Sacerdote católico é morto a tiros por um adolescente

| 09/02/2006 - 00:00


Um assaltante de 16 anos de idade baleou e matou um sacerdote católico italiano na cidade turca de Trabzon, em 5 de fevereiro. O rapaz gritava a "fatha" (frase-abertura da chamada muçulmana para oração) enquanto deixava o local do crime.
 
O padre Andrea Santoro, 60, recebeu dois tiros nas costas no momento em que estava ajoelhado em oração no primeiro banco da Igreja Católica Santa Maria, depois da missa de domingo. O promotor público informou que as duas balas perfuraram o coração e o fígado do padre, matando-o quase instantaneamente.
 
A polícia turca iniciou uma grande busca para capturar o suspeito, encontrado na manhã do dia 7, escondido na casa de um parente, nas proximidades do centro da cidade. De acordo com a CNN turca, testes de balística confirmaram que uma pistola 9 mm, recolhida no momento da detenção, foi a arma utilizada no crime.
 
As autoridades dizem que o rapaz, identificado apenas pelas iniciais O.A., ainda está sendo interrogado pela polícia. A CNN turca diz que o interrogatório acontece na presença dos pais do rapaz e de dois irmãos. Outros cinco adolescentes foram detidos na tarde do mesmo dia, com base no depoimento inicial do jovem.
 
Segundo uma reportagem exibida pela emissora de televisão NTV, "durante o primeiro interrogatório o jovem confessou ter cometido o assassinato como uma reação contra as caricaturas do profeta Maomé".
 
A ligação entre os motivos do assassinato e a publicação das charges dinamarquesas (que retratam Maomé como um terrorista) continuou a ser alvo de especulações nos dias que se seguiram ao crime. Milhares de turcos participaram de protestos públicos no fim de semana passado em muitas cidades turcas.
 
Luigi Padovese, o vigário apostólico da Anatólia, disse ao "AsiaNews", no dia seguinte ao assassinato, que "o fato de o padre ser morto nesse momento não parece coincidência para mim. A situaçãoestá quente, para não dizer fervendo. E os islâmicos fanáticos podem ser encontrados aqui também".
 
Horas depois do assassinato, o núncio papal Antonio Lucibello confirmou à imprensa que o assassino havia gritado "Allahu akbar" (Alá é o maior) enquanto corria para fora da igreja. Apesar de a frase ser uma aclamação árabe de oração, ela também é usada como um grito de guerra dos militantes muçulmanos.
 
Entre as testemunhas do assassinato estão um sobrinho do padre, que morava com ele, e um jovem empregado da igreja, que estava em pé perto da vítima. O restante da congregação já havia saído do santuário.
 
O prefeito de Trabzon, Huseyin Yavuzdemir, disse, em entrevista à agência de notícias Anatólia, que a polícia tinha conhecimento de antigas ameaças e reportagens para a mídia feitas contra a suposta tentativa do padre de converter muçulmanos. Mas o prefeito afirmou que não havia indicação de que a igreja estava envolvida em trabalhos missionários, e que o padre não havia pedido proteção da polícia.
 
A sociedade e o governo turcos continuam a suspeitar de missionários cristãos, acusando-os de motivos políticos que ameaçam a cultura e a identidade da nação muçulmana. Menos de 1% dos cidadãos da Turquia não são muçulmanos.
 
Outra tese importante levantada pela imprensa turca aponta a máfia local, que controla o tráfico humano no Mar Negro, como possível mandante do assassinato. O padre Andrea havia se esforçado para resgatar mulheres da Rússia e de outros países envolvidas nas zonas de prostituição de Trabzon.
 
Alguns jornais chegaram até a sugerir que o jovem assassino seria um fã de Mehmet Ali Agca, um criminoso desequilibrado que tentou matar o papa João Paulo II em 1981.
 
Mas seja qual for o motivo, as autoridades do governo turco logo condenaram o assassinato.
 
O ministro do exterior Abdullah Gul, em entrevista à imprensa, disse acreditar que esse seja um ato individual. "Desconhecemos as razões por trás desse ato", declarou o ministro.
 
O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan ficou horrorizado com o crime. Ele sugeriu que o incidente talvez tenha ligação com as controversas charges. "Ficamos extremamente entristecidos com isso, especialmente depois do que ocorreu na Dinamarca", lamentou.
 
Ele diz que não se pode procurar a solução para o caso usando uma arma. Para ele, "esse é o desejo e o objetivo daqueles que querem uma guerra entre as civilizações".
 
Os ritos fúnebres pelo padre falecido foram realizados na tarde do dia 6, em Trabzon. No dia 7, um avião militar turco levou o corpo de Andrea Santoro para a Itália, onde aconteceria o funeral, marcado para o dia 8, na principal basílica de Roma, a São João de Latrão.
 
Localizada no distrito de Gazipasa, em Trabzon, a Igreja Santa Maria foi construída na segunda metade do século XIX pela ordem do sultão otomano Abdulmecid, para servir os cristãos estrangeiros que visitavam a cidade. A pequena congregação da igreja é composta de 15 pessoas.
 
A morte do padre ocupou as primeiras páginas da imprensa italiana por dois dias. "Um padre foi morto na Turquia em nome de Alá", o jornal "Il Gioranle" estampou em sua manchete. "A situação das minorias religiosas na Turquia é grave."
 
De Ancara, o pastor protestante Ihsan Ozbek declarou ao "Hurriyet" (um jornal de grande circulação) que o assassinato do padre Andrea foi "um acontecimento preocupante" para os cristãos na Turquia.
 
Citado como sendo presidente da Aliança de Igrejas Protestantes, o pastor confirmou que membros da pequena comunidade protestante de Trabzon foram ameaçados há pouco tempo. Sem citar nomes, ele disse que diversos cristãos protestantes foram atacados, mesmo nas ruas, a ponto de alguns deles deixarem a cidade.
 
Ele acrescentou que os cristãos não têm condições de se proteger. "Quero que o estado tome medidas de proteção", reivindicou o pastor Ozbek.
 
O padre Andrea, membro dos Filhos da Divina Providência, uma ordem católica religiosa fundada na Itália, veio viver e trabalhar na Turquia em 2000. Depois de passar três anos em Mardin, ele estava há dois anos e meio em Trabzon, uma cidade portuária ao longo da costa do Mar Negro.
 
O padre havia chegado à cidade dois dias antes de ser morto, depois de passar um mês na Itália.


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