Uma visita ao coração da Ásia Central

| 20/05/2004 - 00:00


O sol está se pondo por trás das montanhas e a noite logo cobrirá as casas de tijolos de barro. Chegamos da cidade onde estamos por estreitas estradas de terra. À fraca luz de uma lâmpada, nós vemos um grupo de homens ajoelhados em oração, voltados para Meca. O islamismo é, sem dúvida, a principal religião aqui.

Fomos informados para chegar à noite e estamos no prazo. Nós chegamos na pequena fazenda exatamente quando a lua estava aparecendo. Saímos do carro bem silenciosamente e nos dirigimos para o pátio. Somos os primeiros a chegar e o anfitrião nos conduz com muita cortesia à sala de estar. Colchões finos estão espalhados pelas paredes que estão cobertas de tapetes coloridos. Não existem cadeiras aqui - estamos no coração da Ásia Central, numa das áreas rurais.

Assim que nos sentamos nos colchões, uma toalha de mesa é estendida no meio da área. Várias xícaras de chá e uma pilha de pães frescos redondos e achatados são trazidos. Símbolos da calorosa hospitalidade com a qual nos familiarizamos cada vez mais durante estas semanas de viagem aqui.

Nossos corações estão cheios de expectativa. Nós vamos nos encontrar com alguns jovens que se tornaram cristãos bem recentemente. O lugar onde estamos é bastante especial. Esta é a fazenda onde, cerca de sete anos atrás, nasceu a igreja indígena nesta terra. Antes disto a Igreja era formada apenas por russos. O proprietário da casa onde estamos foi uma das primeiras pessoas indígenas a se converter a Jesus.

Um a um eles começam a chegar. Garotas jovens, vestidas com roupas coloridas, com contraste brilhante nos cabelos negros. Rapazes usando camisas de mangas curtas e calças pretas juntam-se a elas. Quase nenhum tem mais de 30 anos.

Esta não é uma reunião oficial, explica o nosso anfitrião. Normalmente é bem perigoso aos cristãos se reunirem já que o governo não dá permissão aos cristãos locais registrarem sua igreja. Com sua independência da Rússia e a busca da própria identidade, muitas repúblicas da Ásia Central voltaram ao islamismo como sua autêntica religião. Não se espera que os cidadãos desta república creiam no Deus russo. Os estrangeiros que visitam seu grupo podem causar ainda mais problemas a eles.

Mas, de qualquer forma, eles nos convidaram. Deixem-nos vir, disse o líder do grupo de cristãos locais a seus amigos de uma cidade vizinha. Venham eles ou não, de qualquer forma nós temos problemas com as autoridades. E nós certamente precisamos de encorajamento!

E assim estamos nós nesta reunião muito clandestina. A anfitriã continua trazendo pratos cheios de biscoitos, bolos, nozes, fatias de melancia, tigelas com maçãs, pêssegos e uvas e, é claro, xícaras de chá fresquinho. Se tivéssemos visitantes inesperados, iria parecer que estávamos tendo uma verdadeira reunião para o chá.

Mas mesmo não sendo uma reunião de verdade, nós podemos talvez cantar alguns hinos juntos, sugere o anfitrião. Algumas pastas de textos datilografados são distribuídas junto com alguns cânticos escritos à mão. Quando eu ouço as palavras completamente desconhecidas e a afinação asiática, contemplo os rostos destas lindas pessoas na sala. A alegria que elas demonstram em seu louvor é contagioso. Apesar de não estarmos ainda na época de Natal, o meu coração está cheio das palavras da conhecida canção de Natal Alegre-se o mundo, o Senhor veio. Receba a terra o seu Rei. E enquanto eles oram em sua própria língua, eu suplico a Deus que as pessoas desta terra, e especificamente desta região, recebam o Rei.

Tadjiques, uzbeques, turcomenos, tártaros, quirguizes - todos os povos da antiga União Soviética. Quanto eu orei por eles no passado quando eles estavam tão isolados de nós, e agora estou aqui sentado e olhando para os rostos deste punhado de cristâos. Quanta alegria Deus trouxe às suas vidas!

Eu estou muito ansioso para ouvir suas histórias, como eles vieram a conhecer ao Senhor Jesus. O nosso tio falou-nos do Evangelho, respondem eles às minhas perguntas. A maioria das moças são parentes umas das outras. Ele nunca mente, por isso sabíamos que tinha de ser verdade! Que testemunho. Por seu exemplo e pelo seu estilo de vida, este irmão compartilhou o evangelho e os corações dos seus parentes foram tocados por sua integridade. Como são importantes as relações nesta parte do mundo e que o impacto de um cristão sobre um clã fica claro para mim quando eu ouço mais histórias de outras pessoas.

QUE TODO CORAÇÃO LHE PREPARE LUGAR

Minhas pernas começam a doer um pouco por estar sentado no chão. Eu me ajeito com o travesseiro para ficar mais confortável. Logo, entretanto, eu esqueço meu desconforto quando o irmão Salomão começa a falar.

Eu me tornei cristão em 1995. Um pastor da capital chegou aqui e explicou o evangelho. Seis de nós nos convertemos e fomos batizados no mesmo dia. Como o pastor tinha de ir embora no dia seguinte, ele me nomeou como líder do nosso pequeno grupo. Eu sabia muito pouco a respeito da Bíblia, mas compreendi que o Senhor Jesus é o nosso Salvador e que isso era suficiente para levar outros a Cristo. Tive sorte que, logo depois de ter encontrado o Bom Pastor, tive a oportunidade de ir a um país vizinho onde dizem haver mais liberdade para praticar o cristianismo. Lá eu freqüentei uma escola Bíblica durante três meses e depois voltei para casa. Nossa igreja começou a crescer dinamicamente, mas ao mesmo tempo começamos a experimentar pressão da minha família. O meu clã não estava feliz, afinal, com o meu novo estilo de vida, e numa reunião oficial eles me deram a oportunidade de escolher entre pertencer ao clã ou a Jesus. Para mim, o clã é a minha grande família. Nós todos nos sentimos responsáveis pelo bem estar uns dos outros. Sem a proteção do clã nós ficamos isolados, um náufrago em nossa sociedade. Eu poderia enfrentar aquilo? Eu era forte o suficiente para caminhar sozinho? Jesus conseguiria cuidar de mim e me proteger? Eu conseguiria enfrentar toda aquela solidão?

Foi uma luta intensa. Jejuei e orei durante uma semana inteira. Eu não queria renunciar a Jesus, mas eu não tinha certeza se poderia enfrentar aquele isolamento total. Uma manhã, ao final daquela semana, eu ouvi uma voz acordando-me do meu sono. Abra a sua Bíblia em Atos 13.47, disse a voz. Eu estava bem desperto quando li as palavras de Deus para mim: Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra. Aquele verso resolveu minha luta e me ajudou a tomar uma decisão. Levantei-me e fui a uma reunião do clã. Eles todos haviam se reunido para ouvir a minha resposta ao ultimato deles - renunciar a Jesus ou ser banido. Durante três horas, ininterruptamente, eu expliquei o evangelho a eles e dei-lhes minha decisão final. Eles então me desligaram do clã e de qualquer ajuda ou proteção que eles pudessem me dar.

Mais pressão foi feita sobre nós. Minha esposa, que era professora de informática, foi demitida pelo governo local. Vários outros cristâos também perderam seus empregos. Nossos filhos foram expulsos da escola. Foi um tempo muito difícil para nós como igreja. Muitos cristãos jovens decidiram que o preço era alto demais e de uma só vez cinco deles deixaram a igreja. Era o momento de prova e eu não tinha idéia de quanto tempo aquilo duraria.

Depois de três anos eu tive outro encontro com Deus e ouvi aquela mesma voz novamente, dizendo: As pessoas pensam que desistiram de algo pelo Senhor. Eu não tinha idéia do que aquilo significava, mas naquela manhã aconteceu algo muito especial. Minha tia veio à nossa casa enquanto tomávamos o café da manhã. Ela me contou que o meu tio, o chefe do nosso clã, havia perguntado por mim. Eu fui com minha tia e encontrei toda a família reunida na casa do meu tio. Por que você não nos visita mais? ele perguntou. Eu estou ficando velho, continuou ele, e nós decidimos que de agora em diante, você será o líder do clã.

Eu não posso descrever quão atônito fiquei; nenhuma explicação foi dada. Eu não tinha nenhum indício por que eles tinham mudado de idéia a meu respeito, mas uma coisa eu sei, é que Deus havia intervindo a meu favor. Eu compreendia então a palavra que ouvira naquela manhã. Três anos antes, eu pensava haver entregue o meu clã para o Senhor. Agora Ele restituía a minha família para mim. Naquela noite o Senhor falou novamente comigo: De um passo de cada vez e eu estarei com você.

Salomão ficou em silêncio por um instante, como se estivesse refletindo nos acontecimentos que vieram em seguida. A alegria de receber de volta a família precedeu um tempo de profunda tristeza. Quando ele volta a falar, o tom de sua voz muda.

Logo as autoridades começaram a cair sobre nós. Eles prenderam três irmãos da nossa igreja, confiscaram o nosso local de reuniões e todos os nossos livros. Uma tarde, a polícia chegou à minha casa e me prendeu. Fomos acordados com descortesia do nosso cochilo da tarde. Minha esposa e três filhos pequenos ficaram desolados. Eu tive de comparecer perante quatro tribunais diferentes. O terceiro me sentenciou a oito anos de prisão. Apesar de ser muito difícil para minha família e eu enfrentarmos um futuro incerto, minha recordação mais dolorosa daquele tempo é que ninguém nunca me visitou na prisão. Eu me senti totalmente abandonado e desamparado. Os cristãos de outras cidades não vinham me ver, e eu ficava me perguntando porquê? Eles não se preocupavam comigo?

Fui solto depois de seis meses na prisão. Quando voltei para casa, descobri que ninguém havia sabido do meu sofrimento. Pode parecer improvável para você, mas nós estamos muito longe do resto do mundo, nós vivemos num lugar muito isolado. Quando fui solto, as autoridades ordenaram que eu deixasse a cidade. Eu disse a eles que Deus ainda não me havia dito ainda para sair, por isso eu iria ficar. Apesar de ser muito difícil seguir ao Senhor neste lugar, nós queremos continuar fazendo-o. Há muito trabalho a fazer. O nosso grupo cresceu e existem cerca de oitenta cristâos agora. Porque não podemos nos registrar, nós nos reunimos em pequenos grupos. Alguns se reúnem nas casas, outros vão para as montanhas.

Quando Salomão termina sua história e nós estamos nos aprontando para sair, sua esposa nos diz: Em tudo Deus tem sido muito fiel para conosco. Às vezes nós não temos comida, mas de uma forma muito especial Deus cuida de mim e dos meus filhos. Jesus esteve conosco. Sua presença nos ajudou naqueles difíceis seis meses.


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