Multidão muçulmana vandaliza vila cristã ortodoxa

| 10/10/2005 - 00:00


A paixão étnica desenfreada de dois cristãos gregos ortodoxos no interior da Turquia mostrou como um único descuido pode resultar na perseguição de uma grande comunidade.

Mais de 100 moradores da vila turca de Karsu vandalizaram uma região cristã ortodoxa de Altinozu após receberem o aviso que os cristãos haviam atacado muçulmanos. Uma briga de rua teve início quando dois jovens primos se sentiram provocados por insultos de um muçulmano às mulheres cristãs.

A multidão muçulmana passou pelo bairro grego ortodoxo Sarilar, em Altinosu, pouco antes das 23 horas do dia 3 de agosto, gritando que "não há lugar para infiéis aqui".

A guarda metropolitana reforçou a polícia local e ajudou a amenizar a violência, mas não a tempo de impedir que 10 casas fossem destruídas e 5 pessoas, entre 12 e 62 anos de idade, fossem feridas, incluindo a esposa do líder da paróquia Spir Bayrakcioglu.

Os primos Mitri e Engin Keseroglu, cristãos grego-ortodoxos do bairro de Sarilar, foram acusados de usar lâminas para cortar dois jovens de Karsu numa briga naquela mesma tarde, um pouco mais cedo, que disparou a guerra e a violência. O muçulmano portador de uma faca que estava presente na confusão, Bahadir Arslanoglu, 19, não foi preso.

De acordo com o porta-voz da vila, Kenan Yildirim, a maioria dos moradores de Karsu participava da reunião mensal de negócios da cidade quando receberam a ligação informando que os cristãos estavam atacando os muçulmanos. Em suas declarações ao jornal local "Ozyurt", o governador afirmou que tentou deter o ataque de vingança e que até mesmo levou vários golpes durante o processo.

Ninguém de Karsu foi preso

Tratores e microônibus transportaram aproximadamente 100 moradores de Karsu por três quilômetros, até as proximidades de Sarilar, em Altinozu, onde eles se reuniram antes de continuar a pé.

Enquanto caminhavam em direção à vizinhança ortodoxa, eles cantavam: "Saiam daqui, vocês não têm motivos para estar aqui, esta terra é nossa", enquanto usavam paus e pedras para quebrar janelas e atacar os cidadãos turcos árabes.

Um morador, que pediu para que seu nome não fosse divulgado, informou a Compass que ao escutar um grande alvoroço correu para fora e viu uma grande multidão. "Atrás deles estavam cinco ou seis policiais assistindo ao evento, pois estavam em número muito pequeno para intervir."

Pouco depois das 23 horas, a guarda metropolitana chegou para reforçar a polícia e dispersou a multidão atirando para o alto.

A polícia não prendeu ninguém de Karsu por causa do vandalismo.

Mais tarde, naquela mesma noite, a polícia prendeu os cristãos ortodoxos de Sarilar, Mitri Keseroglu, 18, em sua casa, enquanto Engin Keseroglu, 21, foi preso na manhã seguinte por volta das 8 horas.

Os dois foram acusados de "usar um objeto afiado com intenção de ferir". Eles foram libertados no dia 1º de setembro, depois de quase um mês na prisão. De acordo com seu advogado, Mustafa Dikce, a data da audiência ainda não foi agendada.

Em declarações oficiais dadas à polícia, Mitri e Engin negaram o uso de armas na sua briga com Bahadir Arslanoglu, 19, e Mehmet Sozer, 18, ambos muçulmanos. Os primos declararam que os dois jovens de Karsu os atacaram primeiro, quando eles retornavam para suas casas.

Embora Bahadir tenha negado qualquer envolvimento em iniciar a briga, o jornal "Ozyut" declarou, e fontes locais confirmaram, que a intriga com os primos Keseroglu havia começado por causa dos comentários rudes que Bahadir fez sobre as mulheres cristãs.

Tensões à flor da pele

Engin Keseroglu declarou que após a rixa inicial ter terminado e ele ter continuado a volta a sua casa apenas com ferimentos leves, percebi "que não tinha mais meu celular".

Voltando ao local da briga acompanhado de Mitri Keseroglu e outro primo de 17 anos, ele descobriu que Bahadir e Mehmet também haviam voltado com outros quatro amigos. De acordo com Mitri, Bahadir puxou uma faca, e a briga reiniciou até que curiosos conseguiram apartar os dois grupos.

Bahadir e Mehmet foram ao hospital, onde receberam pontos por causa dos cortes longos na bochecha e na testa. De acordo com a declaração feita no dia 10 de agosto, as cicatrizes eram permanentes e necessitariam de cirurgia plástica.

Muitos moradores de ambas as vilas declararam que o ataque dos habitantes de Karsu em Sarilar mais tarde naquela noite não passou de uma briga entre cristãos e muçulmanos que ficou fora de controle.

Dois dias depois da violência, o porta-voz de Karsu, Yildirim, foi citado no "Ozyurt" se desculpando: "Nós nos desculpamos por esse evento ter sido provocado".

"Essa coisa toda começou por causa de comentários rudes feitos às mulheres", explicou Bayrakcioglu, líder do bairro, no mesmo artigo. "É lamentável a proporção que o caso assumiu".

Carpinteiro em Sarilar, Selim Bayrakcioglu contou a Compass que as origens da briga remontam a abril, quando a localidade cristã teve sua celebração anual de Páscoa com jogos e danças folclóricas. "Rapazes muçulmanos de outras vilas comparecem porque podem estar no mesmo meio com jovens garotas", muitas que, segundo ele, eram visitantes européias e não se vestiam de acordo com o que é culturalmente aceitável para os padrões turcos de modéstia.

Selim disse que qualquer um que viesse com a família era bem-vindo, mas os cristãos restringiram a participação de alguns moços solteiros "que estavam constantemente lá para importunar as garotas. Eu acho que esses jovens rapazesnão foram liberados para a festividade e foi assim que isso tudo começou".

Essa área tem tradicionalmente sido um raro exemplo de paz inter-religiosa numa parte do mundo onde guerras religiosas como as Cruzadas deixaram suas marcas. Durante a guerra turca pela independência e em seguida a 1ª Guerra Mundial, os turcos protegeram os árabes cristãos étnicos de Altinozu, que pertencem à Igreja Ortodoxa Grega.

A reputação da região é um dos motivos pelos quais ela foi escolhida para abrigar o "Encontro das Civilizações" em setembro último, onde estavam presentes ortodoxos armênios, muçulmanos, judeus e líderes ortodoxos gregos.

O advogado muçulmano Mustafa Dikce explicou a Compass que pegou o caso dos primos Keseroglu porque queria defender bons relacionamentos entre religiões. "Aqui, por muitos anos temos vivido como irmãos com essas pessoas, muçulmanos, cristãos, alevis e sunnis", ele disse. "Altinozu é um lugar tão maravilhoso, mas pode haver gente querendo destruí-lo".

Mas nem todos dessa região tão diversificada etnicamente pintam um retrato cor de rosa dos relacionamentos entre muçulmanos e cristãos.

Selim, o carpinteiro de Sarilar, concordou que as relações entre vizinhos muçulmanos "têm sido sempre boas", mas apontou para um problema mais profundo de identidade que os ortodoxos de Sarilar têm de enfrentar.

"Nós gregos ortodoxos nunca fomos vistos por essa terra-mãe como filhos verdadeiros", ele disse, ressaltando que ninguém se responsabilizou pelo vandalismo da noite passada. "O fato é que eles se enfureceram por algo tão simples e se apresentaram tão dispostos a nos expulsar que mostra como as coisas não são tão amigáveis quanto parecem".

Mesmo assim Selim não é de guardar rancor. Na manhã seguinte ao ataque, ele assustou sua mulher quando deu pregos, livre de custos, aos residentes de Karsu que vieram à sua loja de ferramentas.

O carpinteiro disse que espera que as coisas melhorem. "Não sou um cidadão de segunda classe aqui. Não sou enteado. Essa é a nossa terra-mãe. Meu avô serviu nas forças armadas daqui, meu pai serviu nas forças armadas e eu servi nas forças armadas. Nós precisamos entender isso, e precisamos que as pessoas à nossa volta entendam isso. Mas parece que ainda levará um bom tempo".


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