O que é o Talibã?

O grupo extremista foi o mais mortal em 2018 e já assassinou 21 mil pessoas nos últimos cinco anos

| 12/07/2020 - 06:00

As mulheres no Afeganistão foram muito afetadas durante o regime do Talibã, pois saíram da escola e foram proibidas de trabalhar

As mulheres no Afeganistão foram muito afetadas durante o regime do Talibã, pois saíram da escola e foram proibidas de trabalhar


[Atualizado em 19/08/2021]

Talibã é um grupo político que utiliza táticas de guerrilha e ataques de homens-bomba para dominar o território no Afeganistão. Em 15 de agosto de 2021, os jihadistas tomaram Cabul, a capital do país. Isso aconteceu quase 20 anos depois de serem expulsos da cidade pelas tropas norte-americanas.

Porém, eles continuaram ativos principalmente no interior do Afeganistão e no Paquistão. O principal objetivo do Talibã é  implantar uma sociedade regida pela sharia, leis islâmicas que proíbem a influência da cultura ocidental e incentivam a jihad (guerra santa contra os não muçulmanos). 

  

Em 2020, o Afeganistão foi o país mais impactado pelo terrorismo, garante o Índice de Terrorismo Global 2020. E o Talibã foi considerado o grupo mais mortal pelo segundo ano consecutivo. Os ataques promovidos pelos radicais foram responsáveis pela morte de 5.725 pessoas em 2019.  

Os integrantes do Talibã lutam pelo controle do país e pela instalação da sharia no Afeganistão (foto: BBC) 

 

A maioria dos integrantes do Talibã são homens da etnia pashtun; eles se juntaram aos extremistas da Al-Qaeda e agora têm apoio em logística, armas e dinheiro. Acredita-se que o grupo possui entre 25 mil e 60 mil combatentes, muitos deles crianças pobres ou órfãs. 

Há uma reserva de radicais vindos de madrassas (escolas islâmicas) no Paquistão para repor os que se matarem em nome de Alá, os presos pelo governo e os mortos em combates. 

Quando e como surgiu o Talibã? 

O Talibã surgiu em 1994 de grupos da fronteira do Afeganistão e do Paquistão que lutavam contra a invasão soviética em território afegão desde 1979. Os rebeldes anticomunistas contaram com armamento vindo dos serviços secretos dos Estados Unidos e do Paquistão entre 1987 e 1989. Mas quando finalmente as tropas russas deixaram a nação em 1989, e o governo comunista caiu três anos depois, os grupos armados passaram a lutar entre si e o Talibã ocupou a capital Cabul, quando os conflitos internos agravaram.

Em outubro de 1994, cerca de 40 estudantes se reuniram com dois importantes líderes, o mulá Abdul Salam Zaeef e Mohammed Omar com o objetivo de levar a paz ao Afeganistão, desarmar os grupos, acabar com a criminalidade e estabelecer a sharia. Omar então foi nomeado o comandante para o início de uma era governada pela minoria étnica pashtun, que tinha extremo rigor religioso. 

A população ficou esperançosa com a possibilidade de estabelecimento da ordem no país e passou a apoiar os integrantes do grupo que seria conhecido como Talibã. No início, eles tinham apenas algumas armas e uma motocicleta russa antiga, mas logo a população deu suporte e os números de combatentes já passava de 400 homens. Então, o Paquistão intensificou ajuda ao movimento na esperança de que viabilizasse a construção de um gasoduto e que fossem aliados nas disputas contra a Índia.  

 

Como o Talibã chegou ao poder? 

 

Após o colapso do regime comunista no final de 1991, o país entrou em guerra civil e o Talibã surgiu como esperança para a restauração da paz no Afeganistão. O grupo foi conquistando as principais cidades, como Kandahar, Herat e Cabul, em setembro de 1996. A partir daí, foi proclamado o Emirado Islâmico do Afeganistão, onde impôs-se a versão rígida da sharia que retiraria as garotas das escolas, as mulheres do mercado de trabalho e as obrigaria a usar burca quando saíssem de casa. 

Além disso, as comemorações estavam proibidas, ouvir música era algo impensável e os homens eram obrigados a deixar a barba crescer e seguir o islamismo à risca. A execução pública tornou-se uma punição comum e, em casos de roubos, os ladrões tinham as mãos cortadas. Já as mulheres acusadas de adultério eram condenadas a morrer por apedrejamento. 

A ausência das mulheres no mercado de trabalho afetou os serviços de saúde e educação 

 

Nesse período, apenas Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos reconheceram o governo dos radicais como legítimo. Entretanto, após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, Osama bin Laden, da Al-Qaeda, recebeu acolhida no território. Por isso, uma coalizão liderada pelas tropas americanas invadiu o país no mesmo ano e retirou os extremistas do poder. 

Mas as ações dos jihadistas nunca foram interrompidas e eles travaram uma insurreição contra o governo afegão e as forças internacionais que ocupavam o país. Porém, em 2017, o Talibã enviou uma carta aberta ao então presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Ele pedia para que o exército norte-americano fosse retirado do país.

Em 2020, um acordo de paz foi assinado pelo qual os Estados Unidos deveriam retirar as tropas do país e libertar mais de cinco mil soldados do Talibã. E o grupo extremista deveria tomar medidas que impedissem que eles e outros grupos islâmicos, como a Al-Qaeda, usassem o Afeganistão para atacar os norte-americanos e países aliados. 

Porém, a paz não aconteceu e a violência no país chegou ao nível mais alto em 20 anos. Em junho de 2021, o Talibã afirmou que controlava entre 50% a 70% do território afegão. “A mensagem do Talibã permanece inflexível e não mostra nenhum sinal de reduzir o nível de violência no Afeganistão para facilitar as negociações de paz com o governo e outras partes interessadas afegãs”, advertiu um documento da ONU. 

 

Quais são os líderes do Talibã? 

Hibatullah Akhundzada, o terceiro líder do grupo, é um dos responsáveis pelo acordo com os Estados Unidos (foto: BBC) 

 

Desde 2016, Hibatullah Akhundzada lidera o Talibã. O homem, que leva o nome de “presente de Deus”, em árabe, é um erudito afegão da segunda maior cidade do país, Kandahar. Ele participou da resistência islâmica nos anos 1980 e pode ser mais considerado como um líder religioso do que militar. Durante o governo Talibã, ele foi responsável pelos tribunais e emitiu inúmeras sentenças que previam punições de pessoas, violando os direitos humanos, como as execuções públicas.

O atual cabeça do grupo extremista tem por volta de 60 anos e cultiva estreitos laços com a Quetta Shura, organização da alta liderança do Talibã baseada na província de Baluchistão, no Paquistão. Ele assumiu o poder após a morte do mulá Akhtar Mansour, que teve o veículo em que viajava atingido por uma bomba disparada por um drone. De acordo com informações internas, o segundo líder do grupo já havia nomeado Akhundzada como sucessor em seu testamento. 

Outro homem que tem papel fundamental na ação do grupo é o Mulá Abdul Ghani Baradar. Ele ajudou a fundar o Talibã e ficou preso entre 2010 e 2013. Hoje ele é o líder do comitê político do grupo e já se reuniu com Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China. 

Como o Talibã persegue os cristãos no Afeganistão e Paquistão? 

Professar a fé em Jesus faz com que o cristão ex-muçulmano seja uma vergonha para toda a família 

 

Todos os cristãos afegãos são ex-muçulmanos e não podem viver a fé abertamente. Se descobertos, precisam fugir do país número dois na Lista Mundial da Perseguição 2021 ou acabam assassinados. Alguns que foram “loucos” por terem deixado o islã acabaram internados em hospitais psiquiátricos. 

Apenas o fato de explorar qualquer fé que não seja a revelada a Maomé é inadmissível e ações precisam ser tomadas para que os desgarrados retornem e obedeçam ao islamismo novamente. Logo, não tem sido necessário ataques contra os “infiéis” que seguem a Jesus, pois ninguém sabe quem eles são. 

Entretanto, no Paquistão o cenário é diferente, já que 4 milhões de habitantes professam a fé em Jesus. Muitos dos ataques cometidos contra os infiéis não muçulmanos são obras do grupo Tehrik-i-Taliban, que muitas vezes age sem fortes consequências, já que o país se autodenomina muçulmano desde a independência em 1947 e faz vista grossa para a “fábrica de extremistas” criada nas madrassas paquistanesas. 

Apesar da aparente “liberdade”, a discriminação aos cristãos é institucionalizada, garantindo a eles os trabalhos considerados indignos e depreciativos. Alguns chegam a ser vítimas de trabalhos forçados. Outra maneira de hostilizar os seguidores de Jesus é através da lei da blasfêmia, em que muitos são acusados, presos e até sentenciados à morte por não concordarem com as histórias e os valores islâmicos, como aconteceu com a cristã Ásia Bibi

 


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