O preço da fé

| 21/11/2005 - 00:00


Com seu simples crucifixo de madeira, fileiras de Bíblias e assentos em cor pastel, ela parece uma igreja normal. Até os cânticos começarem é isso que ela é.

Em uma pequena banda atrás do altar, os violões são superados em número pelo saz - um alaúde turco.

"Vamos louvar ao Senhor com nossas vozes", a congregação canta. "Vamos louvar ao Senhor com nosso saz".

Olhando assim, os 40 adoradores - convertidos muçulmanos em sua maioria - na Igreja Evangélica de Diyarbakir parecem ter razões de sobra para celebrar. Depois de três anos de obstrução oficial, o velho edifício de pedras negras, renovado no centro de Diyarbakir, foi reconhecido formalmente como uma igreja há um ano. Desta forma, ela se tornou a primeira nova igreja protestante no sudeste da Turquia, desde a fundação da república turca 82 anos atrás.

"A decisão surpreendeu a todos", disse Jerry Maddix, um missionário que está na igreja desde 2002. "Mas eu acho que o governo turco só nos abriu as portas por causa de seus próprios interesses".

Seu ceticismo é compartilhado de forma geral dentro da minúscula comunidade de protestantes turcos, com uma estimativa de 3.500 pessoas. É fácil enxergar o porquê.

Como parte de seus esforços para abrir as negociações com a União Européia mês passado, a Turquia aprovou uma série de leis ampliando os direitos civis, como a liberdade religiosa.
Conforme o novo código criminal do país majoritariamente muçulmano, agora é ilegal impedir os missionários de trabalhar.

"Ninguém pode afirmar que as cerimônias religiosas estejam obstruídas na Turquia", gabou-se o primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan.

Mas a realidade para os turcos convertidos ao cristianismo ainda é mais ambígua, e muitos de seus problemas têm origem no exaltado secularismo que define a Turquia moderna.
Sejam muçulmanas ou cristãs, as fundações religiosas são vigiadas de perto. Apesar da congregação de Diyarbakir ter seu templo, ela ainda não é reconhecida legalmente como uma congregação.

A maioria de outras 50 congregações protestantes na Turquia está em estado pior, possuindo apenas um reconhecimento legal mais tênue.

"O que é preocupante a nosso respeito é que não podemos ser tidos como um precedente", Jerry disse. "Somos uma exceção, mas ainda não há regras claras que outras congregações possam seguir".

Para compreender o outro problema relacionado às congregações cristãs é necessário olhar pela janela de uma igreja, que tem sido protegida desde o ano passado, quando um deficiente mental sacou uma faca e tentou atear fogo à sala de reuniões.

Outras congregações turcas sofreram coisas piores. Em Ancara, no mês de abril, bombas de gasolina foram atiradas contra a Igreja Protestante Internacional, causando um prejuízo de 10.000 dólares.

Há muito tempo os missionários são tratados com desconfiança na Turquia, onde teorias de conspiração extremas os ligam a tentativas internacionais de dividir o país.

A desconfiança latente evoluiu a algo próximo da paranóia na primeira metade deste ano, quando notícias vazaram e alguns membros do governo da Turquia despertaram temores.

No dia 11 de junho, o diário "Cumhuriyet" citou fontes da inteligência, dizendo que os evangelistas estavam promovendo divisões étnicas, concentrando seus esforços nos curdos da Turquia.

Rahsan Ecevit, a esposa secularista de um ex-primeiro ministro, acusou, em janeiro, os missionários de pagarem os turcos para se converterem ao cristianismo.

"Não podemos ignorar essa atividade", ela dizia. "Ao mesmo tempo em que entramos na União Européia, estamos perdendo nossa religião".

Timur Topuz, que freqüenta uma igreja em Altintepe, acha que esse preconceito vem da noção geral de que ser turco é igual a ser muçulmano.

"As pessoas ainda não perceberam que nação e religião são coisas diferentes", completou Tinur.

Texto enviado por Daila Fanny.


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