O comportamento fundamentalista dos "politicamente corretos"

| 24/11/2007 - 00:00


Conseguir explicar a realidade sem o recurso ao divino é considerada uma das grandes conquistas das sociedades modernas que permitiu relegar as religiões para um plano diferente, designadamente da política e da economia. O papel das religiões na vida pública voltou, porém, a ser tema de atualidade no mundo ocidental neste início de século. A "The Economist" acaba de publicar um suplemento especial, e em Portugal terminou na quarta-feira um ciclo de conferências sobre o assunto, co-organizado pela organização cívica portuguesa SEDES e pela Universidade Católica.

Vítor Bento, presidente da organização cívica portuguesa SEDES, economista e presidente da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS) - empresa que gere a rede do Multibanco - foi um dos dinamizadores do debate, ao lado de nomes como o ex-presidente de Portugal, Mário Soares. Na entrevista abaixo, ele destaca os principais pontos da conferência sobre "O Papel das Religiões para o Mundo no Século XXI".

A Ciência ao ir tão longe, com os desenvolvimentos na genética, na clonagem, que mexem com os "limites" da ação humana, não terá ela própria também "ressuscitado" a religião?

É verdade que a Ciência revelou um progresso notável, melhorou muito o nosso entendimento do mundo e desvendou muitos dos segredos de que a religião se alimentou. Mas não responde a tudo. E por muito que progrida, há sempre respostas que ficam por dar. Consegue arranjar uma explicação plausível para o "big bang", mas deixa por explicar o que aconteceu antes.

Logo, a Ciência não conseguirá eliminar por completo o espaço da crença, da fé. Por outro lado, a Tecnologia, fruto da Ciência, acelerou muito o ritmo de mudança do mundo e, desse modo, criou um paradoxo interessante. Desenvolvendo-se para aumentar o campo das certezas, acabou, pela espiral de mudança que alimenta, por aumentar muito a incerteza com que se vive.

As pessoas confrontam-se hoje, num mundo de certezas científicas, com grandes incertezas acerca da sua existência e da sua vida. Ficaram, talvez, mais intranqüilas quanto ao futuro. E essa intranqüilidade abre espaço à procura do conforto da religião.

O que se encaixa nas religiões laicas?

Grande parte dos comportamentos sociais tem um componente "religioso" muito forte. Grande parte da nossa estrutura de conhecimento é adquirida pela fé - entendida no sentido lato, de confiança. Por outro lado, toda a nossa racionalidade assenta num conjunto de crenças, a partir das quais elabora.

Por isso, pessoas igualmente inteligentes e informadas sustentam diferentes visões do mundo e da sociedade. É claro que a maioria de nós, ou pelo menos boa parte, tem a preocupação de sujeitar as suas crenças a testes de plausibilidade, usando a razão como filtro, o que aliás já era recomendado por Santo Agostinho.

Comparando com o mundo islâmico e com a própria América, a Europa parece ser uma espécie de último reduto do laicismo...

Mas não deixa de ser religiosa, no sentido laico que atrás referi. Veja o fanatismo com que se tratam certos assuntos. A obsessão com o politicamente correto é um comportamento tipicamente religioso e, o que é mais grave, fundamentalista.

Hoje em dia, muitas opiniões, politicamente incorretas, são tratadas como autênticas blasfêmias, sendo mesmo sujeitas a condenações penais, como com qualquer fundamentalismo religioso, não sendo inusitado assistir-se a verdadeiros processos inquisitoriais a quem sai da ortodoxia do pensamento politicamente correto. Isso não é diferente do comportamento que a religião tinha na Idade Média.

Mas a liberdade tem limites. O politicamente correto é assim tão condenável?

Tem a parte má das religiões, que é o fundamentalismo. Relativamente ao politicamente correto, há hoje comportamentos de uma duplicidade que não deveriam escapar ao filtro de uma razão atenta. Veja-se, por exemplo, o extremo cuidado em lidar com os símbolos do Islã, ao mesmo tempo que se achincalham publicamente os símbolos do cristianismo, apelidando esse achincalhamento de arte ou liberdade de expressão.

Se houvesse bom senso e prevalecesse a razão e a decência, o comportamento normal seria evitar ofender gratuitamente os outros, fossem islâmicos ou cristãos e ambas as ofensas tenderiam a ser repudiadas.

Não é reflexo da maior tolerância das sociedades ocidentais?

Não, porque é enviesada. Ou os crentes cristãos merecem menos respeito do que os crentes muçulmanos? Ou os muçulmanos são considerados menos inteligentes e por isso precisam de condescendência? Claro que não. O que todos merecem é respeito. Uma blasfêmia ofende um crente naquilo que lhe é mais profundo.

Tolerância é respeitar o que é importante para os outros. Se os símbolos religiosos são importantes para outros, devem ser respeitados, em qualquer circunstância que não ofenda alguns princípios fundamentais, como a liberdade e a dignidade humana.

Aliás, uma das conseqüências da perda de importância das religiões organizadas foi a perda de uma âncora moral para os comportamentos sociais, levando à prevalência de um relativismo moral que conduz à sucessiva degradação dos padrões morais. O laxismo moral é, por exemplo, uma falha grave que os seguidores do Islã apontam às sociedades ocidentais.

A dinâmica demográfica na Europa pode, a prazo, tornar o Islã preponderante.

É perfeitamente possível. Do ponto de vista das conseqüências políticas, o problema que o Islã coloca é o ser concebido como um compacto político-religioso que sujeita a política à religião, tornando esta o principal guia político. Veja-se, por exemplo, a defesa da sujeição do sistema penal do Estado à "sharia".

A forma de vida política que hoje temos no Ocidente, resultou muito de o cristianismo ter aceito intelectualmente a separação entre a esfera política e a esfera religiosa. De acordo com essa concepção, foi possível deixar que a política, imperfeita por natureza, fosse uma atividade terrena, da esfera dos homens, enquanto a Igreja se ocupa dos assuntos de Deus e da salvação dos homens.

Foi pelo caminho assim aberto que se chegou à separação entre o Estado e a Igreja - que não implica necessariamente um Estado hostil à Igreja ou aos crentes, ou que os dirigentes políticos tenham convicções religiosas. O Islã foi, em tempos remotos, extremamente rico do ponto de vista intelectual, com uma produção científica e filosófica, sem paralelo no seu tempo. Mas a partir do século XII, o pensamento de Al-Ghazali ajudou a consolidar uma visão inflexível sobre a literalidade da mensagem revelada, o que praticamente eliminou a possibilidade de reflexão filosófica ou teológica mais aberta. Foi a partir daí que o Islã se fechou sobre si próprio e perdeu a liderança cultural.

Acha possível que a religião regresse abertamente à política e à economia no mundo ocidental?

Não sei prever isso. Mas, quanto mais não seja por razões demográficas, a religião e o papel de Deus vão ter mais importância no futuro, porque os países ou os grupos sociais que hoje são mais religiosos, têm uma dinâmica demográfica mais forte. E essa dinâmica e as suas conseqüências vão ser sentidas na Europa através das migrações.

O que devia levar os intelectuais a refletirem é precisamente o que leva hoje as pessoas, em muitas sociedades, a procurarem refúgio na religião e a darem cada vez mais importância política aos valores religiosos.

Talvez porque encontram na religião resposta para os problemas existenciais - incluindo os da vida prática - que a organização laica não consegue dar. Por exemplo, uma das razões que tem levado a uma papel socialmente mais ativo do Islã em certas comunidades foi o de ter assegurado redes de assistência social e de educação, capazes de suprir a incapacidade dos Estados nesse campo.

Leia a íntegra da entrevista aqui.


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