Jordânia deporta e nega visto a cristãos estrangeiros

| 11/02/2008 - 00:00


A Jordânia aumentou a pressão sobre os cristãos estrangeiros que vivem no país e expulsou vários que já moravam ali há décadas no último ano em uma operação que a Igreja vê como um ataque contra a sua legitimidade.

As autoridades deportaram e recusaram vistos de residência para pelo menos 27 famílias cristãs em 2007, vários deles trabalhavam nas igrejas ou estudavam em um seminário teológico cristão. O fato foi confirmado pelo Compass.

Em todos os casos, exceto em um, os oficiais se recusaram a dar explicações de sua decisão por escrito. Mas muitos dos cristãos expulsos falaram ao Compass que foram interrogados por agentes da inteligência a respeito de trabalho de evangelização com muçulmanos.

“Eles disseram que eu era uma ameaça à segurança do país e que trazia instabilidade à sociedade”, disse Hannu Lahtinen, pastor finlandês deportado no mês passado ( leia mais). “Eles têm mil maneiras de dizer que você está pregando o Evangelho”.

Apesar de não ser ilegal, o “proselitismo declarado” cristão em relação a muçulmanos é contra a política do governo, de acordo com o relatório anual do Departamento de Estado norte-americano sobre a liberdade religiosa na Jordânia.

Justificativa

Um porta-voz da Jordânia falou ao Compass que o governo só deportou os estrangeiros que transgrediram a lei ou que mentiram em seu pedido de residência.

“Houve incidentes onde pessoas violaram termos legais em relação à suas residências no país ou ofenderam profundamente a religião, o sentimento público, ou os dois”, disse o oficial, que pediu para que seu nome fosse mantido em sigilo.

De acordo com pastores de cinco das igrejas evangélicas oficiais da Jordânia, conhecidas pelo governo como “sociedades”, as autoridades sempre deram bastante liberdade às minorias.

Os cristãos, incluindo católicos, protestantes, ortodoxos, constituem 3% da população da Jordânia, mas compõem quase 10% das cadeiras do Parlamento. As igrejas católicas e ortodoxas possuem o seu próprio sistema de tribunal familiar.

As igrejas evangélicas, aproximadamente cinco mil, possuem menos direitos do que as igrejas históricas, mas são isentas de taxas e podem pedir visto de residência para pastores e missionários estrangeiros.

Em julho de 2006, o governo publicou a Declaração Internacional dos Direitos Civis e Políticos em seu jornal oficial, que garante a liberdade religiosa e a força da lei.

Por trás dessa aparência de tolerância, os líderes das igrejas dizem que se sentem ameaçados com a posição tomada pelo governo em relação aos estrangeiros. Pastores das denominações afetadas pelas deportações disseram que parecia que o governo estava desafiando a legitimidade das igrejas.

“Somos entidades legais, e vários desses estrangeiros receberam vistos de religiosos e trabalhavam legalmente em igrejas aqui na Jordânia”, disse o pastor nazareno Afeef Halasa. “Expulsarem-nos assim, sem dar nenhum motivo, o que dá a entender que nossa igreja não é legítima”.

Cristãos dos Estados Unidos, Europa, Coréia do Sul, Egito, Sudão e Iraque estavam entre os deportados ou os que tiveram seus vistos negados em 2007.


Seminaristas Deportados

Um cidadão americano que foi algemado e mantido em custódia pela polícia durante dois dias antes de ser deportado em agosto disse ter sido forçado a assinar papéis sem que lhe fosse permitido ler o que estava escrito neles. Ele conta que só quando arrancou o papel das mãos de um oficial e o levou para dentro de sua cela teve alguns momentos para ler que era uma “ameaça à segurança nacional”.

Pelo menos dez dos deportados em agosto e setembro de 2007 eram alunos árabes (não-jordanianos) do Seminário Evangélico Teológico da Jordânia (JETS, sigla em inglês). A Jordânia também negou visto de residência a todos os pedidos de alunos do JETS para o ano letivo de 2007 - 2008.

Em outubro, um grupo de ativistas de direitos humanos dedicados a localizar fatos organizados pela Solidariedade Internacional Cristã e a Coalizão pela Liberdade Religiosa levantou a questão da deportação dos JETS com o ministro do interior, Eid al-Fayez. O ministro negou qualquer perseguição em relação aos estudantes cristãos.

Em outra entrevista, representantes do Departamento de Inteligência Geral da Jordânia disseram ao grupo que nenhum aluno era deportado a não ser que fossem residentes ilegais.

Mas a Jordânia vem negando visto a alunos estrangeiros do JETS nos últimos anos.

Apesar de ser reconhecido por várias organizações internacionais, tentativas de obter credenciamento oficiais têm sido recusadas pelo Ministério de Educação Superior da Jordânia.

O JETS foi registrado no Ministério da Cultura em 19995, cinco anos depois de sua abertura, mas o governo continua a negar visto de residência a vários alunos e professores. Muitos se vêem obrigados a entrar no país com o visto de turista e ficar além do tempo permitido para terminar seus estudos.

Ao sair do país, os que excedem o tempo de permanência pagam uma multa equivalente a U$ 2,1 por cada dia excedido.

Americano deportado

A polícia da fronteira deportou outro cidadão americano no fim do mês de outubro quando ele voltava para a Jordânia. O cristão trabalhava em uma igreja local desde 1999 e pela primeira vez tinha tido seu visto de permanência anual rejeitado.

Sua permanência legal na Jordânia estava para terminar, então ele saiu do país com a intenção de retornar com um visto de um mês e que poderia ser renovado por mais três meses.

“A embaixada norte-americana pensou que eu tinha sido imprudente de ter deixado o país quando meu visto de residência tinha sido negado”, disse o cristão. “Outra alternativa teria sido ficar ali ilegalmente, mas eu não me sentia bem fazendo isso”.

A esposa do americano e seus quatro filhos foram forçados a deixar o país em dezembro, depois de serem avisados verbalmente pela inteligência da polícia que tinha duas semanas para deixar a Jordânia.

O cristão ainda não recebeu uma explicação formal por sua deportação. Porém, seus amigos se informaram com oficiais do alto escalão através de conhecidos e ouviram vários motivos.

“Disseram que foi por motivos evangelísticos, apesar de eu já ter sido acusado de pastorear uma igreja mórmon e de levar dinheiro para o Iraque”, disse o homem. “Não dá para se defender contra esse tipo de coisa porque cada um tem uma resposta diferente e nada chega a público”.

Visto de entrada

Um oficial jordaniano questionado sobre a deportação de cidadãos americanos não deu nenhuma resposta sobre esse incidente em particular.

O oficial disse que o governo nega vistos de tempos em tempos porque os estrangeiros estão envolvidos em atividades diversas daquelas declaradas no pedido.

“Vários estrangeiros pedem visto de residência por diferentes motivos, tais como, estudar árabe, turismo, investimento ou trabalho voluntário”, disse o oficial que pediu para que seu nome fosse mantido em sigilo, “mas uma vez que eles conseguem o visto de residência, começam a entrar em atividades ou trabalhos que não têm nenhuma relação com aquela que declararam no pedido”.

Vários pastores que foram expulsos estavam na Jordânia com visto de turista depois que o governo negou a eles o visto de residência para trabalhar nas igrejas locais. O porta-voz do governo não esclareceu por que os pedidos de visto dos pastores estrangeiros tinham sido negados.

Apesar de os cristãos estrangeiros terem sofrido o peso das restrições governamentais no ano passado, os pastores jordanianos temem que os nacionais sejam o próximo alvo se a pressão sobre os estrangeiros não for contida.

“Não estou preocupado apenas com a questão dos missionários, me preocupo com a erosão de nossos direitos como evangélicos”, disse um pastor que pediu para que seu nome permanecesse em sigilo. “Se eles saírem dessa situação ilesos, o que poderá acontecer depois?”


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