Paquistaneses temem retrocesso após libertação de cristãos

Paquistaneses, cristãos ou não, temem uma reação violenta por parte de grupos extremistas à repressão do governo que aconteceu poucas semanas após a libertação de 16 cristãos seqüestrados pelo grupo extremista Lashkar-e-Islam (Exército do Islã) na cidade de Peshawar, no noroeste do Paquistão.

No dia 21 de junho, 16 cristãos foram seqüestrados em plena luz do dia em Academy Town, bairro rico de Peshawa, cidade da Província da Fronteira do Noroeste (NWFP, em inglês) ( leia mais). Os cristãos, a maioria católica, viviam em um prédio onde antes funcionara uma madrassa (escola religiosa muçulmana) e que fora alugado para eles por um muçulmano morador do local.

Os extremistas, acompanhados do homem que havia alugado o prédio, invadiram o condomínio onde o grupo estava reunido para louvar a Deus e empurraram os cristãos para dentro de vans. Os extremistas agrediam fisicamente os homens que ofereceram alguma resistência, segundo informou a imprensa local.

O Partido do Povo Paquistanês, que está no governo desde fevereiro, agiu prontamente, garantindo a libertação dos cristãos depois de 10 horas de seqüestro e exigindo um pedido de desculpas do grupo extremista Lashkar-e-Islam, que fez uma coletiva à imprensa no dia 23 de junho.

Entretanto, a comunidade cristã local não tem certeza da sinceridade do pedido de desculpas. Durante toda a primavera, um grupo islâmico que não se identificou mandou cartas ameaçando a comunidade cristã de Peshawar, se desculpou e depois continuou mandando cartas desse tipo, disse Ashar Dean, diretor assistente de comunicação da diocese, citando um exemplo de “desculpas não sinceras”.

Os cristãos que foram seqüestrados tiveram que se mudar com suas famílias para áreas mais próximas no centro de Peshawar por motivos de segurança.

Em busca da lei islâmica

O grupo extremista Lashkar-e-Islam reforçou com violência a já severa lei islâmica em sua fortaleza em Khyber Agency, uma região semi-autônoma localizada entre Peshawar e a fronteira afegã, e nas áreas próximas.

O novo governo se esforçou para reduzir a violência por meio de tratados de paz entre as tribos e os militantes extremistas. Mas, há uma semana, quando o governo jogou uma bomba na casa do comandante do Lashkar-e-Islam, Mangal Bgh, desmantelando o núcleo extremista e prendendo suspeitos, tudo mudou.
As terras de Pashtun em NWFP são território dos extremistas que acreditam em estabelecer uma lei islâmica linha dura no Paquistão e a militância é grande no local.

Noor Alam Khan, parlamentar do PPP, representante de Peshawar, disse que os esforços do governo para reprimir a ação dos extremistas que começou no dia 28 de junho são importantes.

“O PPP tentou negociar com os extremistas do local, pedindo que eles entregassem as armas, mas eles não quiseram”, disse o parlamentar.

Nos últimos dias, não apenas os militantes têm sido presos, mas seqüestrados têm sido libertados, disse ele, explicando os cristãos não são o único alvo dos grupos que querem uma lei islâmica mais severa.

“Todos os cidadãos estão sendo ameaçados pelos extremistas, não apenas os cristãos, então precisamos combatê-los”, disse o parlamentar ao Compass, por telefone. “Cortar gargantas, matar pessoas e impedir que meninas assistam às aulas não está certo. O governo precisa tomar uma atitude contra isso”.

E acrescentou que os grupos que praticam esse tipo de injustiça estão agindo contra a soberania do Paquistão e violando suas leis.

Teme-se reação

Os moradores não estão certos de que a operação surta efeito, relatou o jornal “Pakistani Daily Dawn” e a imprensa local na semana passada.
Ashar Dean, da igreja do Paquistão, disse que muita gente acredita que a repressão militar é resultado direto do seqüestro dos cristãos.

A ação militar do governo paquistanês na NWFP “é considerada mais como política, para acalmar a pressão por parte do governo e da comunidade internacional”, disse Ashar. Uma semana depois do seqüestro, o governo atacou a fortaleza do grupo extremista Lashkar-e-Islam.

Não está claro se a comunidade cristã que sofreu uma invasão por parte dos extremistas islâmicos na NWFP será atacada novamente. Os cristãos relatam que haviam recebido ameaças para que deixassem a vizinhança, e que o grupo Lashkar-e-Islam exigiu que o proprietário do imóvel onde os cristãos se reuniam parasse de alugar o local para os cristãos.

Minoria cristã

“Os cristãos e pessoas de outras minorias religiosas são em pequeno número no estado da NWFP”, disse Ashfaq Fateh, ativista pelos direitos dos cristãos no Paquistão.
Porém, segundo ele, “os cristãos são, das minorias, os que mais sofrem desde que a guerra contra o terror foi declarada”.

Os cristãos da região da NWFP são freqüentemente alertados a se converterem ao islã com ameaça de morte. O Compass documentou quatro casos desde maio de 2007, além de outros não confirmados.

Os cristãos moradores do local se sentem aliviados pelo fato dos seqüestrados terem retornado em segurança, disse um líder governamental do distrito de Peshawa, Yusef George. “Eles estão felizes”, afirmou.

Alguns moradores, entretanto, temem que o ataque contra os extremistas não cause um impacto duradouro e nem garanta segurança para os moradores, especialmente os cristãos, que temem uma reação por parte dos grupos extremistas.

“A situação em Peshawar continua tensa, e todas as agências de segurança estão em alerta”, disse Ashar Dean, que descreveu as barreiras de entrada e saída de Peshawar. “Os cristãos estão em choque e angustiados, mas continuam fiéis à sua fé”.

“Mas teremos que esperar para ver o que os aguarda”, alerta Ashar. Ele disse que a operação militar é limitada e está quase no fim. A questão para ele e os outros cristãos é o que acontecerá quando o governo parar de pressionar os grupos extremistas.

“Para ser honesto, o seqüestro aconteceu há tanto tempo, e tantas coisas já aconteceram desde então, que agora pensamos quais serão conseqüências”, disse Ashar, que teme que o Lashkar-e-Islam reaja. “Ele vão querer se vingar.”