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Egito

EG
Egito
  • Tipo de Perseguição: Paranoia ditatorial, opressão islâmica e opressão do clã
  • Capital: Cairo
  • Região: Norte da África
  • Líder: Abdel Fattah al-Sisi
  • Governo: República presidencialista
  • Religião: Islamismo, cristianismo
  • Idioma: Árabe, inglês e francês
  • Pontuação: 75


POPULAÇÃO
102,9 MILHÕES


POPULAÇÃO CRISTÃ
16,2 MILHÕES

Como é a perseguição aos cristãos no Egito? 

A perseguição aos cristãos no Egito acontece principalmente no nível da comunidade. Os incidentes ocorrem com mais frequência no Alto Egito, parte sul do paísonde os movimentos salafistas exercem uma forte influência nas comunidades rurais devido aos altos níveis de analfabetismo e pobreza. Os incidentes podem variar desde mulheres cristãs sendo assediadas enquanto caminham na rua até comunidades cristãs expulsas de casa por multidões extremistas. 

A Universidade Al-Azhar, uma das universidades islâmicas mais influentes do mundo, tem um lugar de destaque na sociedade egípcia e até mesmo na Constituição. O grande imã Ahmed el-Tayyeb da universidade afirmou claramente que não há lugar no islã para que os muçulmanos se convertam ao cristianismo. 

Embora o governo do Egito fale positivamente sobre a comunidade cristã do país, a falta de aplicação da lei de modo sério e a relutância das autoridades locais em proteger os cristãos os deixam vulneráveis a todos os tipos de ataques, especialmente no Alto Egito. Devido à natureza ditatorial do regime, nem os líderes da igreja nem outros cristãos estão em posição de se pronunciar contra essas práticas. 

Além disso, em contraste com a forma como as mesquitas e organizações islâmicas são tratadas, as igrejas e organizações não governamentais cristãs têm sua capacidade de construir novas igrejas ou administrar serviços sociais restrita. Cristãos de todas as origens enfrentam dificuldades em encontrar novos lugares para o culto comunitário. As dificuldades vêm tanto das restrições do Estado quanto da hostilidade comunitária e da violência das multidões. 

Os cristãos de origem muçulmana muitas vezes têm grande dificuldade em viver de acordo com a fé, pois enfrentam uma enorme pressão da família para retornar ao islã. O Estado também torna impossível para eles obter qualquer reconhecimento oficial da conversão. 

“Quase perdi minha fé pouco depois de meu pai [ser morto por causa da fé]. Não sei como carrego meu fardo, mas sinto que não sou eu. Deve ser o Espírito Santo em minha vida. Poderia ter me perdido de Deus e me tornado ateu. Estou feliz que Deus impediu isso. Ele escolheu meu caminho e agora posso cuidar da minha família. Aconteça o que acontecer, mesmo que você se afaste de Deus, apenas ore. Ore e sempre volte para Deus.” 

Marqos, cristão perseguido no Egito 

O que mudou este ano? 

Embora a posição do Egito na classificação da Lista Mundial da Perseguição 2021 permaneça inalterada, houve um ligeiro aumento na oposição geral aos cristãos desde o ano passado. Menos incidentes de violência contra cristãos foram relatados, mas isso é compensado por um aumento na oposição nas esferas da família, comunidade e igreja. 

Quem persegue os cristãos no Egito 

O termo tipo de perseguição é usado para descrever diferentes situações que causam hostilidade contra cristãos. Os tipos de perseguição aos cristãos no Egito são: paranoia ditatorial, opressão islâmica e opressão do clã. 

Já afontes de perseguição são os condutores/executores das hostilidades, violentas ou não violentas, contra os cristãos. Geralmente são grupos menores (radicais) dentro do grupo mais amplo de adeptos de uma determinada visão de mundo. As fontes de perseguição aos cristãos no Egito são: oficiais do governo, parentes, cidadãos e quadrilhas, líderes religiosos não cristãos, grupos religiosos violentos, líderes de grupos étnicos. 

Quem é mais vulnerável à perseguição no Egito? 

A maioria dos incidentes e ataques de multidões ocorrem no Alto Egito, a parte sul do país que é conhecida por ser mais conservadora e radical que o Norte. A província de Minya é conhecida por ter o maior número de ataques contra cristãos. No entanto, os cristãos nas áreas rurais economicamente desfavorecidas dNorte enfrentam um grau semelhante de opressão nas mãos de extremistas islâmicos, especialmente nas aldeias e cidades da região do Delta do Nilo. 

Grupos extremistas islâmicos, como a Irmandade Muçulmana, têm apoio nacional, mas militantes islâmicos violentos só atuam abertamente na região nordeste da Península do Sinai. 

Como as mulheres são perseguidas no Egito? 

As mulheres cristãs no Egito são particularmente vulneráveis ao assédio sexual e à violência. Embora o assédio, o casamento forçado ou o casamento por sequestro, e a agressão sexual sejam práticas comuns que afetam todas as mulheres no Egito em vários graus, há relatos de que as mulheres cristãs são particularmente alvo de casamento por sequestro, principalmente nas áreas rurais, aldeias e cidades do Sul. Isso significa que as famílias cristãs muitas vezes ficam com medo da possibilidade de sequestro, especialmente nas áreas rurais. 

Também há relatos de que meninas cristãs são atraídas para o casamento. Essas meninas geralmente são menores de idade e vêm de famílias vulneráveis. As práticas tradicionais não ajudam nesse sentido – o casamento precoce faz parte da norma em sociedades mais rurais e tradicionais. 

As mulheres que decidem deixar o islã para se tornarem cristãs enfrentam vários desafios. Elas podem se deparar com leis de blasfêmia, status reduzido na sociedade e adesão forçada aos costumes tradicionais. Elas também podem enfrentar o divórcio do marido muçulmano, deixando-as sem qualquer apoio financeiro. A guarda dos filhos pode ser retirada delas, bem como os direitos de herança. 

Além disso, elas correm risco dentro da própria família, porque não se espera que as mulheres tragam vergonha para a honra da família. É difícil para as mulheres escaparem de qualquer situação perigosa, uma vez que elas não tendem a viver ou viajar sozinhas. 

No local de trabalho, as mulheres cristãs podem enfrentar dupla discriminação por causa da fé e do gênero. Se elas forem conhecidas como cristãs, podem perder promoções e outros benefícios profissionais. 

Como os homens são perseguidos no Egito? 

Em todo o Egito, encontrar trabalho é uma grande pressão sobre os homens, principalmente no Alto Egito. Para jovens cristãos que vivem em áreas rurais, isso pode ser especialmente difícil. Uma razão para isso é que alguns lojistas muçulmanos exortam abertamente seus clientes muçulmanos a não comprarem de restaurantes cristãos, já que alguns muçulmanos acreditam que a comida feita por um cristão é impura. 

Alguns homens cristãos não têm permissão para participar do governo ou mesmo de times de futebol devido aos seus nomes cristãos. As dificuldades financeiras das famílias podem ser usadas contra os meninos cristãos como uma armadilha: alguns muçulmanos oferecem ajuda financeira a jovens cristãos, mas quando não conseguem pagar, os muçulmanos dizem que a dívida só será anulada se eles se converterem ao islamismo. 

A mídia social está se tornando cada vez mais uma ferramenta para desencadear a violência física contra homens cristãos. Por exemplo, um grande grupo de muçulmanos na província de Minya atacou a casa de um homem cristão e seus irmãos por causa de uma mensagem que havia sido postada na página do Facebook de seu filho, que mora em outra região do Egito. A mensagem foi considerada um insulto ao islã. Apesar de um vídeo de desculpas do filho, que alegava que sua conta foi hackeada, a polícia o prendeu por blasfêmia, junto com seu irmão e três de seus tios. 

O impacto sobre uma família por causa da perseguição contra um homem cristão pode ser catastrófico. Por ser o principal provedor, prisão, espancamentos, sequestros (envolvendo resgate) ou até mesmo assassinato podem resultar em dificuldades financeiras que afetam toda a família. Além disso, os ataques podem provocar um profundo sentimento de vergonha e quebrantamento, destruindo a confiança e a autoestima de maridos e pais. A estabilidade e o bem-estar de toda a família podem estar sob ameaça, resultando em taxas mais altas de violência doméstica e divórcio. 

O que a Portas Abertas faz para ajudar os cristãos no Egito? 

Trabalhando por meio de igrejas locais e parceiros, a Portas Abertas apoia a igreja no Egito com treinamento de alfabetização, educação, advocacy, cuidados médicos e ministério de jovens, famílias e mulheres. 

Como posso ajudar os cristãos perseguidos? 

Além de orar por eles, você pode ajudar de forma prática doando para os projetos da Portas Abertas de apoio aos cristãos perseguidosDoando para esta campanha, você possibilita que um cristão ex-muçulmano seja discipulado por um mês no Norte da África. 



Pedidos de oração do Egito 

  • Ore pela libertação de todos os cristãos presos ou mantidos em cativeiro, e pela segurança de todos os cristãos em suas vidas diárias. 
  • Clame pelo fim de todas as falsas acusações e ataques sem sentido contra os cristãos, e que haja urgência nas forças policiais locais para buscar justiça por todos os delitos.
  • Interceda para que os cristãos no Egito tenham coragem e sabedoria para resplandecer a luz de Cristo em suas comunidades. 

Um clamor pelo Egito 

Senhor Jesus, abra caminho e traga a libertação segura de todos os cristãos sequestrados, presos ou detidos à força por causa da fé. Ponha fim a todos os ataques e sequestros sem sentido contra seus filhos. Edifique a fé do seu povo e ajude-o a perseverar apesar dos enormes desafios. Proteja as famílias e que a sua paz encha o coração dos temerosos. Mova os líderes do Egito para proteger os direitos da minoria cristã e  determinação à polícia local para buscar justiça por delitos. Amém. 

Depois de servir como presidente por três décadas (de 1981 a 2011), Hosni Mubarak foi forçado a renunciar após quase três semanas de intensos protestos na Praça Tahrir, no Cairo, tornando-se, assim, um dos ditadores do Oriente Médio varridos durante a Primavera Árabe. Os manifestantes apresentaram demandas por mais liberdade política e expressaram o descontentamento da população com a situação social e econômica do país. Em junho de 2012, após uma breve transição durante a qual o Conselho Supremo das Forças Armadas governou o país, Mohamed Morsi, um político que era membro sênior da Irmandade Muçulmana, ganhou as eleições presidenciais com 52% dos votos. Uma vez no poder, ele assumiu poderes executivos ditatoriais que alienaram muitos egípcios. 

Manifestações populares foram organizadas por um grupo chamado Tamarrod que gozava do apoio da polícia, do exército, dos empresários e das figuras religiosas cristãs proeminentes. Em última análise, o exército interveio e expulsou o presidente Morsi, alegando que não havia respondido satisfatoriamente às demandas do povo egípcio. O exército adotou seu próprio roteiro de transição, que culminou com a adoção de uma nova Constituição e a realização de novas eleições parlamentares e presidenciais. 

No final do processo, o marechal de campo Abdul Fattah al-Sisi emergiu como o novo homem forte egípcio. Al-Sisi foi ministro da Defesa durante o governo de Morsi e era a principal figura por trás da expulsão de Morsi. Ele foi saudado por alguns como um herói que salvou o Egito das garras da Irmandade Muçulmana, enquanto outros afirmam que seu governo é um sinal claro do retorno do Egito aos velhos tempos de autocracia apoiada pelo exército. Uma vez que a nova Constituição foi adotada, al-Sisi se candidatou para presidente como civil e — dado o culto à personalidade que foi construído em torno dele antes das eleições — não era surpreendente que ele ganhasse as eleições com esmagadora maioria. Após a ascensão de al-Sisi ao poder, houve uma repressão em larga escala contra a Irmandade Muçulmana. Em março de 2018, al-Sisi foi reeleito com 97% dos votos. Essa vitória massiva foi uma clara indicação de quão efetivamente toda oposição foi destituída durante seu primeiro mandato. 

A popularidade do presidente al-Sisi está diminuindo e a esperança de que ele seja capaz de assegurar as necessidades básicas dos egípcios de baixa renda é pouca. Em fevereiro de 2019, os membros do parlamento votaram (e depois foi aprovado em um referendo) uma extensão do mandato presidencial para permitir que o presidente al-Sisi permaneça no gabinete por outros 12 anos depois de terminar seu atual mandato. Novas emendas também aumentaram o poder do exército, que já é a força dominante na política egípcia. A situação política está gerando alguma tensão no país, pois até mesmo alguns dos apoiadores de al-Sisi estão frustrados pela forte influência do exército no que diz respeito às decisões políticas e econômicas do país. 

CENÁRIO POLÍTICO E LEGAL 

A tradição de um governo autoritário talvez seja a única característica permanente no sistema político do Egito, que passou por três mudanças de regime em apenas três anos (2011-2014). Todos os governantes do Egito tiveram um estilo de governo autoritário. Em 2011, a longa ditatura de Mubarak foi finalizada através de massivos protestos sociais, que levaram à controversa eleição da Irmandade Muçulmana. O governo liderado por Mohamed Morsi não se comportou democraticamente e foi derrubado por uma revolta nacional apoiada pelo exército em 2013. 

Atualmente, o Egito é comandado por um governo civil liderado pelo ex-chefe do exército Abdul Fatah al-Sisi. Após a eleição presidencial em maio de 2014 e reeleição em março de 2018, esse governo parece considerar direitos humanos básicos e pluralismo democrático como uma baixa prioridade em vista dos grandes desafios econômicos, políticos, sociais e de segurança. Nesse contexto, portanto, liberdade religiosa para os cristãos não é totalmente garantida.  

O Egito é uma república em que o presidente subiu ao poder em 2014. No geral, a situação se estabilizou sob o governo de al-Sisi, mas os direitos humanos estão sob pressão, como a organização humanitária Human Rights Watch nota: “O governo prendeu vários críticos de al-Sisi, inclusive potenciais candidatos à presidência antes das eleições presidenciais de 2018, que foram realizadas em um ambiente injusto e sem liberdade. A polícia e a Agência de Segurança Nacional têm usado sistematicamente tortura e desaparecimento forçado. O governo enviou milhares de civis para tribunais militares, minou a independência do judiciário e executou dezenas de pessoas após julgamentos falhos”. 

Desde a ascensão de al-Sisi ao poder, muitos dos líderes maiores e membros da Irmandade Muçulmana foram detidos, perseguidos e condenados à morte ou à prisão perpétua. Em junho de 2019, o ex-presidente, que era da Irmandade Muçulmana, Morsi, morreu durante seu julgamento e alguns relatos ligam sua morte a condições prisionais ruins. O governo continua a proibir a maioria das formas de organização independente e ajuntamento pacífico e tem reprimido vários dissidentes e grupos opositores. 

Não se pode deixar de sentir uma sensação de déjà vu ao notar que outro forte militar está mais uma vez contra a Irmandade Muçulmana e enfrentando uma insurgência armada por extremistas islâmicos. O regime do presidente al-Sisi quer se projetar como garantia de estabilidade, ordem e segurança para os cristãos. A administração parece determinada a enfrentar a crescente islamização do Estado, que acelerou sob a liderança do presidente Morsi e da Irmandade Muçulmana. Ao mesmo tempo, existe o risco de que segmentos da Irmandade Muçulmana e seus defensores, que se sintam prejudicados pela perda de poder e a perseguição que enfrentam, se tornem mais radicalizados e se juntem a grupos islâmicos militantes subterrâneos em grande número. Tais desenvolvimentos, consequentemente, levariam à maior polarização da sociedade no Egito e poderiam representar um risco sério para a estabilidade da nação e a segurança dos cristãos egípcios por um período maior. 

O atual apoio do regime do presidente al-Sisi a um grande número de igrejas e cristãos pode também ser usado contra eles. Seguidores da Irmandade Muçulmana e outros grupos islâmicos provavelmente veem templos de igrejas e cristãos como alvos fáceis para mostrar que o governo egípcio não é capaz de proteger seus apoiadores. 

A instituição presidencial continua falando positivamente sobre a comunidade cristã no Egito. No entanto, a falta de sério reforço da lei e a indisposição das autoridades locais para proteger os cristãos os deixam vulneráveis a todos os tipos de ataques, principalmente no Alto Egito. Adicionalmente, devido à natureza ditatorial do regime, nem os líderes da igreja nem outros cristãos podem falar contra essas práticas. 

Ao longo do século 20 e em diante, parece que as visões concorrentes do Estado egípcio têm competido pelo domínio no país. Uma visão (desenvolvida pelo exército e establishment político) enfatiza mais o nacionalismo em oposição à religião, enquanto, por outro lado, os islâmicos, incluindo a Irmandade Muçulmana, querem tornar a religião o fundamento e o elemento central da identidade egípcia. 

Ambas as visões ofereceram aos cristãos egípcios pouco no que se refere aos direitos e segurança e, à medida que a concorrência entre esses dois campos se desenrola, os cristãos estão frequentemente no fogo cruzado político e são forçados a fazer escolhas difíceis.  

O Partido Islâmico Salafista continua a existir e opera ilegalmente. A influência do partido é considerável em sociedades rurais onde há uma alta porcentagem de analfabetismo e pobreza.  

CENÁRIO RELIGIOSO 

O islamismo é a religião dominante no Egito. Cerca de 85% da população egípcia é muçulmana e praticamente todos os muçulmanos egípcios são sunitas. Embora o cristianismo tenha raízes profundas no Egito, voltando séculos antes do advento do islamismo no Norte da África, os cristãos são geralmente marginalizados e tratados como cidadãos de segunda classe no Egito moderno. Essa visão causa discriminação de cristãos no âmbito político e na relação com o Estado. Também cria um ambiente em que o Estado é relutante para respeitar e reforçar os direitos fundamentais dos cristãos. 

Na esfera da família, os cristãos ex-muçulmanos enfrentam a maior pressão para negar a fé. Os cristãos também enfrentam opressão islâmica na vida diária na vizinhança ou no trabalho. Também houve ataques violentos realizados por grupos islâmicos contra cristãos. A atividade desses grupos militantes está amplamente concentrada no Nordeste do Sinai.  

Como a Humanists International (organização guarda-chuva que abraça organizações humanistas no mundo todo) escreve em seu relatório Freedom of Thought: “Os documentos de identidade do Egito incluem uma seção sobre religião e só os membros das três ‘religiões divinas’ são reconhecidos. [...] Indivíduos que nasceram muçulmanos e deixam o islã não têm permissão para mudar o campo ‘religião’ no documento de identidade. Desde a Primavera Árabe, a expedição da carteira de identidade se tornou uma das maiores campanhas da minoria copta conforme tensões sectárias aumentaram”. 

Cristãos no Egito explicam que a perseguição acontece majoritariamente no nível comunitário. Os incidentes variam de mulheres cristãs sendo assediadas enquanto caminham na rua a uma multidão de muçulmanos irados que forçam toda uma comunidade de cristãos a sair, tendo suas casas e pertences confiscados. Esse tipo de incidente acontece mais no Alto Egito, onde movimentos salafistas (movimentos ortodoxos, internacionalistas e ultraconservadores dentro do islamismo sunita) são ativos nas comunidades rurais.  

Em claro contraste em como as mesquitas e as organizações islâmicas são tratadas, igrejas e ONGs cristãs são restringidas no que diz respeito a construir novos templos ou realizar serviços sociais. Cristãos de todas as linhas têm dificuldades para encontrar novos lugares para o culto congregacional. As dificuldades vêm tanto das restrições do Estado como da hostilidade da comunidade e violência das multidões. 

Cristãos ex-muçulmanos têm grande dificuldade em viver a fé, pois enfrentam enorme pressão da família para retornar ao islamismo. O Estado também torna impossível para eles receberem qualquer reconhecimento oficial da conversão.  

Apesar do estado de emergência declarado pelo governo para lidar com ataques violentos que tiveram cristãos como alvo, é provável que o senso de vulnerabilidade e a insegurança entre os cristãos persista em um futuro próximo. A extensão em que esses ataques continuarem vai determinar a trajetória da dinâmica de perseguição no Egito. É provável que as formas não violentas de perseguição que prevalecem em várias esferas da vida continuem sem muita mudança para melhor.  

CENÁRIO ECONÔMICO 

O Banco Mundial coloca a economia egípcia na categoria de renda mais baixa. O Fragile State Index mostra que há pequenas, mas contantes melhoras nos indicadores econômicos. Cerca de 32,5% da população vive abaixo da linha de pobreza, com menos de 2 dólares por dia, um aumento de 4,7% comparado a 2015, como uma nova pesquisa revelou. O Egito é um dos nove países com maiores taxas de analfabetismo do mundo, 26% dos adultos são analfabetos. 

A administração do presidente al-Sisi embarcou em um plano ambicioso para revitalizar a economia egípcia, criar o crescimento econômico e aumentar a taxa de empregos. No entanto, muitos egípcios ainda estão sofrendo os efeitos da desvalorização da libra egípcia de 2016, que foi um movimento para garantir um empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional) — os efeitos ainda ecoam na carteira de muitos egípcios. O desemprego caiu um pouco nos anos anteriores, mas cristãos locais relatam impostos mais altos; preços elevados de gasolina, eletricidade e água levaram ao aumento nos preços de alimentos, transporte e utilidades domésticas. O aumento dos preços põe mais pressão na estrutura social, com a classe média lutando para fechar as contas, enquanto o alto índice de pobreza afeta sobretudo muitos cristãos que vivem em zonas rurais. 

A crescente pressão econômica sobre famílias já marginalizadas abastece a emigração. Discriminação contra cristãos no mercado de trabalho permanece evidente, especialmente em instituições governamentais. Crianças em vilarejos saem da escola ainda pequenas para ajudar na renda da família. 

Além disso, a pobreza é usada para manipular pessoas pobres para propósitos políticos e religiosos. Jovens muçulmanos desempregados podem ser levados por grupos radicais islâmicos a iniciar ataques a igrejas e cristãos. Além disso, há indicações de que esses grupos têm cristãos secretos como alvo para convertê-los ao islamismo. Principalmente mulheres e meninas são vulneráveis, pois são alvos fáceis para o casamento forçado. 

CENÁRIO SOCIOCULTURAL 

O Egito busca ser um centro cultural do islamismo e continua a ser influente através da Universidade Al-Azhar e suas casas de produção de mídia. Culturalmente, o Egito é conservador e, apesar dos grandes centros urbanos (como Cairo e Alexandria), é dominado por atitudes tribais. A população não é tão etnicamente diversa como em outros países do Norte da África e Oriente Médio e tem uma forte identidade nacional. 

A Universidade Al-Azhar, umas das mais influentes universidades islâmicas do mundo, tem um lugar proeminente dentro da sociedade egípcia e até mesmo da Constituição. O Grã Imã Ahmed el-Tayyeb, da Al-Azhar, afirmou claramente que não há lugar no islã para que muçulmanos se convertam ao cristianismo.  

Especialmente com o surgimento de interpretações mais radicais do islamismo, a pressão sobre os cristãos tem aumentado nas últimas décadas. O presidente al-Sisi convocou estudiosos da Universidade Al-Azhar para combater o radicalismo e introduzir reformas no ensino islâmico. Em áreas rurais e empobrecidas em particular, os imãs radicais e os gêneros de islamismo menos tolerantes estão crescendo em proeminência. O governo está fazendo esforços para reverter essa tendência, mas não tem sido muito bem-sucedido até agora. 

Cristãos do Egito relatam que, embora muçulmanos e cristãos tenham bastante contato no dia a dia, não pode ser chamada de uma coexistência pacífica. Embora todos falem a mesma língua, há uma considerável divisão causada pelos sistemas de crenças contrastantes. Muçulmanos radicais em zonas rurais, onde muitos cristãos vivem, promovem atitudes de rejeição em relação aos cristãos, o que é um terreno fértil para agressões, principalmente contra mulheres e crianças. Mulheres cristãs, sobretudo em zonas rurais, são alvo de grupos radicais islâmicos e, como resultado, sequestro para conversão, resgate e casamento forçado não são incomuns. 

Embora apenas poucos comentaristas vejam uma distinção étnica entre cristãos coptas e árabes islâmicos, cristãos e muçulmanos agem como dois grupos distintos na sociedade egípcia. Como em muitos outros países árabes, o pensamento tribal influencia fortemente a ideologia do grupo e isso pode facilmente levar à violência verbal e física contra aqueles de fora do grupo. No Alto Egito, por exemplo, muitos casos de violência de multidões acontecem quando cristãos tentam implementar o reconhecimento oficial de uma igreja. Nesses casos, há uma mistura de opressão islâmica e antagonismo étnico, que exigem que a minoria cristã opere cuidadosamente.  

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mostra que a expectativa de vida é de 73,7 anos. Pobreza, baixo nível de conscientização e educação em saúde, altos índices de analfabetismo e violência doméstica generalizada são comuns para muitos egípcios, inclusive cristãos. Jogos de poder ocorrem em todos os níveis da sociedade: muçulmanos oprimem cristãos, homens oprimem mulheres, e alguns líderes da igreja podem usar a autoridade para oprimir cristãos mais vulneráveis de outras denominações. 

O Egito é um país extremamente importante na região devido a sua localização estratégica, seu tamanho territorial e populacional e por sua influência histórica e diplomática. A igreja no Egito também é de suma importância, uma vez que a presença cristã no país representa a maior população cristã sobrevivente da região. 

O alto nível de analfabetismo, estagnação econômica e pressão demográfica também significam que — independentemente da disputa política no país — a sociedade egípcia continua a ser suscetível à influência das versões mais radicais e intolerantes do islã que são particularmente atraentes para os jovens e os pobres. 

A Igreja Ortodoxa Copta se orgulha da tradição que nomeia o apóstolo Marcos como o fundador do cristianismo no Egito. Em Alexandria, uma igreja vibrante desenvolveu sua própria escola teológica no segundo século. Esse foi o lar do pai da igreja Atanásio de Alexandria (373 d.C.), que foi um dos primeiros teólogos da igreja, conhecido principalmente por sua defesa de Deus como uma trindade. Inicialmente, a igreja era sobretudo um fenômeno grego nas cidades, mas a população egípcia original se voltou rapidamente para a nova fé também. O Egito se tornou o berço do monasticismo; o monastério de Santo Antônio se tornou um importante modelo para o monasticismo em toda a Europa. 

A perseguição sob a ocupação romana sempre foi severa no Egito. É por isso que o calendário copta começa no ano 284 d.C. — nesse ano, Diocleciano se tornou imperador de Roma e seu reinado foi marcado pela tortura e execução em massa de cristãos, principalmente no Egito. Depois que o cristianismo se tornou a religião do Império Romano, os cristãos coptas ficaram em maus lençóis com o Império, visto que sua teologia foi rotulada como herege no Conselho de Calcedônia (451 d.C.). Os exércitos árabes conquistaram o Egito em 639-646 d.C. e isso levou a mais períodos de severa perseguição sob o islã. A igreja focou em sobreviver ao invés de ter um papel público na sociedade. No século 10, os cristãos coptas reduziram em número, perfazendo cerca de metade da população. 

No século 17, a Igreja Católica Romana entrou no Egito através da atividade missionária dos Capuchinhos e dos Jesuítas. Em 1847, os anglicanos começaram a trabalhar no país, seguidos pela Igreja Presbiteriana Reformada Associada, com sede nos Estados Unidos, em 1854. Muitos outros grupos de igrejas independentes e missionários seguiram, somando à rica variedade da vida da igreja egípcia. 

O papel colonial britânico no Egito (1882-1952) deu muita liberdade aos cristãos. Após a revolução de 1952, essa liberdade foi constantemente corroída e houve breves períodos em que os cristãos foram perseguidos, mas isso sempre foi um fenômeno local e não realizado pelo Estado. 

REDE ATUAL DE IGREJAS 

Atualmente, a vasta maioria de cristãos do Egito (mais de 90%) pertence à Igreja Ortodoxa Copta. Entre as igrejas históricas, a comunidade copta é a maior, sendo ortodoxa em sua maioria. Também há denominações protestantes estabelecidas em todo o país. A grande minoria copta, apesar de enfrentar dificuldades, como discriminação na educação, saúde e leis que travam aspectos essenciais da vida da igreja, tem sido ao longo dos anos tolerada pelo Estado e pela maioria muçulmana por causa de sua presença histórica e por ser uma população de alguns milhões. Mas, em anos recentes isso tem mudado, fazendo com que sejam alvo, tanto de vizinhos muçulmanos quanto de grupos radicais islâmicos. 

Há também uma pequena, mas crescente, comunidade de cristãos ex-muçulmanos que suportam o peso da perseguição, principalmente por parte de familiares, que os punem por abandonar a fé islâmica. Comumente, os convertidos ao cristianismo são agredidos fisicamente e expulsos de casa. 

Há vários grupos evangélicos e pentecostais no país, alguns deles sendo a segunda ou terceira geração de convertidos do islamismo. Outros vêm de um contexto ortodoxo. Eles enfrentam pressão da sociedade islâmica e, em um nível menor, da Igreja Ortodoxa. 

Cerca de 85% da população egípcia é muçulmana

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