de orar para não me incomodar com a presença dele ou dela, mas para vê-lo como qualquer outro pecador que precisava da graça de Deus.

Aos poucos, aprendi a superar meus medos, entretanto, continuava orando por sabedoria sobre como deveria apresentar meus ensinamentos.

Evangelismo e crescimento da igreja em contextos específicos

As restrições em relação à liberdade religiosa podem ter causado medo, mas, em meio a isso, as pessoas sentiram grande necessidade do amor, da segurança e da esperança de Deus.

Durante o tempo que passei em Angola, as igrejas estavam geralmente cheias. As pessoas responderam bem ao evangelho e muitas se converteram.

Muitos pastores tinham pouco treinamento, mas amavam ao Senhor e continuavam pregando. A maioria dos sermões era simples, mas a verdade do evangelho era passada e as pessoas se convertiam a Cristo.

Não havia liberdade para construir novas igrejas naquele período. Como as igrejas existentes suportavam o número crescente de cristãos?

Algumas faziam quatro cultos e três escolas dominicais (para crianças e adultos) todos os domingos. Uma igreja, que se reunia na sala de uma casa, removeu todas as paredes internas para aumentar o espaço. Outra tinha uma pilha de tijolos do lado de fora e um alto-falante; algumas pessoas sentavam nos tijolos (sob o sol) por horas, participando do culto.

Geralmente havia espiões nos cultos, portanto, os líderes tinham de ser sábios para falar a verdade de maneira politicamente inofensiva.

Certa vez, fui chamada por uma líder do departamento de mulheres do partido marxista. Ela queria me encontrar e eu esperava pelo pior. O que ela realmente queria era que eu compartilhasse minha fé, que lesse a Bíblia, explicasse-a e orasse com ela. Foi o que eu fiz. Ela me chamou uma segunda vez para fazer a mesma coisa, mas, dessa vez trouxe uma amiga do partido.

Embora não fosse possível fazer evangelismo público, evangelismo amigável sempre era possível. Visitávamos as pessoas em suas casas e, antes que partíssemos, pedíamos permissão para ler um texto da Bíblia e orar. A maioria das pessoas aceitava.

Os funerais eram bons lugares para fazer isso. Muita gente morreu naquele tempo, causando grande dor, e deixando as pessoas ficavam mais abertas para receber uma visita. Oferecíamos conforto e orávamos por eles.

Também evangelizei em hospitais, visitando feridos da guerra – pessoas feridas por dentro e por fora, geralmente solitárias e carentes de conforto e amor.

Alguns eram marxistas e, nas primeiras visitas, mostravam-se fechados. Entretanto, a amizade removia as barreiras e criava oportunidades para compartilhar o evangelho. Nunca critiquei o marxismo, antes, apresentava o amor de Deus.

Quando as restrições no país diminuíram, os pobres começaram a construir suas próprias igrejas, prédios muito simples na maioria. Eles se reuniam com grande alegria e coragem.

Maior liberdade também encorajava as igrejas para trabalhar juntas em projetos evangelísticos e organizar conferências para ensinar e encorajar seus líderes.

O crescimento da Igreja evangélica

Embora houvesse menos restrições na década de 1990, a guerra continuava. A paz chegou apenas em 2002. Por isso, a Igreja em Angola cresceu bastante durante esse tempo.

Em 1975, 8% da população (384 mil pessoas) era cristã evangélica. Compare isso com os dados de 2000, quando havia 2,1 milhões de cristãos evangélicos (16,4% da população). 1

Nem todo o crescimento era saudável. Muitas novas igrejas eram organizadas por profetas com pouquíssimo conhecimento da Bíblia e algumas formas de sincretismo. Entretanto, até eles estavam abertos a aprender mais sobre a Bíblia. Muitos, na verdade, tornaram-se mais evangélicos.

Em 1995 houve uma campanha evangelística mundial feita por Billy Graham, cujas mensagens eram transmitidas via satélite para todo o mundo.

Embora tenha sido muito trabalhoso, recebemos permissão para usar locais públicos em Angola, ela nos foi concedida.

Em Luanda, pudemos usar o cinema Karl Marx, que ficava lotado toda noite. Orava e convidava muitos vizinhos. Todos foram ao menos em uma das reuniões.

Após o fim da guerra, em 2002, as igrejas evangélicas cresceram rapidamente e surgiram novas denominações.

Muitas foram formadas por líderes que não queriam se adaptar às denominações existentes e que queriam ser independentes. As divisões criadas durante os 40 anos de guerra também influenciaram esse quadro.

Missões estrangeiras trabalhavam apenas com determinadas pessoas, portanto, havia pouca interação e solidariedade entre os evangélicos. Outras missões estrangeiras, que foram para o país recentemente, plantaram sua própria forma de cristianismo.

Palavras finais

Quando retornei ao Brasil, fui trabalhar em uma escola de missões. Tenho compartilhado minha visão e experiência, dizendo aos estudantes e membros das igrejas brasileiras que não existem situações impossíveis para o evangelho.

Quando as coisas parecem difíceis, geralmente os corações estão abertos. Porém, é necessário que se saiba como apresentar a mensagem do evangelho e como discipular os convertidos. A falta de sabedoria dos missionários nessas áreas causa grande sofrimento às pessoas.

No Brasil, fazemos evangelismo em nossas micro-regiões, onde há pequena porcentagem de evangélicos e muitos grupos religiosos tradicionais resistentes. Buscamos alcançar aproximadamente 15 mil universitários locais.

Ore conosco pelo avanço do trabalho em Angola, no Brasil e em outros lugares onde os cristãos evangelizam esse importante grupo de universitários.

Notas

1. Johnstone, Patrick and Jason Mandryk. 2001. Operation World . Waynesboro, Georgia, USA: Paternoster.

A autora

Antonia Leonora van der Meer é brasileira e serviu como missionária na Aliança Evangélica em Angola para organizar um movimento estudantil. Agora ela é professora e diretora do Centro Evangélico de Missões em Viçosa, Brasil.