Lições de um pastor refém na Colômbia

| 31/12/2003 - 00:00


Arroz é a rotina de todos os dias servido na maior parte das refeições colombianas, mas num almoço em um café na calçada, Juan Carlos Villegas (foto) não comeu uma bocado sequer do montículo branco que estava em seu prato enquanto ele contava sua história.

Villegas, 28, saía de um retiro da igreja na tarde de domingo em sua picape no dia 28 de abril de 2002. Na qualidade de pastor assistente da Igreja Família Cristã do subúrbio pobre de Bello, em Medellín, ele acabara de ajudar no batismo de cinqüenta pessoas num riacho existente na fazenda de um membro da igreja em Barbosa, cerca de 38 quilômetros distante de Bello.

A uma distância de poucos metros na estrada, os guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional (ELN) tomaram Villegas como refém e exigiram de sua igreja o pagamento de 25.000 dólares pelo seu retorno seguro. Ele juntou-se ao grupo de dezenas de clérigos cristãos que os rebeldes mantinham presos em troca de resgate ou por razões políticas na guerra civil de quatro décadas da Colômbia.

Durante seus doze dias de cativeiro, Villegas caminhou sobre montanhas oito horas por dia com os guerrilheiros, sempre encharcado por chuvas torrenciais, com a mesma roupa usada no batismo. Ele suportou um frio congelante. Ele nunca sabia para onde estavam indo ou quando seu sofrimento acabaria.

E ele comia somente o que os guerrilheiros tinham: Arroz, arroz e arroz, disse Villegas.

A Colômbia é a capital mundial do seqüestro, com mais de três mil em 2001. Mais de seiscentos foram praticados no Estado de Antioquia e em sua capital, Medellín. O dinheiro proveniente dos seqüestros praticados pelos rebeldes é usado na luta contra o governo e os ajuda a obter ganho político. Poucos reféns têm sido soltos através de negociações sem o pagamento de resgate. Muitos mais são libertados depois de pagarem resgate. Outros são mortos ou morrem no cativeiro.

Mais de um ano depois que Villegas foi libertado, ele ainda está reconstruindo a vida. O sofrimento deixou cicatrizes.

Nos doze dias que o ELN o manteve cativo, os rebeldes disseram a Villegas que, se por acaso encontrassem com soldados do exército ou paramilitares, o primeiro a morrer seria ele. As metralhadoras dos rebeldes estavam sempre apontadas para ele, enfatizando a disposição deles de cumprir a promessa. Depois que membros da igreja o pegaram à beira de uma estrada onde os guerrilheiros combinaram deixá-lo, ele soluçou durante todas as quatro horas de viagem de volta para Bello.

Mais desanimador para Villegas foi saber através da força especial de investigação de seqüestro, a Gaula, que o seu seqüestro não fora por acaso. Os guerrilheiros se infiltraram na igreja e sabiam que ele estaria no batismo. Eles estavam esperando. Se não o tivessem seqüestrado na fazenda, o teriam pego em qualquer outro lugar.

Por quê?

O conceito geral de um pastor cristão é de alguém oportunista, disse Villegas. Algumas pessoas vêem que os pastores vivem bem - às expensas de outras pessoas. Porque alguns pastores de fato acumulam riquezas e mantêm uma aparência vistosa, todos ficam estigmatizados, disse ele. Aqui não é uma honra ser pastor.

A pedido de seus seqüestradores, Villegas leu para eles durante horas os Salmos e outros livros da Bíblia. Leu o livro todo de Marcos. Levou quatro de seus seqüestradores em oração a aceitarem a Cristo. Ele acredita que dois guerrilheiros fizeram uma sincera profissão de fé.

Muitos manifestaram o desejo de deixar a guerrilha, à qual eles se juntaram porque ela oferecia aos jovens rapazes e moças pobres um salário, uma causa, uma esperança e um futuro.

Pelo menos três mil combatentes dos grupos armados ilegais da Colômbia participaram do programa do governo de reinserção para devolvê-los à sociedade civil. Villegas tem curiosidade em saber sobre as sementes espirituais que plantou entre seus seqüestradores, e o que aconteceu àqueles que ele levou ao Senhor.

Durante as negociações, os guerrilheiros abaixaram a exigência de resgate pela metade, depois de checar o extrato bancário da igreja. O pastor titular da igreja Família Cristã, Andrés Puerta, falou a um rebelde que fez as exigências por telefone: Vocês podem matá-lo ou tocar nele porque ele é um servo de Deus.

O ELN havia concordado antes em não seqüestrar pastores. O comandante rebelde finalmente libertou Villegas em troca de uma Bíblia, disse Villegas.
Ele assinalou o primeiro aniversário do seu seqüestro em silêncio com uma refeição especial na casa dos pais. O aniversário de sua libertação caiu em um domingo e ele pregou sobre o seqüestro, dizendo que o propósito de Deus foi cumprido.

Villegas sabe que o que aconteceu a ele poderia ter acontecido a qualquer pastor na Colômbia. Ele calcula que devido ao fato de 10% dos colombianos serem evangélicos, então cerca de 300 dos mais de 3 mil reféns na Colômbia também são evangélicos. Ele procura despertar a consciência sobre medidas de segurança que todos devem tomar.

Na Igreja Família Cristã, por exemplo, todos os diáconos têm aulas de segurança e estão vigilantes quanto aos que congregam no auditório de mil pessoas. A igreja não publica seus planos de eventos tanto quanto o fazia antes.

E a igreja não realizou um batismo desde o dia do seqüestro de Villegas,

Nos meses seguintes ao seu seqüestro, Villegas viveu com medo de que estivesse sendo perseguido. Esses temores diminuíram. Ele valoriza mais a vida e aproveita sua experiência para aconselhar as famílias dos reféns. O embaixador de Israel na Colômbia o chamou para aconselhar no seqüestro feito pela ELN em setembro de quatro turistas israelenses.

Villegas diz com convicção que não pode suportar outro seqüestro. Logo depois que foi levado, ele contraiu leichmaniose - lepra da montanha - uma doença provocada pelo consumo de carne que é fatal sem antibióticos. Para Villegas, mais mortal foi o total desespero e a miséria de ver-se cativo.

Se isso me acontecer novamente, me libertem ou me matem imediatamente, porque não posso passar por esse sofrimento de novo, disse ele.

Villegas está procurando usar sua experiência como ex-refém para levar a paz à sua terra natal através do evangelho. Ele vê que Deus tem Seu propósito em tudo o que lhe aconteceu. Se não tivéssemos o Senhor, o que faríamos?


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