As tentativas de vincular assassinatos ao governo fracassam

Adiaram-se as tentativas do processo judicial de vincular os assassinos de três cristãos a mentores do crime ligados ao governo após o suposto líder da quadrilha ter contradito, inesperadamente, seu depoimento anterior que envolvia a existência de um “intermediário”.

Huseyin Yelki, intermediário suspeito entre os assassinos e altos funcionários do governo,  estava depondo na audiência de 22 de maio, quando o suposto líder da quadrilha, Emre Gunaydin, cujo depoimento particular levara à prisão de Huseyin, levantou-se e disse: “Huseyin Yelki não é culpado. Não há motivo para ele estar preso”.

A equipe de promotores e os juízes do Terceiro Tribunal Penal de Malatya pasmaram-se diante da declaração e exigiram que ele dissesse por que havia envolvido Huseyin anteriormente. Emre disse que assim o fizera porque Huseyin era um missionário cristão.

Emre também envolveu Varol Bulent Aral, um jornalista supostamente ligado a uma conspiração política de grande influência conhecida como Ergenekon. Varol é o segundo intermediário suspeito.

De sua parte, Huseyin afirmou em seu depoimento que havia se encontrado com Emre somente uma vez antes dos assassinatos. De acordo com o depoimento anterior de  Emre, o irmão de Huseyin facilitara vários encontros entre Emre e Huseyin, onde planejaram o ataque com faca contra os três cristãos em uma editora cristã. Durante uma audiência privada no inverno passado, um juiz mostrou fotos de pessoas diferentes a Emre e ele identificou imediatamente o irmão de Huseyin.

O recuo da declaração anterior de Emre levantou suspeitas entre os juízes de que, nos últimos meses, ele tenha recebido visitas na prisão daqueles que estão por trás dos assassinatos e estes o pressionaram a mudar seu depoimento.

“Diga-me a verdade, você falou com alguém?”, vociferou o juiz para ele.

“Eu juro por Deus que não!”, disse Emre.

Os juízes requisitaram uma lista de todos os que visitaram Emre e os outros quatro suspeitos, Salih Gurler, Cuma Ozdemir, Hamit Ceker e Abuzer Yildirim, durante os dois últimos anos em que têm estado na prisão. Outros questionamentos feitos a Huseyin não puderam fornecer respostas incriminatórias e claras, e os juízes o liberaram.

O líder dos advogados da acusação, Orhan Kemal Cengiz disse a Compass Direct que os registros das visitas à prisão de Emre podem ser inconclusivos.

“Estas visitas podem não ter sido registradas, não sabemos”, disse Orhan. “Mas temos uma minúscula esperança de que possamos conseguir algo através desses registros.”

Huseyin, um ex-voluntário da Zirve Publishing Co., foi detido em fevereiro por suspeita de ter incitado os cinco jovens suspeitos de matar os três cristãos, Necati Aydin e Ugur Yuksel (turcos), e Tilmann Geske (alemão), em abril de 2007.

Orhan chamou o depoimento de Huseyin de um “desastre”. Ainda que seja aparente para o tribunal que Huseyin tenha tido muitos contatos com membros da inteligência do gendarmerie (braço policial da forças armadas turcas), disse Orhan, ele não pôde explicar a natureza de seus telefonemas, afirmando que queria falar com eles sobre a Bíblia.

“Estamos muito desconfiados dele”, disse Orhan. “Todos estão desconfiados.”

Como consequência da última audiência, o tribunal também requereu um registro com todos os extratos bancários dos últimos anos para ver se eles apontam para alguma ligação com o gendarmerie ou outras atividades suspeitas.

“Para nós, é óbvio que Huseyin é um dos elos que ligam esses jovens a níveis mais elevados”, disse Orhan. “Mas ele se recusou a cooperar e, no meu ponto de vista, também é óbvio que Emre foi pressionado a mudar seu depoimento porque, em seu depoimento inicial dado ao promotor, ele acusou Huseyin de instigá-los a cometer o crime. Mas ele mudou depois disso.”

Orhan disse que Huseyin adulterou alguns fatos como sua afirmação no tribunal de que permanecera de cama por dois meses se recuperando de uma cirurgia na perna, quando registros telefônicos mostram que ele passou por diferentes cidades no sudeste da Turquia durante esse tempo.

“Era óbvio que estava contando muitas mentiras porque ele disse que, após a liberação do hospital, descansou por dois meses”, disse Orhan, “mas, de acordo com seu telefone, ele estava viajando intensamente.”