Líder eclesiástico fala sobre situação de cristãos egípcios

| 16/01/2006 - 00:00


Embora o cristianismo tenha chegado ao Egito já no primeiro século da era cristã, o islamismo tornou-se a religião dominante, abrangendo 84% da população. A perseguição no país é intensa e os cristãos enfrentam uma série de restrições. O site da organização cristã inglesa Banner of Truth publicou a entrevista de um líder de igreja egípcio, que respondeu a questões sobre a situação enfrentada pelos 10 a 12 milhões de cristãos no Egito hoje. O líder egípcio não teve a identidade revelada. Leia a íntegra da entrevista:

Muitas pessoas se surpreendem ao saber que há uma Igreja no Egito. Há quanto tempo existem cristãos em seu país?

A Igreja no Egito existe há dois mil anos e durante a maior parte desse tempo os cristãos têm enfrentado problemas de vários tipos.

Mas algumas pessoas dizem que os cristãos do Egito não sofrem qualquer dificuldade ou violência. Eles até citam alguns líderes de igreja egípcios que apóiam essas afirmações.

Muitos líderes de igreja egípcios não estão aptos a expor esses problemas porque têm medo do que a polícia secreta poderá fazer a eles. Eles também sabem que o governo se opõe a tornar os problemas conhecidos, portanto eles não se atrevem a falar de forma livre e aberta. Mas se você falar com eles em particular, eles vão admitir o que está acontecendo.

Ouvimos histórias sobre garotas cristãs sendo seqüestradas e estupradas. Isso pode ser verdade?

Tem havido um número crescente de ataques a meninas e moças cristãs. Muitas estão sendo seqüestradas e estupradas. O objetivo é forçá-las a se converter ao islamismo e humilhar a comunidade cristã como um todo. O estupro está sendo usado como uma arma contra os cristãos. Até a mídia árabe começou a discutir a questão, embora ela sempre diga que cada um desses incidentes é falta dos cristãos. Conheci pessoalmente muitas dessas garotas e as ouvi contar suas histórias. Sei que isso é verdade.

Qual é a situação dos cristãos que nasceram em um contexto muçulmano?

Os convertidos do islamismo têm enormes problemas. Eles sempre recebem ameaças de suas famílias. As autoridades buscam qualquer pretexto para prendê-los, torturá-los e colocá-los na prisão. Às vezes eles são postos em hospitais psiquiátricos de alta-segurança sob a alegação de que eles podem estar loucos.

Qualquer um que mude do cristianismo ao islamismo pode obter sua nova identidade com sua nova religião rapidamente, mas aqueles que se convertem do islamismo ao cristianismo podem nunca receber sua identidade alterada. Eles são considerados oficialmente muçulmanos para sempre, algo que lhes causa grandes problemas. É difícil para eles ir à igreja, para as mulheres convertidas se casarem com um homem cristão, para ser enterrado como cristão ou para deixar sua propriedade para herdeiros cristãos. Qualquer um que for pego batizando um convertido do islamismo ao cristianismo provavelmente vai para a cadeia.

Que outros tipos de opressões você testemunhou pessoalmente no Egito?

Os jornais de lá publicam às vezes muitos artigos contra o cristianismo e contra a Igreja egípcia. Eles afirmam que os cristãos estão contra os muçulmanos e que os cristãos atacaram o Alcorão ou Maomé, mas nunca trazem uma prova para sustentar essas afirmações. Ninguém na liderança da igreja pode falar contra o islamismo porque sabem que, se agirem assim, podem ser mortos.

Os jornais espalham falsos boatos para estimular o ódio aos cristãos. Por exemplo, em outubro de 2005 houve várias confusões anticristãs em Alexandria por muitos dias. Tudo isso começou por causa de um artigo em um jornal egípcio que dizia que uma igreja estava exibindo uma peça que eles consideravam ofensiva ao islamismo. Ao mesmo tempo, outro boato circulou sobre uma mulher cristã que haveria seqüestrado uma garota muçulmana, forçando a menina a se converter ao cristianismo. Essa história foi publicada sem qualquer prova, e uma multidão de muçulmanos se reuniu em frente à casa da mulher cristã para protestar. A polícia veio e prendeu a mulher, fazendo uma busca em sua casa. Ela não foi solta até a garota ser encontrada - ela tinha sofrido um acidente de carro e foi encontrada e socorrida por estranhos.

Na televisão egípcia há muitos programas contrários ao cristianismo, condenando os credos cristãos e dizendo que a Bíblia não é a verdadeira Bíblia. Até as novelas podem conter mensagens anticristãs.

Tudo isso acontece com uma provável aprovação do governo. Isso machuca muito os cristãos, que não têm nenhuma chance de responder às acusações.

É difícil para a pessoa que tem um nome cristão ou uma identidade cristã conseguir um trabalho. Se você olhar para as altas posições - os grandes médicos, os altos postos do governo ou nas universidades - você vai encontrar pouquíssimos cristãos, mesmo que eles representem 12% da população. Outro desafio é que o cristão precisa de uma permissão especial do presidente para construir novas igrejas, o que é muito difícil de se conseguir. Não é necessário obter permissão para a construção de novas mesquitas. Então há muitas mesquitas, mas quase nenhuma igreja.

E como é a vida diária dos cristãos comuns?

Deixe-me contar sobre um amigo meu que trabalha em uma companhia do governo. Todo dia que ele vai trabalhar perguntam para ele: quando é que você vai se tornar um muçulmano? Ele é tratado nas piores condições e ameaçado de ser demitido se não se converter ao islamismo, uma coisa que o impediria de sustentar sua família. Todo ano sua promoção é adiada e o aumento de salário fica sendo devido. Costumava haver três cristãos no grupo de mil pessoas da companhia. Dois foram embora porque eles não podiam suportar mais a pressão. Agora meu amigo é o único. Ele convive todo dia com isso, chorando e orando a Deus. Até quando isso vai durar? Não sei. Ele sobrevive a cada dia apenas pela graça de Deus.

Um dia, fui com uma senhora cristã comprar comida; mas as pessoas se recusaram a lhe vender porque ela usava uma cruz em torno do pescoço. Ver suas lágrimas, seu choro, por não poder comprar comida foi de partir o coração. Os líderes de igreja são vaiados enquanto eles andam pelas ruas, além de receberam pedradas também. No Alto Egito as pessoas mais pobres são os cristãos. Um muçulmano pode vir e tomar a terra deles ou espancá-los. Ninguém escuta o clamor deles. Se a polícia é chamada, ela sempre vai dizer que os cristãos são os que estão errados.

Todos os dias os cristãos no Egito carregam sua cruz. Há muitas histórias como essas que podem fazer chorar.

Dado que o Egito foi um país cristão por alguns séculos antes da chegada do islamismo, o que a maioria muçulmana pensa hoje da herança cristã do Egito?

Essa herança é reprimida. Nas escolas, virtualmente toda a História ensinada é a da era islâmica. O cristianismo ganha apenas umas poucas frases dentro de toda a História egípcia. Todo o currículo escolar, da pré-escola até a universidade, é baseado no ensinamento sobre o Alcorão, sobre Maomé etc.

O governo sempre diz que a unidade é importante, e isso é verdade. Mas só haverá unidade entre cristãos e muçulmanos quando todos forem tratados do mesmo modo.

Existe alguma iniciativa de diálogo inter-religioso?

Há poucos líderes protestantes envolvidos em conversas com o governo egípcio e com a Universidade Al-Azhar, no Cairo - o centro do universo islamismo sunita. Como resultado, a Al-Azhar, que está envolvida na sanção da perseguição aos cristãos, ganha credibilidade como uma corporação trabalhando pela paz e pela tolerância. Infelizmente, muitos cristãos fora do Egito acreditam nisso e não percebem o engano que está sendo mostrado. Portanto nós não acreditamos naqueles que se engajam em um diálogo como esse, cristão ou muçulmano.

Além disso, alguns dos cristãos envolvidos nesse diálogo vêm da Inglaterra e de outros países ocidentais; eles parecem não saber o que está acontecendo  no Egito e dão ajuda financeira para os poucos líderes cristãos egípcios que estão envolvidos no diálogo. Sentimo-nos insultados quando os ocidentais acham que eles têm que vir e conversar com os muçulmanos em nosso lugar, quando nós temos vivido com os muçulmanos por 1.400 anos. Eles não estão ajudando a situação do Egito e eles não representam toda a Igreja lá.

Você pode nos dar alguma boa notícia da Igreja Egípcia?

Sim! Há boas notícias! A Igreja Cristã existe no Egito por dois milênios. Ela é chamada de "igreja dos mártires", e nós somos filhos e filhas de mártires. Quando choques anticristãos aconteceram em Alexandria em outubro, os cristãos de lá me disseram: "Estamos carregando nossos caixões conosco, estamos prontos para ser mártires." Esse é o segredo de como nós temos sobrevivido - oramos e vigiamos, pela graça de Deus. Entre nós está alguém que nos trai, nosso Inimigo, mas Deus vai lidar com ele no seu tempo. Até lá nós iremos focar em Deus. Estamos sendo punidos porque somos cristãos. Mas esperamos no amor e na salvação de Deus e estamos prontos para ser martirizados se essa for a vontade de Deus. De qualquer forma, a Igreja nunca irá morrer, como a Bíblia nos prometeu.

Você não pode matar o amor - pode apenas crucificá-lo. E quando você crucifica o amor, ele ressurge. Essa é a fé cristã.


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