A vida do pastor Nicolai Shevchenko, no Uzbequistão, durante a época d

| 06/10/2009 - 00:00


Especial 20 anos da queda do Muro de Berlim

Esta é uma entrevista com o pastor Nicolai Shevchenko, publicada na Gazeta Silk Road em fevereiro de 2005. A igreja Batista de Betânia, em Tashkent, passou por muitos problemas com as autoridades por causa de questões de registro. Após vários anos de interminável burocracia, multas e ameaças, eles tiveram de cancelar seus encontros e os membros da igreja decidiram frequentar os cultos em outro local da cidade.

Crescendo sob pressão

“Eu cresci aqui no Uzbequistão. Então, conheço o sistema comunista muito bem. Há 50 anos, quando tinha 7 anos de idade e frequentava o ensino básico, eu sofria zombarias e até mesmo apanhava dos outros meninos. Meus pais eram batistas e todos na escola sabiam disso. Todos eles me importunavam e me ridicularizavam como se eu não fosse membro dos Pioneiros da Juventude Comunista. Minha avó polonesa insistia que a cor vermelha dos cachecóis representava o sangue de todas as pessoas inocentes que haviam sido mortas desde a revolução comunista.

A pressão de todas aquelas pessoas se tornou muito forte e decidi me voltar contra a fé de meus pais. Comecei a me apegar à causa comunista e estava determinado a provar quem eu era. Tornei-me um membro do Partido e da Juventude Soviética e queria me distinguir. Após terminar o ensino médio, alistei-me no exército, mas mantive-me envolvido com o Partido. Meu zelo pela causa foi percebido e foi-me concedida uma licença extra na Páscoa para passar mais tempo com os meus pais a fim de mostrar-lhes o que era realmente a Páscoa. A caminho de casa, no avião, passamos por uma difícil turbulência. Foi tão severa que ainda me lembro de ter pensado: Se Deus existir, poderia me deixar cair agora mesmo!

Um debatedor determinado

Passei a criticar muito meus pais. Eu era muito grosseiro com minha mãe e lhe dizia que ela deveria ser abatida como um animal por causa de seu comportamento desprezível.   

Depois de um tempo, terminei meu compromisso com o exército e me preparei para voltar para casa. Meus pais estavam muito apreensivos a respeito disso e sua igreja estava orando com eles. "Saul" estava voltando; muitas pessoas estavam com receio.

Estava determinado a convencer a todos da verdade do ateísmo e comecei a organizar debates públicos. Absorvi toda a literatura ateísta para conhecer todos os argumentos disponíveis contra a fé cristã. Ainda que eu perdesse um debate, afirmava que fora um empate. Não cedia de forma alguma.

Em 28 de dezembro de 1969, Deus escreveu meu nome no Livro da Vida. Ele me amou tanto e começou a me mostrar que cada argumento na literatura ateia não era verídica. Na verdade, aquela literatura me levou a Jesus. Muito irônico, não?

No ano seguinte, casei-me com uma cristã chamada Vera, que significa Fé. Temos dez filhos. Naqueles dias, não tínhamos um instituto de treinamento teológico aqui, mas eu estudava a Bíblia sozinho e aprendia com outros em um ambiente informal. Em 1978, tornei-me pastor de uma Igreja Batista aqui em Tashkent.

Cabo de guerra

Em 1996, fui enviado para um dos distritos da cidade, Mirzo Ulugbek, na parte sudoeste de Tashkent, para começar uma nova igreja. Compramos uma casa e cobrimos a área entre essa casa e a do vizinho de forma a criar espaço para todos os tipos de atividades. A vizinhança não se opôs e logo a igreja começou a crescer. Solicitamos o registro, mas os documentos foram recusados. Nesse período, continuamos a nos reunir na casa e demos início a várias atividades para as crianças e jovens. Todos estavam entusiasmados e usamos todas as salas disponíveis.

Em 1999, tentamos obter o registro novamente, pois preferíamos funcionar de forma oficial. Tentamos nos registrar como uma filial da Igreja Batista Russa. Uma lista com cem nomes de membros, os nomes de três líderes e a taxa de 122.500 UZS (equivalente a 50 meses de salário mínimo) foi entregue com o aval do conselho local de nossa vizinhança.

Daí em diante, fomos pegos pela burocracia. Todas às vezes, as autoridades se opunham a algo e nos achávamos em um círculo vicioso. Certa vez, fui envolvido em um processo criminal e corri o risco de pegar cinco anos de prisão. Durante aquele tempo, estávamos regularmente em contato com o Keston College, no Reino Unido. Eles relatavam nossa situação e muitas pessoas oravam por nós.

Entregue as ovelhas

Os últimos três anos foram relativamente calmos para nós como igreja Betânia, mas em 17 de outubro, durante um culto de domingo pela manhã, um grupo de oito oficiais da polícia e um oficial do Serviço de Segurança Nacional nos fez uma visita. Antes disso, tínhamos recebido uma carta, alertando-nos de que estávamos tendo reuniões ilegais e que viriam pessoalmente. O oficial tinha frequentado nossas reuniões há vários anos, mas agora ele cooperava com o Serviço de Segurança. Eu fui chamado do púlpito à porta da frente e, quando eles insistiram que estávamos tendo reuniões ilegais, sugeri que eles tinham sido os primeiros a infringir a lei ao recusar nosso registro.

Eles mandaram que eu escrevesse os nomes de todos os presentes na reunião. Imagine! É como se um pastor entregasse as ovelhas aos lobos. Eu lhes perguntei se eles fariam tal coisa. Não! Eles entendiam o problema e achavam desagradável nos perseguir, mas tinham ordens e tinham de voltar com uma lista de nomes. Então, eles mesmos escreveriam os nomes ou buscariam um caminhão e levariam todos para a delegacia. Isso estava indo longe demais e eu tinha de fazer algo. Subi ao púlpito e expliquei a situação à congregação. Pedi vários voluntários e oito homens jovens vieram comigo e escreveram seus nomes. Um deles foi aconselhado a não fazer aquilo: "Não faça isso, garoto. Você perderá todos seus privilégios na vida e as oportunidades de uma boa educação e carreira." Calmamente, ele explicou ao oficial: "Eu confiei minha vida a Jesus." O oficial não soube como responder. "Vá adiante, então!", disse ele. Eu também tinha que prometer que não faria mais reuniões, mas não consenti. Eles se foram com a lista de nomes e nos disse que seríamos chamados ao tribunal.

Em 26 de outubro, fui multado em 65.000 UZS (o salário mínimo é de 5.540 UZS) e fui ordenado a interromper as atividades da igreja. Caso contrário, um processo criminal seria aberto contra mim.

Os membros da igreja ficaram chocados, é claro, mas estão se saindo bem. É muito animador saber que outros simpatizam conosco e oram por nós. Vocês podem nos ajudar somente em oração. Quando as orações de todo o mundo ascendem aos céus, elas enchem as taças diante do Senhor.”

Assista ao vídeo que conta a atuação da Portas Abertas Internacional durante o período comunista europeu e soviético

 


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