Novo presidente das Maldivas assume e enfrenta grandes desafios

Nesta terça-feira, 11, Mohamed Nasheed assume o governo das Maldivas, após ter derrotado o presidente Maumoon Abdul Gayoom, nas eleições do último dia 29 de outubro.

Em 1978, Maumoon Gayoom, hoje com 71 anos, instalou-se no poder, e, seguindo a linha de outros ditadores, tais como Fidel Castro, de Cuba, ou Robert Mugabe, do Zimbábue, fez de tudo para permanecer na liderança da nação. Seu governo totalizou 30 anos. Ele vinha tentando alterar a constituição para manter sua posição até sua morte, mas, em 2003, devido a protestos da população, Gayoom não teve outra opção a não ser iniciar algumas reformas democráticas.

Em 2005, autorizou a legalização de partidos políticos. Até o início de 2008, ele vinha recorrendo a emendas constitucionais e referendos para se perpetuar no poder, mas, em agosto, aceitou a entrada em vigor de uma nova Constituição, que permitiu a convocação de uma eleição.

Gayoom vinha sendo acusado de corrupção e de recolher para si ilegalmente 40 milhões do dinheiro liberado pelas Nações Unidas no incidente do tsunami.

Reviravolta no segundo turno

O primeiro turno das eleições ocorreu no dia 8 de outubro e, segundo as estatísticas, Gayoom foi para o segundo turno com grande vantagem. Mas uma reviravolta aconteceu e o opositor Mohamed Nasheed, 41 anos, venceu as eleições, que registraram uma participação de 86,5% da população. Gayoom obteve 45,79% dos votos contra 54,21% de Nasheed.

Nasheed, conhecido como Anni, é um ex-prisioneiro político comparado a Nelson Mandela. Ele permaneceu bom tempo preso e exilado. Nasheed prometeu transformar a república laica das Maldivas em uma genuína nação islâmica. A população é de 370.000 muçulmanos sunitas, disseminados em 1.192 ilhas.

As expectativas de mudança no país são grandes, apesar da falta de apoio que o novo presidente enfrentará ao assumir o governo (o partido de Gayoom tem a maioria de cadeiras no parlamento).

Desafios pela frente

Nasheed, que ganhou as eleições sob o slogan “A outra Maldivas”, enfatizando uma reforma econômica no país, terá de enfrentar muitos problemas, como uma alta densidade demográfica, alto desemprego entre jovens, o crime que tem aumentado, uma epidemia do uso de heroína (30.000 usuários), entre outros. Além disso, há a questão religiosa, com o extremismo representando uma ameaça real. Em setembro de 2007, 12 turistas foram feridos em um atentado a bomba. O “Partido Adhaalath”, considerado conservador religioso e que apoiou Nasheed no segundo turno, defende a pena de morte nos casos de apostasia. O partido já reivindica espaço no governo. Certamente o novo governante terá dificuldades de conciliar esses interesses com os dos jovens liberais atraídos pelo Partido Democrático Maldívio, pelo qual Nasheed foi eleito.

Repressão religiosa

A República das Maldivas é conhecida como um destino turístico, mas também é um local onde as pessoas sofrem repressão severa no que diz respeito à liberdade de expressão, de pensamento e de religião. É um dos poucos Estados – como a Arábia Saudita –, que permite somente a prática de uma religião e exige que todos os cidadãos sejam muçulmanos.

A prática de outras religiões, incluindo outras formas de islamismo diferentes do sunismo, é banida. O Estado consegue monitorar toda forma de expressão religiosa e tem poder para piorar as condições de vida da maioria da população.

Nenhum dos candidatos que concorreram à presidência da República se importava em melhorar as leis neste aspecto. A nova Constituição alega que o islamismo faz parte da cultura histórica dos nativos das Ilhas Maldivas. De acordo com o Artigo 9, os cidadãos que não forem muçulmanos vão perder a chance de viver em Maldivas. Isso preocupa a nação, uma vez que as pessoas que se converterem a outras religiões ou até mesmo os filhos de nativos casados com pessoas que não partilhem a mesma fé, correm o risco de perder a cidadania.

 A situação piora quando aqueles que se opõem à religião do país acabam sendo presos e perdendo o emprego. Os emigrantes não têm coragem de declarar outra fé, e os trabalhadores imigrantes também precisam se adaptar à religião do país. Até material religioso, como livros, folhetos, programas de internet ou de rádio, são banidos quando encontrados pelo governo. As malas dos turistas também são revistadas a procura de artigos desse gênero. Até nas escolas, a religião ensinada é o islamismo. Casamentos são reconhecidos somente entre muçulmanos.

Com informações de EFE, AFP, The Economist e Minivan News