Indonésia pós-eleições: qual o impacto desse novo tempo aos cristãos?

Ambos os candidatos à presidência defendem valores islâmicos, o que intensifica a preocupação dos cristãos quanto à perseguição religiosa

No último dia 17, os indonésios votaram para as eleições legislativas e presidenciais do país. O evento foi considerado o maior exercício de urnas do mundo em um único dia. O resultado oficial só deve ser anunciado em maio, mas independemente do que for decidido, uma questão já é certa: os cristãos devem se preparar para uma “compreensão cada vez mais conservadora do islã no país”, diz um analista.

Os dois candidatos à presidência, que se enfrentaram em 2014, voltaram a disputar: o atual presidente, Joko Widodo, e Prabowo Subianto, o ex-general que perdeu o cargo por pouco na última eleição. O vencedor irá governar, pelos próximos cinco anos, o maior país de maioria muçulmana do mundo.

"Ambos os candidatos não tornarão a vida melhor para os cristãos", afirma um membro da equipe local da Portas Abertas. “Joko Widodo tem um histórico ruim na proteção dos direitos das minorias. As pessoas disseram que provavelmente é porque ele se concentra muito em questões de desenvolvimento. E Subianto, embora de origem cristã, se converteu ao islamismo e é apoiado por grupos muçulmanos linha-dura”.

Apesar de o país ter aberto cerca de 800 mil seções eleitorais, algumas pessoas puderam se abster de votar. “As pessoas que ficaram desapontadas com o atual governo chegaram a criar anúncios de campanha e filmes para incentivar as pessoas a não votarem.”

Segundo um colaborador da Portas Abertas, “a opinião dominante está se tornando mais conservadora” e que ambos os candidatos presidenciais são nacionalistas, de forma que “ouvirão os crescentes pedidos por uma maior força do islã no país”. "É seguro dizer que os cristãos indonésios precisam se preparar para uma compreensão cada vez mais conservadora do islã no país e tempos mais desafiadores", afirma o porta-voz.


Acusações de blasfêmia crescem na Indonésia

A Indonésia era conhecida há muito tempo por sua tolerância. No entanto, as minorias religiosas se tornaram cada vez mais temerosas da “crescente influência do islã radical na política e na sociedade”, conforme relatado pelo World Watch Monitor. O julgamento e a condenação do ex-governador cristão de Jacarta, Basuki Tjahaja Purnama (Ahok), por acusações de blasfêmia foram considerados como um símbolo dessa mudança.

Os casos de blasfêmia na Indonésia aumentaram significativamente: 25 em 2018 contra nove em 2017, de acordo com um relatório do Instituto Setara de Democracia e Paz, com sede em Jacarta. A politização da religião e o aumento do discurso de ódio foram as principais causas desse aumento, segundo o site de notícias UCANews relatou no início de abril.

O colaborador da Portas Abertas diz que é interessante observar como os novos partidos se sairão nas urnas, assim como o que acontecerá nas eleições locais. "A Indonésia é um dos países mais descentralizados do mundo e, exceto pelas leis de blasfêmia e de construção, muitas regras que limitam os cristãos vêm do nível local", afirma.

O analista também acrescenta que o peso do voto rural não deve ser subestimado. "Nas aldeias, as pessoas votam no candidato que seus líderes religiosos lhes dizem para votar. Não importa a quantidade de campanhas realizadas, nem mesmo os esforços que a administração e os concorrentes estejam fazendo para combater as histórias fraudulentas – o que é um grande problema aqui", declara o colaborador.

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