Médico cristão libertado descreve difícil experiência de seqüestro

Um médico cristão descreveu as várias ameaças de morte que sofreu enquanto foi seqüestrado recentemente por extremistas islâmicos numa área do Paquistão abalada por extrema violência.

Militantes em partes da Província da Fronteira Noroeste (NWFP, sigla em inglês) forçaram cristãos e muçulmanos moderados a usar vestimentas islâmicas, colocaram bombas em lojas de CD por causa da decadência observada, e no caso do Dr. Reginald Zahiruddin, tentaram forçar sua conversão ao islamismo.

Os extremistas liberaram o Dr. Zahiruddin no dia 2 de janeiro, depois de seqüestrá-lo 25 dias antes e exigir que ele renunciasse sua fé sob a mira de um revólver. Cinco homens armados pararam o médico cristão e seu motorista quando eles estavam indo para o sul da cidade de Bannu em 8 de dezembro.

O superintendente médico do Hospital Memorial Cristão Pennell em Bannu estava em uma visita de uma semana a cidade de Dera Ismail Khan, a 100 quilômetros ao sul (62 milhas), para tratar de 50 pacientes pobres.

Trabalho realizado há 25 anos

“Eu tenho trabalhado nesta área por 25 anos, e eu costumava pensar que porque todos me conheciam nada iria acontecer comigo”, disse o médico ao Compass, por telefone, de Bannu. Seu trabalho o levava freqüentemente a Waziristan, uma área próxima à fronteira afegã controlada por grupos pró-talibã.

Os raptores do cristão o vendaram e colocaram ele e seu motorista na parte traseira de uma van, dirigindo por três horas antes de transferi-los a um baú de um vagão para mais uma hora de viagem. Os seqüestradores seguravam granadas e ameaçaram explodir a van com uma jaqueta suicida se ele fizesse algum barulho.

Chegando ao seu destino, o Dr. Zahiruddin e seu motorista foram acorrentados e mantidos em uma sala escura e asfixiante.

“Nós recebemos finas cobertas que não protegiam do frio, e as correntes metálicas presas aos nossos tornozelos nunca deixavam nossos pés se aquecerem”, escreveu o médico. Lá os cristãos foram mantidos por 25 dias, soltos somente duas vezes ao dia por cinco minutos para se aliviarem e se lavarem.

Pressão para aceitar o islã

Durante a primeira semana de cativeiro, um clérigo muçulmano vinha quatro vezes por dia à sala para falar sobre islamismo e convidar o médico cristão a se converter. Ele tocava fitas religiosas que ensinavam sobre o Islã e convocavam para uma jihad (guerra santa) violenta.

“Ele me ameaçava dizendo ‘Nós temos uma prisão aqui e nós não podemos fazer nada por você se você não aceitar o Islã’”, disse Dr. Zahiruddin. “Era tudo verbal, nada físico”.

Em 15 de dezembro, o médico e seu motorista foram vendados e levados separadamente para outra sala.

“Eu conseguia ouvir os sussurros de muitos homens e o barulho de uma câmera de vídeo”, relatou o doutor. Seus raptores queriam que ele tirasse sua camisa e calça e vestisse o shalwar-kameez, vestimenta tradicional do Paquistão, mas ele se recusou.

Depois de remover a venda, Dr. Zahiruddin disse que ele estava de frente para um grupo de homens apontando armas Kalashnikov para ele, enquanto outro homem com uma longa adaga estava atrás dele. Os homens exigiram saber por que ele não se convertia ao islamismo e ameaçavam cortar sua garganta se ele não o fizesse.

Mais tarde, os homens disseram ao Dr. Zahiruddin que a principal razão para seu seqüestro era forçá-lo a se converter ao Islã.

“Eu foi corajoso o bastante para recusar, e eu ainda falei para eles que Deus tem a autoridade de tirar minha vida assim como Ele a tinha me dado”, declarou o médico.

O líder do grupo religioso finalmente ordenou que seus homens parassem de questionar o Dr. Zahiruddin depois que o cristão perguntou se o Alcorão encorajava não-muçulmanos a aceitarem a fé sob ameaças e força.

Os raptores finalmente revelaram sua segunda razão para o seqüestro do cristão, pedir um resgate de 20 milhões de rúpias (US9.000) para comprar armas.

O médico assegurou a seus seqüestradores que por ele trabalhar para uma organização de caridade, não era rico, e ninguém pagaria tanto dinheiro por ele. Os raptores do Dr. Zahiruddin finalmente mudaram o resgate para 1 milhão de rúpias (US.950) e ameaçaram matá-lo se o pedido fosse negado.

Libertação surpresa

Mas em 29 de dezembro, os raptores entraram desarmados na sala, se desculparam por mantê-lo preso contra sua vontade, e pediram que o Dr. Zahiruddin assinasse uma declaração dizendo que ele não havia sido torturado. Os militantes explicaram que o Majlis-e-Shoura, um conselho de 10 membros para os militantes islâmicos em Waziristan, tinha pedido sua libertação.

Quatro dias depois, os raptores vendaram o Dr. Zahiruddin e seu motorista e os levaram de volta a Bannu.

Depois da libertação, ele soube que amigos apelaram aos militantes nas áreas tribais por seu resgate, usando o longo trabalho humanitário do médico como razão para sua liberação. Dr. Zahiruddin disse que membros do Majlis-e-Shoura de Waziristan foram notificados sobre seu seqüestro em 10 de dezembro e descobriram sua localização em 25 de dezembro.

Sem querer criar uma situação tensa para o seqüestro que poderia resultar na morte dos dois cristãos, a liderança do conselho islâmico tentou algumas formas de negociação para a liberação dos dois homens.

“Eles tinham medo que as pessoas que nos seqüestraram pudessem nos machucar, ou talvez nos matar e nos enterrar lá”, declarou o Dr. Zahiruddin. “Eles usaram uma tática, suas próprias conexões tradicionais, para nos alcançar. Nós não sabemos quem fez isso”.

O Dr. Zahiruddin disse que seu tempo no cativeiro lhe deu chance de orar e ver a provisão de Deus de uma nova forma. Ele disse que ficou surpreso porque nem ele nem seu motorista ficaram doentes ou tiveram qualquer problema de pele apesar de terem ficado vestidos com a mesma roupa por 25 dias.

Sustento espiritual no cativeiro

O Dr. Zahiruddin declarou que seu seqüestro foi especialmente difícil para sua mulher e seus três filhos.

Com idades de 23, 22 e 15 anos, os filhos do médico colocaram apelos na Internet pelo bem-estar de seu pai enquanto ele estava desaparecido. Sua mulher, uma dentista, comandou o hospital de Bannu na ausência de seu marido enquanto trabalhava para levantar atenção para seu caso e orações por ele.

O doutor disse que uma vez enquanto estava acorrentado na sala escura, ele viu o que descreveu como uma visão de um círculo de luz contendo rostos não familiares. Ele disse que sentiu que Deus estava mostrando a ele todas as pessoas ao redor do mundo que estavam orando por sua segurança durante o cativeiro.

O Dr. Zahiruddin declarou que seu filho mais novo foi o que mais sofreu com seu seqüestro e agora se recusa a perder seu pai de vista, deixando seus estudos no sul do Paquistão para estar junto com seus pais em Bannu.

Ataques em 2008

Os cristãos da NWFP e das áreas tribais enfrentaram novos ataques em 2008. Em 17 de janeiro Sajid Williams, um trabalhador humanitário da organização Shelter Now International, foi baleado quando saía de seu trabalho em Peshawar.

No começo de janeiro, cinco cristãos foram seqüestrados e liberados três dias depois no sul de Waziristan, onde grupos pró-talibã mantêm o controle. De acordo com a Agência de Notícias da União Católica da Ásia, o grupo foi “torturado por engano por serem vendedores de álcool, mas depois foram liberados após os raptores terem descoberto que eles eram cristãos”.

Enquanto os paquistaneses conduzem os primeiros passos para a transferência de poder ao novo governo, uma proposta para estabelecer cortes islâmicas em NWFP permanece pendente com o presidente Pervez Musharraf.

O projeto de lei é visto como um convite para aclamar as lutas de insurgentes islâmicos para trazer a sharia (lei islâmica) para o lugar. Críticas contestaram o plano por parecer premiar os elementos pró-talibã por sua revolta armada, que começou na região do Swat em julho passado.