Argélia é o novo celeiro de terroristas da Al-Qaeda

| 12/07/2008 - 00:00


Ocultos nas cavernas e bosques que cercam a cidade de Naciria, em uma região montanhosa da Argélia, os insurgentes do país estavam perto da extinção há apenas alguns anos, mas essa situação mudou e agora o país é o novo celeiro de terroristas islâmicos ligados à Al-Qaeda.

A batalha nacionalista contra as forças armadas argelinas estava enfraquecendo. "Não dispúnhamos de armas suficientes", relembra um antigo líder das forças insurgentes, Mourad Khettab, 34 anos. "As pessoas não queriam aderir. E dinheiro - nunca tínhamos dinheiro."

Então, segundo reportagem publicada pelo jornal ”New York Times”, o líder do grupo, um matemático chamado Abdelmalek Droukdal, enviou uma mensagem secreta ao Iraque, no final de 2004. O destinatário era Abu Musab al-Zarqawi, o líder da Al-Qaeda na Mesopotâmia, e os dois homens, nos extremos opostos do mundo árabe, decidiram promover o que um observador define como "uma fusão corporativa".

Hoje, enquanto a violência dos militantes islâmicos se reduz em algumas partes do mundo, os militantes argelinos, que assumiram o nome de Al-Qaeda no Maghreb Islâmico, se transformaram em uma das mais potentes organizações afiliadas à rede terrorista de Osama bin Laden, revigorados pela chegada de novos recrutas e por um zelo renovado quanto a atacar alvos ocidentais.

Os combates a tiros contra as forças armadas argelinas se transformaram em atentados com caminhões-bomba contra locais de grande importância simbólica, como os escritórios da ONU em Argel. Eles seqüestraram e assassinaram turistas europeus, demonstrando a expansão de seu alcance pelo norte da África.

No mês passado, coroaram uma série de ataques com uma operação que evocava os horrores do Iraque: armaram um par de bombas do lado de fora de uma estação de trem a leste de Argel, a segunda delas programada para explodir durante o trabalho das equipes de resgate que estariam enfrentando as conseqüências da primeira. Um engenheiro francês e seu motorista foram mortos pela primeira bomba, e a segunda não detonou.

A transformação do grupo, de insurgência nacionalista em força ativa na jihad mundial, se inspira nas idéias de Bin Laden: a expansão do alcance da organização por meio da incorporação de militantes locais às fileiras da Al-Qaeda.

Aliança e troca de militantes

O grupo argelino oferece centenas de combatentes experientes à organização, bem como uma potencial conexão com militantes radicados na Europa. Ao longo dos últimos 20 meses, suspeitos de origem norte-africana foram detidos na Espanha, França, Suíça e Itália, se bem que suas conexões para com os argelinos nem sempre estejam claras.

A história interna do grupo, montada com base em dezenas de entrevistas com militantes, agentes de inteligência, diplomatas e funcionários de governos, demonstra que a decisão dos argelinos de aderir à Al-Qaeda foi causada tanto por forças práticas quanto pelas fissuras mundiais surgidas com o 11 de setembro de 2001.

Droukdal mencionou motivações religiosas para explicar a fusão entre sua organização e a Al-Qaeda. Alguns militantes disseram que a designação do grupo argelino como organização terrorista por Washington, depois do 11 de setembro, a despeito de alguns especialistas do governo norte-americano terem definido a organização como uma insurgência regional - levou os militantes a se voltarem contra os Estados Unidos.

"Se o governo dos Estados Unidos considera que sua guerra contra os muçulmanos é legítima, então o que nos levaria a acreditar que nossa guerra em seu território não é legítima?", declarou Droukdal em uma fita, em resposta a uma lista de perguntas apresentadas pelo “New York Times”, aparentemente o seu primeiro contato com um jornalista. "Todos devem saber que não hesitaremos em tomá-los (os americanos) por alvo sempre que pudermos, e onde quer que seja no planeta", ele afirmou.

Entrevistas com funcionários do governo norte-americano, de países europeus e de nações árabes, e com um antigo dirigente de escalão médio na Al-Qaeda no Maghreb Islâmico, indicam que fatores mais oportunistas influenciaram o crescimento do grupo.

Uma longa ofensiva do governo contra os insurgentes argelinos havia praticamente esmagado o grupo, disseram fontes governamentais. Eles precisavam do apoio da Al-Qaeda para levantar dinheiro e abandonar seu status como foras da lei junto aos círculos radicais muçulmanos, que se devia aos massacres de civis que promoveram nos anos 90.

A guerra no Iraque também estava atraindo muitos dos melhores combatentes do movimento, de acordo com Khetabb e com um militante que treinou argelinos no Iraque sob instruções de Zarqawi. Aderir à jihad mundial era visto como uma maneira de manter maior número desses combatentes sob o grupo argelino, e de recrutar novos membros.

Então, em março de 2004, uma operação militar clandestina dos Estados Unidos resultou na captura de um dos principais líderes do grupo. Meses mais tarde, Droukdal procurou Zarqawi para tentar obter a libertação do combatente. Zarqawi aproveitou a oportunidade para convencê-lo de que a Al-Qaeda tinha a capacidade de reanimar as operações de seu grupo, diz um antigo líder do grupo argelino.

Da mesma maneira que a liderança da Al-Qaeda conseguiu se reconfigurar nas áreas tribais do Paquistão, nas quais o governo não consegue exercer seu poder, a versão norte-africana da Al-Qaeda agora opera pequenos campos de treinamento para militantes vindos do Marrocos, Tunísia e até da distante Nigéria, de acordo com o Departamento de Estado e Droukdal.

Terrorismo mundial

Em abril, o Departamento de Estado norte-americano categorizou as áreas tribais paquistanesas e as bases da Al-Qaeda no Maghreb Islâmico como duas principais zonas de atividade, em seu relatório anual sobre o terrorismo mundial.

A ameaça é sentida de maneira mais aguda na Europa, e em especial na França, que governou a Argélia por 132 anos, até 1962, e é grande parceria comercial do governo autoritário de Argel.

"Estamos sob dupla ameaça, agora, disse Bernard Squarcini, chefe do serviço de informações e policiamento interno da França, em entrevista. "Um grupo que antes limitava suas operações terroristas à Argélia agora é parte do movimento jihadista mundial."

No mês passado, a França assinou acordos de desenvolvimento nuclear e assistência militar com a Argélia. Washington também provê treinamento para as forças armadas argelinas, empresas norte-americanas abastecem os arsenais do país.

Mesmo assim, funcionários dos serviços de informação e diplomatas ocidentais dizem que o governo argelino hesita em inclui-los plenamente nas investigações sobre o grupo islâmico. Os funcionários só falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados, devido a preocupações de segurança.

Na Europa, as autoridades estão observando com cautela o grupo argelino, mas não estão convencidas de que ele tenha capacidade de agir fora da África.

O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, disse na semana passada que a fusão entre a Al-Qaeda e a organização argelina e outros grupos semelhantes renovava os riscos.

"Esses grupos, até onde os conhecemos, têm boa dose de independência. Eles recebem inspiração, orientação ocasional e talvez algum treinamento e algum dinheiro, da liderança da Al-Qaeda", ele afirmou, acrescentando que "não é mais um movimento tão centralizado quanto costumava ser em, digamos, 2001. Mas, de certas maneiras, o fato de que se tenha espalhado da forma que fez o torna mais perigoso, em minha opinião".


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