Igreja Maná é fechada em Angola

A Igreja Maná teve sua atividade proibida em Angola por violar a lei e a ordem pública, segundo um decreto-lei publicado no "Diário da República", órgão oficial do governo. Com cerca de 600 mil fiéis em Angola e mais de 500 casas e templos em nove províncias, a Igreja Maná tem origem em Portugal. A entidade foi criada em 1984, em Lisboa, pelo apóstolo Jorge Tadeu.

"É revogado o reconhecimento da Igreja Manã Cristã, feito através do decreto Lei 14/92 no DR nº15, 1ª série, devendo cessar todas as suas atividades, em todo o território nacional", lê-se no documento.

O "Diário da República" justifica a decisão de revogação do reconhecimento oficial da Igreja Maná com a conclusão de um processo instaurado pelo Ministério da Justiça em que foram detectadas "violações sistemáticas" da lei angolana e da ordem pública.

Uma das polêmicas em que a Igreja Maná se envolveu aconteceu em maio de 2007, quando o bispo José Luís Gambôa foi suspenso por supostos desvios de fundos que teriam sido doados pela petrolífera Sonangol, com o objetivo de construir uma escola.

Apesar disso, o bispo Joaquim Muanda, que substituiu Gambôa na liderança da Maná em Angola, disse publicamente que não havia provas de que esse dinheiro fosse fruto de uma doação da Sonangol, onde o seu antecessor trabalhava.

O bispo confirmou que a soma fora, efetivamente, transferida da conta da Igreja para sua conta pessoal, alegando que o fizera para evitar que o dinheiro fosse enviado para Portugal. "A soma foi arrecadada aqui em Angola, e aqui deve ser gasta", argumentou.

Jorge Tadeu se pronuncia

O dirigente máximo da Igreja Maná, Jorge Tadeu, atribuiu a um ex-representante a responsabilidade pela decisão anunciada pelo governo angolano.

"Perante as alegações desta decisão, só me ocorre pensar que serão provenientes do tempo de administração de um antigo mau obreiro que cometeu várias irregularidades, dando origem à abertura de um inquérito interno e sua conseqüente expulsão", diz um comunicado da presidência da Igreja Maná enviado à "Agência Lusa".

"Fui apanhado de surpresa e até me custou a acreditar, porque não tinha conhecimento de que em algum dia tivéssemos sido chamados ou acusados por qualquer motivo", afirma Jorge Tadeu, que assina o documento.

Reconhecendo a sua qualidade de dirigente máximo da Igreja Maná Internacional, Tadeu esclarece que em cada país em que a igreja está implantada existe uma "liderança nacional".

"Embora eu seja o presidente da Maná Internacional e para todos os efeitos tenha de assumir as responsabilidades, a verdade é que em cada país é instituída liderança nacional, de preferência com pessoas nacionais, a quem é dada autonomia total, em termos administrativos, legais e financeiros", explica.

Responsabilidade e perdão

Inicialmente Jorge Tadeu não credita o caso à perseguição religiosa, mas ficará atento aos próximos acontecimentos.

Ele afirma que já deu instruções para que os dirigentes da Igreja Maná em Angola "ajam com serenidade", cumprindo "assim os mandamentos de Jesus", peçam ajuda "aos respectivos órgãos do governo para saber a origem desta situação" e sejam averiguadas as "responsabilidades".

"Termino este comunicado dizendo que se por qualquer motivo a falha for minha ou de alguém da atual liderança, seguiremos o mandamento de Deus que é o de admitir os erros e pedir perdão", conclui Jorge Tadeu.

Entretanto, alguns fiéis da Igreja fundada por Jorge Tadeu contactados pela "Agência Lusa" em Luanda confirmaram que todos os cultos que estavam previstos para a sexta-feira passada, dia de publicação do decreto-lei, foram anulados e os templos fechados.

Comunidade não entende decreto

Rebeca Loureiro, contatada pela "Agência Lusa" no templo Maná, no bairro Operário, em Luanda, explicou que até agora desconhece as razões para o fechamento das portas da igreja que freqüentou durante muitos anos. "Fecharam-nos a porta da igreja, mas não nos podem fechar os corações", disse.

Também Francisca Carvalho, freqüentadora dos templos da Igreja Maná desde 1998, considerou a decisão do Ministério da Justiça "injusta e triste", esperando que seja explicado o motivo para que as pessoas tenham sido afastadas à força da sua Igreja.

A Igreja Maná está implantada em Angola nas províncias de Benguela, Huila, Huambo, Namibe, Moxico, Malange, Lunda-Sul, Cabinda, Bengo, Cunene e Luanda. No mundo, a Igreja está presente em 20 países - inclusive o Brasil - além de uma dezena de nações africanas, e tem como objetivo levar a palavra de Cristo a todos os povos de língua portuguesa.

(Texto acrescido de informações da Rádio Vaticano, Diario Digital e Agência Angola Press)