Polícia nega ter atacado templo no Ano Novo

Portas Abertas • 12 jan 2007


A polícia sudanesa negou ter atacado 800 cristãos em um culto de fim de ano na catedral anglicana de Cartum. Segundo os líderes da catedral, o ataque feriu seis membros da congregação.

Canon Sylvester Thomas, da catedral Todos os Santos, disse à agência de notícias Compass que os policiais atiraram granadas de gás lacrimogêneo na igreja. Eles afirmaram que tentavam prender um homem envolvido em um esfaqueamento.

Canon disse que os funcionários da igreja registraram uma queixa na delegacia em 2 de janeiro, mas os policiais não determinaram quem fez o ataque que causou um prejuízo de sete mil dólares.

"A polícia tentava afirmar: Esse grupoestavam de uniforme e usavam armas e carros de polícia."

A agência de notícias Compass entrou em contato com um representante da polícia em Cartum, mas ele se recusou a comentar o ataque.

No dia 9 deste mês, na cidade de Juba, o vice-presidente sudanês Salva Kiir, um cristão do sul, pediu publicamente para que os agressores fossem punidos.

O comentário de Salva foi televisionado, e fazia parte de um discurso comemorativo. Ele e o presidente do norte, Omar Al-Bashir, se reuniram para celebrar o segundo aniversário do tratado de paz que acabou com a guerra civil de 21 anos, travada entre os muçulmanos do norte e os cristãos, muçulmanos e animistas do sul.

Durante a cerimônia, transmitida ao vivo pela TV Sudão, Salva e Bashir criticaram-se abertamente por bloquear a implementação do acordo de paz e a repartição de receitas produzidas pelo petróleo.

Agredidos com chicotes

Nenhum governante do norte, onde o regime muçulmano retém o poder, comentou publicamente o ataque à igreja.

O governador de Cartum ainda deve responder a uma carta de protesto enviada pelo bispo da Igreja Episcopal do Sudão, Ezequiel Kondo, que estava no grupo atacado em 1º de janeiro.

Em sua carta, o bispo Ezequiel notou que membros da catedral se sentiram ameaçados por carros de polícia estacionados fora do templo no dia anterior ao ataque. "A maioria dos policiais ocupava altos cargos", lia-se na carta.
 
A polícia atirou dez granadas de gás lacrimogêneo dentro e em torno da catedral 20 minutos depois do culto começar à meia-noite, Canon contou ao Compass. A congregação entrou em pânico e começou a fugir pela porta principal da igreja, onde estavam policiais que a agredia com chicotes e varas.

Na confusão, um rapaz de 19 anos foi seriamente ferido na perna e no estômago, quando a cadeira onde estava sentado pegou fogo. O sistema de som, os bancos, as cadeiras e janelas do templo foram danificados.

Estavam presentes no culto funcionários da ONU e funcionários do governo, incluindo o secretário do vice-presidente Salva e o ex-vice-presidente Abel Alier.

Canon ainda contou: "A segunda granada de gás lacrimogêneo caiu bem em frente de Abel e ele quase ficou asfixiado. Sua esposa teve de carregá-lo para perto da pia e jogar um pouco de água nele. Foi assim que ele sobreviveu".

Canon ajudou os membros da congregação a escapar através de seu escritório até sua casa (adjacente à igreja). Quando a polícia continuou a disparar contra sua casa, o bispo, ainda em sua indumentária, correu por meio da fumaça em direção a eles, para parar o assalto.

Um policial disse a Canon que eles não estavam atirando contra a igreja, mas tentavam prender homens que brigaram na rua e acabaram se ferindo com faca. A polícia afirmou que ela havia aberto fogo contra o grupo depois que os homens começaram a atirar pedras para fugir da prisão.

Os funcionários da igreja investigaram a afirmação da polícia de que o homem esfaqueado se chamava Estevão Chol, de Hag-Yousif, no norte de Cartum. Mas, o número telefônico fornecido pela polícia estava errado, e nenhum hospital na área tinha registros de um paciente esfaqueado.

Direitos das minorias

O Acordo de Paz Compreensivo (CPA, sigla em inglês), assinado em janeiro de 2005 para acabar com a guerra civil no Sudão, provê direitos às minorias não-muçulmanas que vivem sob a lei islâmica no norte do país.

Uma comissão da CPA pelos direitos dos não-muçulmanos estava para ser estabelecida pelo número significativo de cristãos e outros grupos religiosos que vivem em Cartum.

Em dois anos, houve pouco progresso real na criação da comissão. Os cristãos que vivem na capital Cartum continuam a dizer que são discriminados e oprimidos.

Em maio de 2006, o pastor Elia Komondan da Catedral Todos os Santos foi preso por uma semana por causa do desaparecimento de uma muçulmana que se converteu ao cristianismo (leia essa história aqui). Esse incidente salientou as restrições colocadas à evangelização dos muçulmanos e à falta de liberdade que os cidadãos ex-muçulmanos têm para escolher sua própria religião.

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