Volta do véu islâmico aumenta tensão na Turquia

O parlamento turco decidiu no sábado encerrar a proibição do uso do véu islâmico por alunas universitárias, um marco histórico que alguns turcos dizem que irá enfraquecer os alicerces do estado secular. Milhares de pessoas saíram às ruas de Ancara em protesto contra a autorização do uso do véu islâmico nas universidades da Turquia.

O véu islâmico foi proibido depois de um golpe militar em 1980 que instituiu a nação como um estado laico e adotou leis ocidentais. A proibição ao véu teve como objetivo coibir comportamentos radicais por parte dos muçulmanos.

"A Turquia é laica e continuará sendo laica", gritavam os manifestantes, que se reuniram no centro da cidade durante a votação no parlamento de uma emenda constitucional relativa ao uso do véu.

De um total de 550 deputados, 403 votaram a favor da emenda, que declara que "ninguém pode ser privado de seu direito à educação superior", em referência às jovens turcas que usam o véu islâmico e acabam não ingressando na universidade por causa da proibição.

Questão do véu é interpretada como a volta ao islamismo

Milhares de turcos vêem a mudança na lei como uma forma de aparecer um poder mais radical do islamismo na Turquia. Generais do Exército, juízes e autoridades das universidades também são a favor da proibição do uso do véu em lugares públicos.

A Turquia aspira se tornar o primeiro membro islâmico da União Européia e tem tentado por muito tempo se apresentar como uma ponte entre o oriente e o ocidente.

O primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, recebe apoios da Europa e dos Estados Unidos, onde alguns vêem a Turquia como um  país onde islamismo e democracia podem caminhar lado a lado.

O ministro das Relações Exteriores turco, Ali Babacan, defendeu o plano do governo de estimular o fim dos véus islâmicos nas universidades, descrevendo-o como uma reforma dirigida para expandir os direitos e liberdades e para estreitar a ida do país à União Européia.

O governo turco afirmou que a medida é apontada como forma de assegurar a liberdade nas universidades e que tem o propósito de sustentar princípios seculares sagrados da Constituição. No entanto, o país vem sofrendo uma intensa pressão por parte de radicais muçulmanos. Muitos cristãos estão sendo perseguidos e mortos (leia mais).

Há uma semana, cerca de 30 mil manifestantes, convocados por cerca de trinta associações -entre elas várias entidades feministas-, também se concentraram em Ancara, em frente ao mausoléu do fundador da República da Turquia, Mustafá Kemal Ataturk (1881-1938), para protestar contra o projeto.

Soldado, estadista, fundador e primeiro presidente da República da Turquia, Mustafa Kemal Atartuk realizou uma série de reformas que impuseram leis ocidentais na Turquia, trocando os escritos árabes pelo o alfabeto em latim. Ele foi responsável pela proibição da vestimenta islâmica e garantiu à mulher o direito ao voto.

(Texto acrescido de explicações e informações da Reuters e da Portas Abertas)