Acusado de estupro escapa da corte paquistanesa

| 11/11/2005 - 00:00


A polícia assistia enquanto o suspeito de estupro Muhammad Kashif fugiu da Faisalabad, corte do Paquistão, em 24 de outubro, momentos depois que seu pedido de liberdade sob fiança foi negado.
 
Kashif e outro homem são acusados de estuprar Ribqa Masih, jovem católica de 22 anos, e ameaçá-la de morte juntamente com sua família caso ela não se convertesse ao islamismo.
 
Kashif havia pedido que a sessão fosse suspensa, pois seu advogado não estava presente. O juiz Muhammed Ejaz Sial considerou a ausência do advogado como uma "desculpa fraca".
 
O juiz disse que, devido às alegações de estupro, o suspeito não poderia receber o "benefício extraordinário de fiança pré-custódia".
 
A decisão de negar a liberdade sob fiança foi tomada depois que o investigador de polícia Muhammed Aslam disse ao juiz durante a sessão que "o superintendente da polícia Rana Tauqeer Hayat que conduziu a investigação considerou os acusados culpados".
 
Mas uma testemunha afirmou ao Compass que seis policiais do distrito policial de Faisalabad, incluindo Aslam, não fizeram nada para impedir que o suspeito escapasse da corte depois de ter seu pedido de fiança negado.
 
Kashif, juntamente ao já preso Ghulam Abbas Hussain, é acusado de raptar e estuprar Ribqa Masih em setembro passado. A mãe e a irmã de Hussain, Musarat e Humaira, são também acusadas de auxiliar no crime.
 
De acordo com Ribqa Masih, em 2 de setembro, Musarat Hussain a convenceu de acompanhar Humaira Hussain na viagem de 16 quilômetros de sua vila, Chaak 86, até Faisalabad. A mãe e a irmã haviam secretamente arranjado para que Ghulam Hussain e Kashif se encontrasse com a jovem em um ponto de ônibus na cidade.
 
Ribqa disse que Kashif e Ghulam Hussain a drogaram e a levaram a uma casa a 96 quilômetros da cidade de Lahore. Ela contou que eles a estupraram durante toda a noite e ameaçaram matá-la e à sua família se ela não se convertesse ao islamismo.
 
No dia seguinte, os seqüestradores a entregaram a outro homem que a estuprou durante os três dias seguintes, antes de deixá-la em Faisalabad, sangrando e incapaz de andar.
 
Aparentemente a polícia está cooperando com os agressores de Ribqa Masih. Kashif e as duas Hussain ainda estão em liberdade depois de dois meses de investigação.
 
Poder do suborno

Quatro semanas após o retorno de Rbiqa, seu advogado, Khalil Tahir, registrou uma queixa oficial contra o distrito policial Dijkot, acusando os policiais de cumplicidade ao evitar as prisões.
 
O documento datado de 5 de outubro pedia que as investigações fossem transferidas para outro distrito "na premissa de que a polícia (estava) em conluio com a parte adversária".
 
Apesar do juiz Sial ter negado os pedidos de fiança pré-custódia de Humaira e Musarat Hussain há mais de duas semanas e ordenado sua prisão, os policiais do Dijkot falharam em prender as mulheres.
 
Para evitar a prisão, mãe e filha deixaram a vila de Chak 86, onde seus familiares são poderosos proprietários de terras.
 
O advogado Tahir não acredita que a mudança das mulheres tenha frustrado a polícia.
 
"Elas não estão na mesma vila, mas você sabe que a polícia pode prendê-las se quiser", disse Tahir ao Compass. "Mas a polícia não prendeu as acusadas porque está recebendo dinheiro ilegal para protegê-las".
 
O sistema policial é muito corrupto, disse Tahir. "As manobras policiais são a única maneira de explicar a fuga de Kashif da corte cheia de policiais."
 
Ribqa Masih e sua família pagaram um alto preço em sua busca pela justiça contra os acusados ricos. Além da corrupção policial, a família de Ribqa também enfrenta intensa pressão social de vizinhos zangados.
 
"Toda a família de Ribqa está sob ameaça da maioria das pessoas (islâmicas) desta região", disse o reverendo de Ribqa, padre Paschal Paulus. "Quando viaja em ônibus da vila, ela escuta os insultos."
 
Zombaria e ameaças dos colegas de classe forçaram as duas irmãs mais novas de Ribqa a mudarem para uma escola em outra vila. Suas outras quatro irmãs não foram às aulas desde que seus colegas de classe começaram a chamá-las de prostitutas.
 
Além da pressão, Ribqa e seu advogado têm recebido ligações ameaçadoras de Kashif desde sua fuga.
 
Mas alguns poucos vizinhos que as estão auxiliando assinaram as declarações, testemunhando que os moradores islâmicos da vila têm ameaçado agir com violência para com a família, caso eles não desistam do caso.
 
Em uma sociedade onde mulheres violentadas às vezes são mortas pela sua própria família em nome da "honra", Ribqa está ciente de que suas chances de casamento são pequenas. "Se esse tipo de incidente acontece com qualquer garota no Paquistão, geralmente ninguém se dispõe a desposá-la", disse Tahir, que assumiu o caso de Ribqa Masih sem cobrar nada.
 
De acordo com o padre Paulus, Ribqa Masih ainda tem momentos de choro incontrolável, geralmente desencadeados nas sessões e interrogatórios policiais em que ela entra em contato com Kashif e com a família de Hussain.
 
Perfil de coragem

Mesmo com a corrupção da polícia e as ameaças de violência dos vizinhos, a família de Ribqa fez uma campanha agressiva para que o caso fosse a julgamento.
 
Com o intuito de pressionar a polícia a acatar as ordens da corte e prender os agressores de Ribqa, o advogado Tahir reuniu policiais e religiosos para abordar o assunto com ênfase na lei.
 
Em 13 de outubro, o padre Paulus e outros dois religiosos se reuniram com Tahir e Ribqa para discutir a situação com o investigador Hayat. Dois dias depois, os policiais locais Joel Amir e Patrick Jacob se encontraram com o superintendente da polícia para fazer o mesmo.
 
Alegando que o caso estava criando "medo e insegurança" nas vidas da família cristã, Tahir também solicitou que o caso fosse transferido para a corte Anti-atos Terroristas (ATA).
 
"Justiça demorada é justiça negada", disse Tahir ao Compass. Ele disse que os atrasos seriam erradicados se o caso fosse transferido para a corte ATA, onde duraria no máximo 15 dias.
 
"Nós iremos onde pudermos", o advogado prometeu, afirmando que ele e a família de Ribqa iriam buscar justiça mesmo que fossem necessários protestos "em frente da casa do governador ou do primeiro ministro em Islamabad".
 
"Eu estou pronta para qualquer disputa em busca de justiça", disse Ribqa ao Compass, com a ajuda de um tradutor. "Eu quero que as pessoas sejam punidas para que, no futuro, ninguém tenha coragem de destruir a vida de uma pobre mulher."
 
No final de outubro, aparentemente a polícia começou a cooperar depois que o investigador Hayat denominou um novo oficial, Aslam, para prender Musarat e Humaira Hussain.
 
Mas essas esperanças diminuíram quando Aslam falhou em deter a rápida fuga de Kashif da corte, e Musarat e Humaira Hussain continuam soltas.


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