Vozes na escuridão: o que diz a Igreja Perseguida na China

| 06/09/2005 - 00:00


Cartas de cristãos chineses que freqüentam as igrejas domésticas refletem os desafios da fé enfrentados no país:

Restrições legais
 
 "Aqui, em março, o governo se impôs sobre a religião, e as igrejas domésticas sofreram restrições. Aqueles que não freqüentam as igrejas das Três Autonomias (controladas pelo governo) serão multados. Eu imagino que se as coisas ficarem mais difíceis, nós teremos que dividir nosso rebanho. Todos irão cultuar a Deus em casa somente com sua família... Nosso Senhor ama as igrejas domésticas; mas as grandes igrejas das Três Autonomias cultuam de acordo com a orientação do homem. Como nós podemos freqüentá-las?" (Estado de Anhui, abril de 2005)
 
As novas Regulamentações sobre Assuntos Religiosos da China, que entraram em vigor em 1º de março, tornaram mais rigoroso o controle do governo sobre as atividades religiosas. Por exemplo, cristãos que freqüentam igrejas não registradas, ou que forem encontrados com publicações religiosas sem licença, agora enfrentarão penas mais duras.
 
Um líder de uma igreja doméstica ressaltou que as novas regulamentações "não foram estabelecidas concretamente. Do ponto de vista do Partido, elas podem ser refinadas e melhoradas, levando a um maior controle."
 
Censura
 
"Aqui geralmente nós não podemos enviar cartas para Hong Kong. Se elas forem endereçadas a pastores ou igrejas, o Departamento de Assuntos Religiosos as abrirá. Então eu escrevo minhas cartas cuidadosamente e espero até que alguém vá a uma igreja em Hong Kong, e eles as entregam lá pessoalmente." (Estado de Guangdong, março de 2005)
 
Fontes chinesas informaram sobre escutas telefônicas em vários lugares, interceptação de e-mails e censura na Internet na China continental.
 
Representantes do Projeto Internet na China, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, compartilharam suas preocupações quanto à censura na Internet, antes do encontro da Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, em abril. O participante Xiao Qiang ressaltou: "O governo... está investindo recursos significativos para manter o controle sobre o conteúdo da Internet e o acesso público a este conteúdo."
 
De acordo com Xiao, toda a movimentação da Internet na China passa por seis entradas que são rigorosamente controladas por agências do governo. Essas entradas são protegidas por um programa "firewall", que identifica qualquer conteúdo denominado "indesejável" para o público chinês. "Na verdade," disse Xiao, "a Internet na China é realmente uma rede interna do país, com acesso à rede global limitado e controlado pelo governo."
 
A polícia da Internet em 700 centros monitora páginas e mensagens eletrônicas, buscando "ensinamentos heréticos ou superstições feudais" e informações que sejam "prejudiciais à dignidade ou ao interesse do Estado". Eles também usam programas que detectam palavras-chave em e-mails e em arquivos obtidos na Internet, e que rastreiam mensagens "subversivas" até os computadores dos quais elas foram mandadas.
 
Um artigo do Washington Post, de 20 de julho, destacou o "Escudo de Ouro", um sistema de vigilância de alta tecnologia instalado na Internet chinesa que esteve em desenvolvimento nos últimos cinco anos. Harry Wu, um chinês ativista de direitos humanos, disse aos repórteres do Post que o programa já foi oferecido à polícia em pelo menos 31 estados.
 
Desde 1994, várias leis foram aprovadas para regular o conteúdo da Internet. Conteúdo ilegal, no entanto, está vagamente definido; por exemplo, no Artigo 15 de "Medidas para a Administração dos Serviços de Informação da Internet", toda informação que "colocar em perigo a segurança nacional, divulgar segredos de estado ... ou criticar a política do estado sobre religião" está totalmente proibida. Essa vaga definição significa que os cristãos estão à mercê das autoridades locais, que podem ou não aprovar referências cristãs em e-mails ou divulgadas na Internet.
  
Prisão, detenção e tortura

 
"Recentemente o irmão que administra nossa igreja doméstica foi sentenciado. Durante o festival da primavera, ele foi a um estudo em Pequim com alguns irmãos e irmãs, mas foi preso quando chegou à estação de trem de Pequim. Alguns tiveram suas casas revistadas, mas ele foi condenado à prisão." (Estado de Henan, fevereiro de 2005)
 
A Associação de Ajuda à China (AAC) relatou uma série de batidas em igrejas domésticas chinesas em julho e agosto. A polícia invadiu uma cerimônia em uma Igreja Batista doméstica, no estado de Henan, em 1º de julho. Dos 70 cristãos presentes, 10 foram detidos administrativamente por 15 dias, enquanto todos os outros foram multados. A AAC também relatou a prisão de 100 estudantes secundaristas em uma escola bíblica não registrada na vizinhança de Hebei, e o término forçado de um encontro em uma igreja doméstica em Xangai em 26 de julho.
 
Além disso, a polícia prendeu dois estudantes de teologia americanos junto com 43 líderes e membros da Igreja do Sul da China, no estado de Hebei, em 2 de agosto. O último relato informou que 10 cristãos locais foram liberados em 13 de agosto; muitos foram torturados, incluindo queimaduras por cigarros e espancamento. Em 17 de agosto, todos, com exceção de 2, foram liberados.
 
Em 7 de agosto uma igreja doméstica em Xinjiang sofreu uma batida; 10 mulheres de um grupo de 30 cristãos foram despidas e exibidas nuas. Aquelas que se recusaram a tirar suas roupas foram violentamente espancadas. Em 11 de agosto, autoridades prenderam 35 estudantes secundaristas e universitários que estavam na escola dominical para treinamento de líderes em Jiangxi. Seis dos presos serão processados por delitos criminais.
 
Finalmente, em 15 de agosto, quatro cristãos americanos foram presos junto com 27 pastores das igrejas domésticas em Luoyang, estado de Henan. Outro americano foi detido por policiais à paisana quando caminhava nos arredores da cidade de Yichuan, de acordo com relatório da ACC de 17 de agosto.
  
Restrições ao emprego e à educação
 
"O senhor Zhao e outros foram advertidos pelo governo e por suas escolas quando foi descoberto que eram cristãos. Eles disseram que os professores não podiam acreditar no cristianismo. Até agora o senhor Li e eu estamos bem. Mas eu tive três parentes próximos que foram presos em Shenzhen; não sou capaz de explicar as razões com detalhe. Minha família está perturbada. Por favor, ore." (Estado de Jiangsu, março de 2005)
 
A diretiva do Partido Comunista Chinês (PCC) de agosto de 2004 proibiu todas as atividades religiosas em instituições de ensino superior. A diretiva proibiu cerimônias religiosas ou prédios para encontros religiosos nos campos universitários. Também estabeleceu que todos os professores e alunos que forem membros do PCC e que participarem de encontros religiosos serão forçados  a sair do Partido.
 
As críticas às novas Regulamentações sobre Assuntos Religiosos da China apontam que a educação religiosa não foi tratada adequadamente na nova lei. Por exemplo, a lei não é clara se as crianças e os jovens com menos de 18 anos continuam proibidas de receber educação religiosa.
 
 
Reconstrução teológica 

"Eu acredito no Senhor há cinco anos e tenho caminhado passo por passo com a verdade. Eu sei que minha vida espiritual ainda está fraca, então neste ano eu quero estudar a Bíblia ainda mais. Aqui na China, é muito difícil ser cristão. Eu fui batizado em uma igreja oficial. Recentemente o bispo Ding Guangxun, da igreja das Três Autonomias, está proclamando que certas verdades da Bíblia não concordam com o desenvolvimento socialista. Por outro lado, ele diz que o pecado original está errado; por outro, que a humanidade é um produto inacabado por Deus... Gradualmente os púlpitos dessas igrejas não estão mais proclamando a verdade. Eu realmente quero receber alimento espiritual genuíno." (Shanghai, fevereiro de 2005)
 
O governo chinês prefere que as igrejas protestantes domésticas se registrem junto ao Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA) aprovado pelo governo, apesar das Regulamentações sobre Assuntos Religiosos de 1º de março teoricamente permitirem que elas se registrem diretamente junto ao governo.
 
Muitas igrejas cristãs domésticas temem o MPTA, particularmente o bispo Ding Guangxun, que iniciou um controverso movimento de "reconstrução teológica" no final dos anos 90.
 
Em um artigo lançado em maio na revista Tianfeng do MPTA, Ding disse: "Qual é o objetivo da reconstrução teológica? Meu único objetivo é muito simples. Eu desejo que o Cristianismo chinês sofra uma mudança ... para um Cristianismo que seja humanista, racional e moral."
 
No início desse ano, Donald Messer da Escola Iliff de Teologia revisou o livro Deus é Amor escrito por Ding. De acordo com a revisão de Messer, Ding acredita que o amor é um atributo primário de Deus, encobrindo sua justiça e juízo. Nessa base, Ding sustenta que "Jesus não tem um padrão para crentes ou não-crentes que entrarão no céu ou no inferno."
 
Ding está evidentemente insatisfeito, pois pelo menos 90 por cento das igrejas chinesas são evangélicas, como pôde ser visto na revista Tianfeng e em outros artigos. Ele prefere uma forma liberal de cristianismo que enfraqueça os princípios básicos da fé cristã, incluindo a cruz e o papel único de Cristo.
 
O objetivo de Ding se espelha no objetivo do partido comunista chinês - um evangelho chinês que esteja, nos próprios termos do Partido Comunista, "compatível com o socialismo".


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