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Síria

SY
Síria
  • Tipo de Perseguição: Paranoia ditatorial, opressão islâmica, opressão do clã, corrupção e crime organizado, protecionismo denominacional
  • Capital: Damasco
  • Região: Oriente Médio
  • Líder: Bashar al-Assad
  • Governo: República presidencialista
  • Religião: Islamismo, cristianismo, druso, judaísmo
  • Idioma: Árabe, curdo, armênio, aramaico, circassiano, francês, inglês
  • Pontuação: 81


POPULAÇÃO
18,9 MILHÕES


POPULAÇÃO CRISTÃ
677 MIL

Como é a perseguição aos cristãos na Síria? 

A contínua guerra civil na Síria tornou o país um terreno fértil para a perseguição aos cristãos. A agitação, que estava começando a diminuir, foi exacerbada pela crise econômica causada pela COVID-19. Muitos cristãos ainda estão deslocados internamente ou são refugiados em outros países como resultado de uma década de guerra e do crescente extremismo islâmico. No Norte da Síria, a invasão das forças turcas no final de 2019 causou maior instabilidade e parece ter sido usada por alguns extremistas islâmicos como disfarce para atacar os cristãos. 

Em áreas controladas por grupos extremistas islâmicos, as expressões públicas do cristianismo são proibidas e a maioria das igrejas foi fechada ou destruída. Em áreas controladas pelo governo essa ameaça é menor – mas ainda há sequestros de jovens cristãos por dissidentes islâmicos, inclusive militantes do Estado Islâmico ainda ativos. 

Cristãos ex-muçulmanos são vulneráveis à pressão da família e comunidade, que consideram a conversão ao cristianismo como desonra 

“Vejo homens, mulheres e crianças chorando de fome. É trágico. Nossa igreja percebeu que era o momento de apoiar as pessoas e mostrar o amor de Jesus em tempos difíceis.”  

Pastor George, cristão perseguido na Síria 

O que mudou este ano? 

A perseguição continua extrema na vida pública e privada dos cristãos na Síria, embora haja uma leve tendência de diminuir a pressão sobre os cristãos. Isso é um reflexo da diminuição do território dominado por grupos extremistas islâmicos. A pandemia exacerbou muitas vulnerabilidades já existentes. A pressão pública sobre os cristãos continuou a aumentar, embora eles tenham enfrentado um pouco menos de pressão da família e comunidade. 

Houve menos relatos de violência, seguindo uma tendência dos últimos dois anosembora as ameaças de ataque, sequestro e casamento forçado permanecerem constantes. 

Quem persegue os cristãos na Síria 

O termo tipo de perseguição é usado para descrever diferentes situações que causam hostilidade contra cristãos. Os tipos de perseguição aos cristãos da Síria são: paranoia ditatorial, opressão islâmica, opressão do clã, corrupção e crime organizado, protecionismo denominacional.

Já afontes de perseguição são os condutores/executores das hostilidades, violentas ou não violentas, contra os cristãos. Geralmente são grupos menores (radicais) dentro do grupo mais amplo de adeptos de uma determinada visão de mundo. As fontes de perseguição aos cristãos na Síria são: grupos religiosos violentos, grupos paramilitares, oficiais do governo, partidos políticos, parentes, cidadãos e quadrilhas, líderes de grupos étnicos, líderes religiosos não cristãos, redes criminosas, líderes religiosos cristãos.

Quem é mais vulnerável à perseguição na Síria? 

Os cristãos estão particularmente sob pressão nos últimos locais controlados por militantes islâmicos na província de Idlib, no Noroeste, e na província de Hasakah, no Nordeste. No território, o Estado Islâmico, o exército da Turquia ou grupos de oposição apoiados pelos turcos continuam a atacar alvos civis e religiosos. Assim sendo, os cristãos ex-muçulmanos são vulneráveis a várias formas de perseguição violenta e não violenta em todo o país, mas são particularmente vulneráveis no Noroeste e Nordeste. 

Como as mulheres são perseguidas na Síria? 

Mulheres e meninas cristãs na Síria enfrentam perseguição tanto de militantes islâmicos quanto, se forem de origem muçulmana, da própria família. A guerra na Síria diminuiu, mas não acabou, e as mulheres são particularmente vulneráveis a ataques sexuais em áreas controladas por rebeldes. Em alguns locais, a violência sexual contra as mulheres se tornou normalizada.  

As cristãs ex-muçulmanas costumam manter a nova fé em segredo. Se a fé for descobertaelas ficam vulneráveis a crimes de honra”, cometidos pela família muçulmana, também enfrentam uma extrema pressão para retornar ao islã. Na prática, a lei pouco faz para proteger mulheres e meninas da violência familiar. 

Na Síria, é ilegal para uma mulher ex-muçulmana se casar com um homem cristão histórico. Se uma mulher se converte enquanto é casada com um homem muçulmano, é provável que ela se divorcie e perca o acesso aos filhos. Segundo a sharia (conjunto de leis islâmicas), todos os direitos vão para o cônjuge muçulmano 

Como os homens são perseguidos na Síria? 

Os homens são os responsáveis pelo sustento financeiro e proteção da família na sociedade síria. Por isso, se um cristão sírio é morto, sequestrado ou perde o emprego (como aconteceu amplamente durante a pandemia), toda a família sofre as consequênciasAlém disso, os líderes das igrejas costumam ser alvos de sequestro, o que afeta toda a comunidade. 

O que a Portas Abertas faz para ajudar os cristãos na Síria? 

Os parceiros da Portas Abertas na Síria estão apoiando e fortalecendo a igreja por meio da distribuição de Bíblias, discipulado e treinamento de liderança, aconselhamento pós-trauma e apoio e reabilitação para cristãos deslocados internamente e refugiados. 

Como posso ajudar os cristãos perseguidos? 

Além de orar por eles, você pode ajudar de maneira prática doando para projetos que apoiam cristãos perseguidos. Com uma doação para esta campanha, você garante a sobrevivência das famílias que recebem cestas básicas nos Centros de Esperança da Síria. 



Pedidos de oração da Síria 

  • Ore para que os cristãos sírios possam voltar para as casas, famílias, comunidades e trabalhos, e pela restauração contínua de Deus para aqueles que já retornaram. 
  • Clame para que os cristãos sírios sejam a luz da esperança no território, proporcionando conforto e sabedoria para aqueles que estão sofrendo de traumas ou por falta de alimento e recursos. 
  • Interceda para que os cristãos encontrem nova alegria, força e esperança ao meditar na palavra de Deus 

Um clamor pela Síria 

Senhor, obrigado por estar com a igreja na Síria durante todas as dificuldades da última década. Oramos para que continue a mostrar seu amor por aqueles que sofreram tanto. Traga unidade e alegria para os cristãos que tiveram que deixar suas casas e console todos aqueles que choram. Que a Síria se torne um país onde o seu nome seja glorificado.  

Após o colapso do Império Otomano, a Síria obteve independência em 1946, mas não teve estabilidade política e enfrentou vários golpes militares. Em 1958, a Síria uniu-se ao Egito para formar a República Árabe Unida. Os dois países se separaram três anos e meio depois e a República Árabe da Síria foi restabelecida. 

A Síria perdeu a região das Colinas de Golã para Israel durante a Guerra dos Seis Dias ou Guerra Árabe-Israelense de 1967. A estabilidade política ocorreu quando Hafiz al-Assad, do partido socialista Baath, assumiu o poder em 1970 e governou como presidente até sua morte em 2000. Seu filho, Bashar al-Assad, foi então nomeado presidente pelo referendo popular, e novamente para um segundo mandato em 2007. 

Em março de 2011, começaram os protestos contra o governo que se transformaram em uma guerra civil. As raízes do conflito são complexas e incluem combate de classe, divisões rurais/urbanas e liberdade política reprimida. 

Isso explica por que a situação se espalhou tão rapidamente e evoluiu para um conflito de identidade sectária. O governo respondeu à agitação inicialmente com concessões e algumas novas leis, por exemplo, permitindo novos partidos políticos. No entanto, em pouco tempo, recorreu à força militar que se deparou com uma ampla atividade de oposição armada. A batalha atraiu jihadistas estrangeiros e, em junho de 2014, o grupo radical muçulmano Estado Islâmico (EI) estabeleceu seu califado em grandes regiões da Síria e Iraque, com Raca, na Síria, como sua capital. Em 2016 e 2017, o EI perdeu a maioria de seu território devido à intervenção militar do Ocidente e da Rússia. No entanto, bolsões da presença do EI, inclusive de outros grupos radicais, ainda são encontrados no país. 

Cerca de 25 mil combatentes do Exército Sírio Livre, muitos dos quais são islamistas endurecidos pela batalha, estavam lutando ao lado de tropas regulares turcas e forças especiais quando tomaram as áreas em torno da cidade de Afrin, em março de 2018, para forçar a saída de rebeldes curdos que dominavam a área. A analista e defensora da liberdade religiosa internacional, Elizabeth Kendal, relata no Boletim da Liberdade Religiosa e Oração de março de 2018: “Centenas de civis foram mortos e feridos; muitos milhares estão, agora, deslocados do que há muito tempo era um dos grandes portos seguros da Síria”. Fontes locais relatam que “jihadistas aliados da Turquia estão caçando minorias religiosas [cristãos e outros] para matá-los no Noroeste da Síria [e] ao longo de sua fronteira”. 

A maior parte do país está agora sob controle do governo, com exceção da província de Idlib, a província de Alepo Ocidental, a região norte da província de Hama e o Nordeste. Atualmente, essas áreas restantes são controladas pelas forças turcas, pela Coalizão Global, grupos islâmicos ou autoridades curdas. Em janeiro de 2019, os jihadistas assumiram o controle da cidade estratégica de Idlib, no Noroeste. Os combates se intensificaram ao longo de 2019, matando centenas de civis e deslocando centenas de milhares. Enquanto isso, o grupo Estado Islâmico (EI) continuou atacando alvos civis no Nordeste, mesmo depois que seu último bastião no Leste foi tomado pelas forças lideradas pelos curdos, em março de 2019. 

Uma incursão liderada pela Turquia ocorreu ao Norte da Síria em outubro de 2019, após os Estados Unidos retirarem suas tropas das linhas de frente. Essa medida foi fortemente condenada pela Organização Democrática Assíria, que registrou 160 famílias cristãs deslocadas pelos combates. Desenvolvimentos subsequentes são a retomada da região curda semiautônoma pelo exército sírio e o acordo de 22 de outubro de 2019 entre a Turquia e a Rússia sobre uma zona de segurança no Norte da Síria. 

Os principais desenvolvimentos mais recentes são as operações bem-sucedidas do governo e as forças russas que capturaram territórios de rebeldes na província de Idlib no final de 2019 e começo de 2020. Um cessar fogo foi acordado entre a Rússia e a Turquia em março, após o agravamento dos conflitos em fevereiro de 2020, que interromperam o avanço militar do regime em direção à cidade de Idlib. O acordo frágil foi forçado por ataques jihadistas assim como ataques aéreos russos no Nordest nos meses seguintes. 

Em julho de 2020, o presidente Bashar al-Assad venceu as eleições parlamentares apesar dos protestos contra as graves condições econômicas. 

CENÁRIO POLÍTICO E LEGAL 

Bashar al-Assad, no poder desde que sucedeu o pai, em 2000, conquistou um quarto mandato com 95,1% dos votos na eleição de maio de 2021, que estenderá seu domínio sobre um país arruinado pela guerra. Ele herdou uma estrutura política firmemente controlada e repressiva do pai, o ditador de longa data Hafez al-Assad, com um círculo interno dominado por membros da comunidade minoritária xiita alawita da família Assad. A Economist Intelligence Unit (EIU) classifica o governo sírio como autoritário. 

O principal objetivo do governo é garantir a estabilidade social, em vez de proteger as minorias religiosas, inclusive os cristãos. O governo age principalmente contra os cristãos e qualquer outro grupo que seja considerado uma ameaça ao status quo pelas autoridades ou por qualquer outra entidade local; evangelização ou trabalho da igreja focado no contato com os muçulmanos poderia ser considerado uma ameaça. Devido à guerra, houve uma redução no monitoramento dos cidadãos pelas autoridades. No entanto, desde que o governo recuperou o domínio, a vigilância também está voltando.  

Na Síria, corrupção e crime organizado se desenvolvem no contexto de impunidade e anarquia gerados pela guerra civil. A corrupção é generalizada e também afeta o acesso a comida e sistema de saúde. É um meio de autoenriquecimento; um exemplo é o sequestro por resgate, que cristãos de várias denominações têm experimentado. Por trás do sequestro de cristãos há interesses financeiros, políticos e ideológicos. Os cristãos têm a reputação de serem ricos e de apoiarem o regime. O fato de serem parte de uma minoria vulnerável também exerce seu papel nos sequestros, pois os cristãos não têm poder político nem conexões com altas autoridades e são, portanto, “presas fáceis”. 

A oposição síria é cada vez mais dada à “islamização”, e a guerra civil assumiu a forma de uma “jihad” contra o governo sírio. O estabelecimento do califado do Estado Islâmico (EI) em junho de 2014 acelerou ainda mais esse desenvolvimento. Em 2016, o país perdeu grandes partes de seu território como resultado da intervenção internacional. Em março de 2019, seu último território no Leste da Síria caiu. A posição do governo sírio parece segura e claramente se beneficiou com o apoio contínuo da Rússia e do Irã. 

Os combates continuam particularmente em áreas próximas à linha de frente, onde o território controlado pelo governo faz fronteira com áreas controladas por milícias rebeldes. Os cristãos estão sendo pegos no fogo cruzado da luta entre tropas governamentais e rebeldes. Os indicadores políticos do Fragile States Index (FSI) mostram que a situação na Síria permanece altamente volátil, com os Direitos Humanos, as intervenções externas e a legitimidade do Estado sendo classificados da pior forma possível. 

O Relatório de 2019 sobre Liberdade Religiosa Internacional (IRF, da sigla em inglês) do Departamento de Estado dos Estados Unidos descreve o quadro jurídico sírio da seguinte forma: “A Constituição declara que o Estado deve respeitar todas as religiões e garantir a liberdade de realizar rituais religiosos, desde que isso não perturbe a ordem pública. Não existe religião oficial do Estado, embora a Constituição declare que a religião do presidente da república é o islã. A Constituição declara que a jurisprudência islâmica deve ser uma importante fonte de legislação. A Constituição declara que ‘[questões] do status pessoal das comunidades religiosas devem ser protegidas e respeitadas’ e ‘os cidadãos são iguais em direitos e deveres, sem discriminação entre eles em razão de gênero, origem, idioma, religião ou credo’. Os cidadãos têm o direito de processar o governo se acreditarem que ele violou seus direitos”. 

A conversão ao islamismo é permitida, mas deixar o islã é proibido. O proselitismo é restrito por lei. Em relação às áreas no país onde a oposição ou os grupos islâmicos militantes estão no controle, o relatório da IRF 2019 afirma que “tribunais irregulares e autoridades locais aplicam uma variedade de códigos legais não oficiais com diversas disposições relacionadas à liberdade religiosa”. 

Os cristãos na Síria sofrem com as guerras e deslocamentos em curso, deixando-os mais vulneráveis e sem proteção. Questões que os cristãos sírios destacam em particular é a contínua ausência de segurança, falta de necessidades básicas e trabalho para possibilitar os meios de subsistência. 

Nas circunstâncias caóticas da guerra, muitas vezes não está claro se os incidentes ocorridos têm motivação religiosa ou não. Os motivos costumam ser mistos e incluem mecanismos de poder. No entanto, isso não exclui necessariamente a motivação anticristã. 

CENÁRIO RELIGIOSO 

A Síria é um país majoritariamente muçulmano: de acordo com o CIA World Factbook, 74% de todos os muçulmanos são sunitas e 13% são alawitas, ismaili e xiitas. Uma das principais características da população cristã na Síria é a sua identidade étnica e religiosa complicada. A concentração geográfica dos cristãos em áreas estratégicas também tem sido um fator importante na sua vulnerabilidade: áreas como Alepo e Damasco e suas circunvizinhanças e áreas do Sul, em Homs, perto da fronteira do Líbano, foram vitais para o governo e os esforços de guerra da oposição. 

Middle East Concern relata: “As comunidades cristãs da Síria enfrentam vários desafios no contexto do conflito atual. Na maior parte do país que está sob controle do governo, os cristãos gozam de boa reputação na sociedade, embora algumas restrições se apliquem às comunidades cristãs reconhecidas, especialmente às atividades que podem ser interpretadas como proselitismo. A concessão de maiores poderes ao Ministério de Doações Religiosas, em outubro de 2018, para impedir o extremismo e promover a moderação, levou alguns líderes cristãos a expressarem preocupação de que um maior alcance das autoridades islâmicas ameace outros grupos religiosos”. 

Dos que fugiram de áreas controladas pelo governo, incluindo cristãos, muitos o fizeram para evitar o recrutamento militar. Uma suposição comum de que os cristãos são pró-governo (geralmente correta, principalmente por causa do medo de alternativas) contribui para a tolerância nas áreas do governo, mas aumenta a vulnerabilidade dos cristãos nas áreas controladas por grupos de oposição. Poucos cristãos permanecem em áreas controladas pela oposição, onde a violência inclui ataques contra cristãos, propriedades e igrejas. O deslocamento em massa de cristãos não foi revertido após a derrota militar do Estado Islâmico em seus redutos em Raca e Deir ez-Zour no final de 2017, e cinco líderes cristãos sequestrados por grupos islâmicos radicais em 2013 permanecem desaparecidos. 

Nas áreas predominantemente curdas, as comunidades cristãs nativas têm condições de vida razoáveis, embora alguns líderes da igreja tenham manifestado preocupação de que a afirmação agressiva da identidade curda às vezes tenha sido marginalizada ou coercitiva em relação às comunidades cristãs. 

Como resultado da crise na Síria, muitas pontes foram construídas entre comunidades de igrejas históricas e grupos não tradicionais. Essas pontes foram construídas por meio de interação pessoal entre padres e pastores. No entanto, a liderança mais velha de várias igrejas históricas é resistente a essas pontes com igrejas não tradicionais. Ela acusa alguns cristãos não tradicionais de trair a nação ao se unir às agendas políticas do Ocidente, tornando-os suspeitos aos olhos das autoridades. Além disso, houve relatos de muitos líderes de igrejas históricas não reconhecerem cristãos ex-muçulmanos, de forma oficial ou não. 

Em todas as áreas há forte pressão familiar e social contra aqueles que optam por deixar o islã e, em casos extremos, essas respostas são violentas. Os considerados apóstatas podem enfrentar sanções de status pessoal nos tribunais da sharia (conjunto de leis islâmicas), como divórcio forçado e remoção da guarda dos filhos. Aqueles que optam por deixar o islã são especialmente vulneráveis em áreas controladas pela oposição. 

Devido à exposição pública, principalmente os líderes das igrejas históricas são alvo de sequestro. Mas as congregações também estão em uma posição vulnerável, pois são conhecidas pela orientação ocidental, a fragmentação, a falta de liderança forte e a falta de um porta-voz estrangeiro, como um bispo, que possa falar em seu nome. 

Em áreas controladas por grupos islâmicos radicais, a maioria das igrejas históricas foi demolida ou usada como centros islâmicos. As expressões públicas da fé cristã são proibidas e os prédios da igreja não podem ser reparados ou restaurados, independentemente de o dano ter sido colateral ou intencional. Nas áreas controladas pelo governo, há menos monitoramento de cristãos devido às circunstâncias da guerra. A reputação política das denominações, das igrejas e dos líderes locais desempenha um papel importante no nível de perseguição ou opressão que enfrentam de grupos que estão lutando contra o presidente Assad. 

Os cristãos tinham uma quantidade relativamente grande de liberdade religiosa na Síria antes da guerra civil. Isso mudou com a chegada de grupos islâmicos militantes. O Estado Islâmico (EI) estabeleceu seu califado cobrindo grande parte da Síria e do Iraque no final de junho de 2014 e uma versão estrita da sharia foi implementada. A maioria dos cristãos fugiu de áreas controladas pelo EI, mas desde o início de 2016, o grupo começou a perder cada vez mais seu território. O califado do EI foi finalmente eliminado em março de 2019. No entanto, a ameaça de ações de vingança do grupo ainda existe, à medida que continua a realizar ataques sofisticados em grande parte da Síria. Atualmente, militantes islâmicos controlam menos de 15% do território da Síria. 

CENÁRIO ECONÔMICO 

Após dez anos de conflito e crise humanitária, o Banco Mundial classifica a Síria como uma economia de baixa renda, com a ONU estimando que um terço da população permanece com insegurança alimentar. A ReliefWeb resume o estado atual da crise da seguinte forma: “Estima-se que 11,7 milhões de pessoas precisam de várias formas de assistência humanitária. [...] Estima-se que 6,2 milhões de pessoas continuam deslocadas internamente. [...] A ONU estima que 25% dos deslocados internos são mulheres em idade reprodutiva e 4% são mulheres grávidas que necessitam de serviços de saúde materna, inclusive atendimento obstétrico de emergência”. Muitos programas humanitários e de assistência continuam subfinanciados. 

Existe pobreza generalizada devido ao desemprego, baixos salários e desvalorização da libra síria. Os cristãos também enfrentam alta taxa de desemprego e são altamente dependentes da ajuda humanitária. Os preços de alimentos, necessidades básicas e suprimentos médicos são elevados devido ao aumento dos riscos de distribuição. A maioria dos cristãos deixados no país é pobre e corre o risco de desnutrição. No entanto, para muitos, eles são considerados ricos e apoiadores do governo de Assad, o que contribui para a sua vulnerabilidade, posto que como não muçulmanos eles já são parte de uma minoria frágil. 

A análise da Economist Intelligence Unit (EIU) sobre a economia síria afirma: “A reconstrução está começando em áreas controladas pelo regime, bem como em algumas áreas de controle parcial da Turquia em Alepo, aumentando as perspectivas econômicas”. 

 CENÁRIO SOCIOCULTURAL 

A sociedade síria é etnicamente diversa, mas era caracterizada pela presença de uma classe média significativa. Essa classe foi bastante diminuída, juntamente com seus valores culturais e estilo de vida. A vida diária agora é dominada pela sobrevivência, e a guerra em curso leva a uma tensão emocional considerável na sociedade, alcançando altos níveis de medo, insônia, depressão, agressão nas famílias e abuso de drogas. Os cristãos locais relataram o colapso dos relacionamentos normais nas famílias e a necessidade de prevenção de trauma e apoio social. Os indicadores sociais do Fragile States Index (FSI) mostram uma leve melhora nas pressões demográficas, mas as necessidades dos deslocados internos permanecem nos níveis mais extremos possíveis. 

Cristãos ex-muçulmanos são pressionados pela família, pois a conversão lhes traz uma grande desonra. Isso é particularmente verdadeiro em boa parte das áreas sunitas, onde os convertidos correm o risco de serem expulsos das casas de seus familiares. A pressão da família é menor nas áreas curdas, pois os curdos sunitas são geralmente menos radicais. De fato, no Norte de Alepo há comunidades cristãs curdas reconhecidas. 

O tribalismo é caracterizado pela lealdade à própria tribo ou família e pelas antigas normas e valores que elas incorporam. Como em muitos países do Oriente Médio, o tribalismo na Síria está muito misturado com o islã e afeta especialmente os cristãos ex-muçulmanos. A força e a existência desse mecanismo variam de acordo com a região e o tamanho das cidades. O tribalismo é especialmente forte nas áreas curdas no Norte e nas áreas desérticas no Centro da Síria. 

Nas áreas curdas, a etnia é um fator importante na luta entre os turcos e os curdos. Segundo informações, as forças turcas que tomaram as áreas noroeste e principalmente curdas em torno de Afrin, em março de 2018, supostamente usaram “jihadistas de linha-dura, incluindo militantes do Estado Islâmico e da Al-Qaeda, para eliminar a presença de curdos e outras minorias étnicas e religiosas ao longo de sua fronteira”. Essas minorias religiosas incluem cristãos, a maioria dos quais são armênios e assírios.  

Cerca de 2 milhões de crianças em idade escolar não conseguem obter educação como resultado da guerra, o que leva a riscos elevados de analfabetismo. No entanto, em comparação com anos anteriores, mais crianças entraram na escola em 2019, conforme menos áreas foram afetadas por confrontos. As crianças cristãs são particularmente vulneráveis, pois muitas escolas cristãs foram fechadas ou danificadas e as crianças precisaram frequentar escolas governamentais islâmicas. 

Jovens, principalmente homens, estão deixando o país. Como consequência, a diferença de idade emergente está contribuindo para a crise econômica. A geração jovem está partindo não apenas na esperança de encontrar melhores perspectivas para o futuro, mas também para evitar o serviço militar obrigatório. 

O Relatório do Freedom of Thought destaca especialmente a vulnerabilidade das mulheres: a violência contra mulheres, como o estupro, é usada como arma de guerra. Nos campos de refugiados, a violência doméstica e a exploração sexual estão aumentando. Os cristãos locais relatam que a proporção de homens e mulheres na Síria é de um para sete e no contexto da igreja a diferença pode ser ainda maior. Além da pobreza e da falta de homens jovens disponíveis para o trabalho, as mulheres cristãs estão sob pressão para encontrar trabalho e são vulneráveis à exploração e abuso. Nas áreas sunitas mais conservadoras, geralmente as mulheres não têm a oportunidade de preencher essa lacuna na força de trabalho. 

Além disso, a escassez de água e o saneamento precário ameaçam a vida de milhões de crianças e adultos sírios. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, acessado em 18 de setembro de 2020, por toda a Síria, cerca de 11,1 milhões de pessoas ainda precisam de assistência humanitária, tornando-se uma das maiores crises humanitárias do mundo. 

De acordo com a Agência da ONU para Refugiados, cerca de 6,2 milhões de sírios estão deslocados internamente, mais de um terço deles são crianças, e mais de 5,6 milhões estão registrados oficialmente como refugiados. O aumento das hostilidades no noroeste da Síria resultou no desabrigamento de mais de 950 mil pessoas desde o final de 2019. 

A igreja está presente na Síria desde o tempo do Novo Testamento, onde a conversão de Saulo/Paulo é mencionada no caminho de Damasco (em Atos 9). O apóstolo Paulo foi inicialmente parte da igreja em Antioquia, onde os discípulos de Jesus foram chamados cristãos pela primeira vez. Ao longo dos séculos seguintes, o cristianismo se espalhou por todas as partes da Síria. 

O Novo Testamento confirma que as cidades sírias de Damasco e Antioquia tinham comunidades cristãs. A fé cristã se espalhou rapidamente e no Concílio de Nicéia, em 325 d.C., 22 bispos sírios estavam presentes. Houve também perseguição: o bispo Inácio de Antioquia (que morreu em 115 d.C. em Roma) é apenas um exemplo de muitos mártires. 

O idioma do cristianismo na Síria era o siríaco (aramaico). Muitos cristãos sírios seguiram a forma jacobita do cristianismo, que foi condenada como herética no Conselho de Calcedônia (451), mas a igreja “grega” também permaneceu popular na Síria. 

Foi no século 7, quando o cristianismo ainda era a religião majoritária na Síria, que o califa Omar demitiu funcionários cristãos e seu sucessor obrigou-os a se vestir de forma diferente dos outros. Um século depois, o califa Abbasid al-Mahdi forçou os cristãos árabes da tribo tannukh a se converterem ao islamismo. Em Homs, os cristãos se revoltaram em 855 d.C. e seus líderes foram crucificados nos portões da cidade. No século 9, o islã ganhou vantagem, muitas igrejas se tornaram mesquitas e, por volta de 900 d.C., aproximadamente metade da população síria era muçulmana. 

Os séculos 12 e 13 foram marcados por problemas que os cristãos experimentaram em áreas controladas alternadamente por exércitos dos cruzados e muçulmanos. Em 1124, a catedral de Alepo foi transformada em uma mesquita. Em 1350, o cristianismo tornou-se uma religião minoritária: de uma população de um milhão, apenas 100 mil eram cristãos. A queda de Constantinopla e a ocupação otomana da Síria foram obstáculos para reunir a igreja no século 15. No entanto, no século seguinte, os cristãos ortodoxos, jacobitas e armênios foram reconhecidos pelo sultão otomano como comunidades independentes com seus próprios tribunais e leis. 

Em 1516, a região tornou-se parte do Império Otomano e permaneceu assim até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando tropas árabes e britânicas finalmente derrotaram os governantes turcos na região. Isso terminou com um século de grandes incidentes de perseguição aos cristãos. Em 1860, 25 mil cristãos foram mortos em Damasco em três dias. Naquela época, os primeiros missionários protestantes americanos estavam trabalhando na Síria, com foco na criação de escolas, ministérios médicos e distribuição de literatura. Cerca de meio século depois, a partir de 1915, um grande número de armênios fugiu, ou foi deportado, para a Síria durante os massacres generalizados de aproximadamente 1,5 milhão de armênios e meio milhão de cristãos assírios na Turquia. 

Em 1920, a Síria se tornou um território sob domínio francês. Naquela época, recebeu seu nome e fronteiras atuais, exceto as Colinas de Golã. Tornou-se totalmente independente em 1946. Politicamente, o país foi marcado por instabilidade. Um problema da Síria é que é formada por uma colcha de retalhos de grupos religiosos. Hafiz al-Assad governou a Síria de 1970 a 2000 com braço de ferro, forçando-a a se tornar secular e a modernizar a economia.  

Ao longo dos séculos, a igreja cristã na Síria passou — e ainda passa — níveis consideráveis de perseguição. Devido aos níveis de perseguição, conversão forçada e emigração, os cristãos formam agora menos de 5% da população. 

Há 9 anos em guerra, a Síria precisa de esperança e paz

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