Agências humanitárias reavaliam suas atividades depois de assassinato

Agências de ajuda humanitária estão revendo a viabilidade de sua presença no Afeganistão após o assassinato da agente cristã Gayle Williams. Um veículo passou atirando em Cabul e matou Gayle, na semana passada.

Esse último ataque no centro de Cabul aumentou o senso de insegurança que já era sentido pelos agentes humanitários estrangeiros, devido ao recente aumento da violência, perpetrada por grupos insurgentes.

“O controle do Talibã nas regiões fora das cidades e nas estradas entre elas tem passado dos limites gradativamente, e agora parece que ele está operando nas cidades também”, afirma Mike Lyth, presidente do Servindo Afeganistão, uma organização humanitária que trabalha com afegãos desde 1970. “É muito difícil – quero dizer, como você impede alguém que está dirigindo uma motocicleta?”

Dan McNorton, coordenador de comunicações da Missão de Assistência no Afeganistão das ONU, disse ao Compass que apesar de a situação ter piorado, a ONU tem 50 anos de história com o Afeganistão e que seu compromisso com o país e com as pessoas permanece “absolutamente sólido”.

“Não há indícios de que as organizações não-governamentais ou humanitárias que estão aqui têm qualquer desejo ou vontade de permanecer no país, de não realizarem o bom trabalho que elas vieram fazer na região”, ele diz.

Por conta dos recentes eventos, entretanto, Lyth acredita que essas organizações terão de reconsiderar sua presença no país.

“Cada vez que uma coisa dessas acontece, eles refletem”, ele comentou. “Nós, certamente, iremos reavaliar .”

Um recente relatório da ONU declarou que houver mais de 120 ataques contra agentes humanitários somente nos primeiros sete meses deste ano. Eles fizeram com que 92 pessoas fossem seqüestradas e 30 fossem mortas.

“Ontem eu estava conversando com uma agência que decidiu adiar seu trabalho no país por causa dos ataques”, disse Karl Torring, da Rede Européia de ONGs no Afeganistão. Outras agências que ele representa, entretanto, não se precipitaram em tomar uma decisão.

“As pessoas dizem: ‘Bem, estamos comprometidas com os afegãos, mas isso vale quantas vidas de agentes estrangeiros e afegãos também?’”, disse Lyth.

Em uma conferência de jornalistas após a morte de Gayle, Humayun Hamidzada, representante do presidente Hamid Karzai, alertou os agentes humanitários estrangeiros de Cabul.

“Os agentes estrangeiros que residem em Cabul, sejam humanitários ou do setor privado, deveriam contatar os departamentos de polícia relevantes, rever suas medidas de segurança e ter certificarem-se de que tomaram as precauções necessárias enquanto estão trabalhando”, disse ele, de acordo com a Voz da América.

Morta por ser cristã ou mulher?

Insurgentes do Talibã assumiram a autoria da morte de Gayle. Em entrevista pelo telefone com a agência Reuters, eles citaram o aumento de “propaganda” do cristianismo como a razão do ataque.

Gayle Williams, 34 anos, tinha dupla cidadania, da Inglaterra e da África do Sul. Ela havia sido realocada recentemente para Cabul, por causa de preocupação cm a segurança, depois de ataques contra civis.

Ela era voluntária do Servindo o Afeganistão havia dois anos. Ela foi morta a caminho do escritório, por dois homens em uma motocicleta.

Duvidando de que a morte de Gayle tenha motivos puramente religiosos, alguns questionaram a acusação feita pelo Talibã, de que Gayle estava evangelizando. Fontes sugeriram que Gayle foi a vítima mais por ser uma mulher ocidental do que por ser cristã, considerando-se a presença de grupos religiosos facilmente identificáveis no país.

“Um mês antes, mataram três mulheres de uma agência secular, e a desculpa dada foi a de que elas eram espiãs. Eles arrumam qualquer desculpa para se livrarem, arranjam qualquer motivo para atacar mulheres”, disse Lyth.

Em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em outubro, o chefe da UNAMA e o Representante Especial das Nações Unidas no Afeganistão, Kai Eide, disseram que os ataques do Talibã foram executados para atrair a atenção da mídia, uma vez que desejam desmoralizar e atrapalhar a reconstrução do país.

Um relato recente da Voz da América apontou que muitos dos projetos de reconstrução dependem massivamente de administração e treinamento estrangeiros. A tentativa do Talibã de desestabilizar a presença internacional poderia minar esses projetos e causar sérios efeitos negativos na nação.