Ex-comandante confessa rituais macabros e ódio a cristãos

Em entrevista à BBC, o ex-rebelde liberiano Milton Blahyi, comandante durante a guerra civil na Libéria, hoje pastor evangelista, admitiu ter participado de sacrifícios humanos como parte das cerimônias tradicionais para garantir a vitória nas batalhas. E contou o seu testemunho de vida.

Vários sacrifícios humanos aconteceram durante os conflitos entre 1979 e 1993, mas esta é a primeira vez que alguém admite a prática em público. "Os sacrifícios incluíam a morte de crianças inocentes, para arrancar os seus corações, que eram divididos em pedaços para nós comermos", disse ele.

"Deus me disse em uma batalha que eu estava fazendo o trabalho de Satanás", contou ele sobre sua conversão.

Confissão de pecados

Depois de confessar à Comissão para Verdade e Libertação da Libéria que seu grupo foi responsável pela morte de 20 mil pessoas, Milton Blahyi, disse que espera que a confissão ajude a curar as feridas de seu país.

Hoje, Milton Blahyi, que prefere ser chamado de "Joshua", é visto com freqüência intercedendo nas esquinas e igrejas da capital, Monróvia. "Eu oro contra o assassinato e os sacrifícios humanos", afirmou.

"Algumas pessoas me parabenizam, outras dizem que eu não deveria andar pelas ruas de Monróvia posando de orgulhoso. Mas eu não estou orgulhoso, estou envergonhado", explicou.

Ódio aos cristãos

Milton Blahyi, 37 anos, disse à BBC que foi exposto à batalha pela 1ª vez em 1982, aos 11 anos, quando foi decretado o "líder espiritual da tribo". Desde então passou a odiar os cristãos de uma forma inexplicável.

Ele conta que, quando a teve início a rebelião contra o presidente Samuel Doe, ele teve que ir à guerra como aliado do presidente pois era do mesmo grupo étnico, o krahn.

Milton, que era conhecido como o "general bunda de fora" pois ia para o combate nu, lutou contra a milícia de Charles Taylor, que está sendo julgado por crimes de guerra.

"A tradição me fez acreditar que, como líder, ao me tornar guerreiro, tinha que fazer sacrifícios antes de ir para a batalha", afirmou Blayhi.
Intervenção divina

Ele parou de lutar em 1996, depois de uma experiência marcante. "Deus apareceu quando eu estava pelado em uma batalha e disse que eu não era um herói e eu estava fazendo o trabalho de Satanás ". Foi então que ele procurou alguns cristãos e passou a ler a Bíblia. Hoje ele percorre vilarejos da Libéria com fitas-cassete e literatura cristã.

A Comissão para a Verdade e Reconciliação da Libéria, formada nos mesmos moldes da comissão pós-apartheid da África do Sul, começou no início deste mês.

Vida entregue

O pastor evangelista afirmou que está preparado para qualquer decisão da Comissão. "Eu posso ser eletrocutado, enforcado. Mas acredito que perdão e reconciliação sejam os melhores caminhos a seguir", afirmou Milton.

Milton Blahyi também fez um apelo a outros ex-combatentes para confessar seus crimes pois "onde quer que você vá, há um estigma sobre eles".

Alguns críticos apontam que a comissão é muito fraca e argumentam que um tribunal para crimes de guerra deveria ser estabelecido no país.

O general Charles Taylor está sendo julgado em um tribunal que investiga o conflito em Serra Leoa, pois não há um similar na Libéria.

Apesar do final da guerra civil, vários agentes de paz da ONU continuam no país.

(Texto acrescido de informações da AFP)