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Catar

QA
Catar
  • Tipo de Perseguição: Opressão islâmica, opressão do clã, paranoia ditatorial
  • Capital: Doha
  • Região: Península Arábica
  • Líder: Tamim bin Hamad al-Thani
  • Governo: Monarquia absolutista
  • Religião: Islamismo, cristianismo, hinduísmo, budismo, judaísmo e religiões étnicas
  • Idioma: Árabe, inglês
  • Pontuação: 67


POPULAÇÃO
2,7 MILHÕES


POPULAÇÃO CRISTÃ
367 MIL

Como é a perseguição aos cristãos no Catar? 

A vida dos cristãos no Catar pode parecer muito diferente dependendo do tipo de cristão que se é. Existem duas categorias gerais: cristãos estrangeiros, a maioria dos quais são trabalhadores migrantes, e cristãos ex-muçulmanos. 

Trabalhadores estrangeiros cristãos são muito mais livres para cultuar a Deus. Por exemplo, o governo permitiu grandes eventos de adoração no passado. Mesmo para esses seguidores de Jesus, no entanto, qualquer evangelismo com muçulmanos é estritamente proibido e pode levar à deportação. Além disso, muitos trabalhadores migrantes (de qualquer fé) são maltratados e abusados – os que são cristãos podem ser duplamente alvo desse tipo de abuso, por causa do trabalho e da fé. E mesmo que o governo forneça terras para os cristãos migrantes construírem igrejas, as igrejas são frequentemente monitoradas e mantidas em áreas específicas.  

Os muçulmanos que se convertem ao cristianismo enfrentam perseguições muito mais significativas. Cristãos ex-muçulmanos nativos e migrantes suportam o peso da perseguição. Os cristãos ex-muçulmanos no Catar enfrentam uma pressão muito alta das famílias muçulmanas. Os cristãos ex-muçulmanos migrantes são controlados principalmente pelo ambiente social em que vivem. Muitas vezes, as normas sociais dos países de origem se aplicam a eles em vez de normas culturais do Catar. Em alguns casos, eles podem evitar a pressão vivendo dentro de uma comunidade internacional, em vez da própria comunidade étnica. No entanto, até mesmo os empregadores podem ser uma fonte de perseguição. 

Tanto nativos quanto migrantes ex-muçulmanos correm risco de discriminação, assédio e monitoramento policial. Além disso, a conversão do islã para outra fé não é oficialmente reconhecida e provavelmente levará a problemas legais em questões pessoais de status e propriedade.  

“Neste país muçulmano, somos limitados em evangelizar abertamente. Mas ninguém pode nos impedir de falar com nossos colegas de trabalho e testemunhar a eles em nossas vidas cotidianas. Todos os dias, Deus nos dá oportunidades de mostrar seu amor aos outros.” 

Pastor Samuel, que pastoreia migrantes no Catar 

O que mudou este ano? 

O Catar caiu duas posições na Lista Mundial da Perseguição 2021 em relação ao ano anteriorNo entanto, os níveis de perseguição realmente aumentaram no país, de modo que a classificação do Catar é mais um indicador do aumento geral da perseguição contra cristãos em todo o mundo. A violência contra os cristãos no Catar caiu um pouco – embora geralmente seja baixa – mas a pressão da comunidade, família, sociedade e de outras fontes não violentas aumentou. O principal lugar da vida cotidiana em que a pressão aumentou foi a esfera da naçãoo que impulsionou o ligeiro aumento na pontuação do país. Ainda é extremamente difícil para os cristãos – particularmente os ex-muçulmanos – viverem a fé no Catar.    

Quem persegue os cristãos no Catar? 

O termo tipo de perseguição é usado para descrever diferentes situações que causam hostilidade contra os cristãos. Os tipos de perseguição aos cristãos no Catar são: opressão islâmica, opressão do clã, paranoia ditatorial 

Já as “fontes de perseguição são os condutores/executores de hostilidades, violentas ou não violentas, contra os cristãos. Geralmente são grupos menores (radicais) dentro do grupo mais amplo de adeptos de uma determinada visão de mundo. As fontes de perseguição aos cristãos no Catar são: líderes de grupos étnicos, líderes religiosos não cristãos, oficiais do governo, parentes, cidadãos e quadrilhas 

Quem é mais vulnerável à perseguição no Catar? 

Os cristãos ex-muçulmanos estão em maior risco no Catar, o que inclui tanto trabalhadores migrantes como cidadãos nativos do Catar.  

O Catar tem uma população maciça de trabalhadores migrantes – uma estimativa recente indica que apenas 12% da população é nativa do Catar; muitos trabalhadores vêm de uma variedade de origens religiosas. No entanto, há uma pressão significativa se eles seguirem Jesus em vez do islã. Essa pressão pode vir das próprias comunidades migrantes, ou da sociedade mais ampla do Catar. Convertidos que são capazes de encontrar um meio de subsistência e um lar em uma comunidade internacional muitas vezes experimentam menos perseguição, mas ainda podem ser alvos.  

Os nativos do Catar que se convertem ao cristianismo enfrentam perseguição da família e da comunidade, especialmente porque a sociedade do Catar abraça uma visão conservadora do islã. 

Como as mulheres são perseguidas no Catar? 

Enquanto as mulheres no Catar em geral enfrentam restrições e limitações aos direitos humanos devido à sharia (conjunto de leis islâmicas) e uma interpretação estrita do islã, essas mesmas restrições tornam as mulheres cristãs particularmente vulneráveis à perseguição religiosa. As limitações gerais às mulheres incluem serem obrigadas a obedecer ao maridoserem vulneráveis à violência doméstica e restringidas legalmente de herdar metade do que um familiar masculino nas mesmas condições receberia. Mulheres e meninas no Catar estão sujeitas à tutela dos familiares homens, o que significa que as autoridades não podem interferir no que acontece na casa da família. 

Isso é especialmente difícil para as mulheres convertidas ao cristianismo, pois as famílias têm autoridade para remover o direito de viajar, mantê-las em prisão domiciliar, negar-lhes acesso ao dinheiro e expulsá-las da casa da família, isso em uma sociedade em que uma mulher não pode facilmente viver sozinha. As mulheres ex-muçulmanas correm o risco de serem excluídas pela família ou comunidade. Elas também correm o risco de enfrentar violência física, ou até mesmo crimes de honra se a nova fé for descoberta.  

Além disso, mulheres ex-muçulmanas são legalmente proibidas de se casar com um não muçulmano. Portanto, as cristãs ex-muçulmanas podem ser forçadas a se casar com um homem muçulmano que deve humilhá-la para convertê-la de volta ao islã – dando-lhe a autoridade de restringir a liberdade por toda a vida. Algumaex-muçulmanas podem até ser casadas à força com um de seus tios ou sobrinhos mais religiosos como uma segunda esposa, assim elas podem viver uma vida como escravas sexuais, privadas de qualquer comunidade ou respeito. 

Empregadas domésticas que trabalham no Catar muitas vezes enfrentam assédio sexual ou trabalho escravo. Os maus-tratos aos trabalhadores migrantes, incluindo o abuso sexual, tornaram-se uma questão de muita importância a nível internacional. Embora não relacionado principalmente à fé, muitas trabalhadoras domésticas cristãs do sexo feminino sofrem abuso sexual.   

Como os homens são perseguidos no Catar? 

Embora a maioria dos cristãos tente manter um perfil discreto no Catar, quando um cristão fica sob vigilância pública, geralmente é um homem. Isso porque quase sempre são homens visíveis na esfera pública e, portanto, à frente da interação com as autoridades. Os que estão na liderança cristã são obrigados a relatar detalhes das atividades da igreja; esses líderes também são homens e estão particularmente sujeitos a vigilância. 

Os cristãos ex-muçulmanos homens não são imunes à pressão doméstica. Quando a conversão se torna conhecida, a família pode ameaçar tirar as esposas e os filhos e colocá-los com outra família. Mesmo nas melhores circunstâncias, as esposas podem concordar em viver com o marido com a condição de que as crianças não sejam informadas da fé cristã do marido. Esses cristãos podem realizar atos privados de adoração cristã, mas eles não podem compartilhar a fé com ofilhos. Essas restrições combinadas significam que os homens no Catar são efetivamente isolados e acham muito difícil se encontrar com outros cristãos ou aprender e crescer na fé. 

O emprego é outro ponto de pressão para os homens cristãos ex-muçulmanos, pois a perda do status e do emprego afetará toda a família, por meio da perda de renda, perspectivas futuras de emprego e isolamento social.    

O que a Portas Abertas faz para ajudar os cristãos no Catar? 

A Portas Abertas promove apoio espiritual por meio de campanhas de oração em favor dos cristãos perseguidos no Catar e em toda a Península Arábica. 

Como posso ajudar os cristãos perseguidos? 

Além de orar por eles, você pode ajudar de forma prática doando para os projetos da Portas Abertas de apoio aos cristãos perseguidos. Doando para esta campanha, sua ajuda vai para locais onde a necessidade é mais urgente.



Pedidos de oração do Catar 

  • Interceda para que Deus trabalhe poderosamente no Catar. Mal ouvimos falar de algum nativo que venha à fé. Peça que o povo de Deus seja colocado em contato com aqueles dispostos a ouvir o evangelho. 
  • Ore para que os trabalhadores migrantes sejam protegidos de abuso e discriminação de seus empregadores e não sejam alvo por causa da fé em Jesus. 
  • Clame pelos cristãos secretos no Catarque aceitaram Jesus mas não podem ser abertos sobre a nova fé. Ore para que a família e comunidade permitam que eles adorem livremente, e a sociedade ao redor se abra para outras crenças além do islã. 

Um clamor pelo Catar 

Querido Senhor, oramos por nossos irmãos e irmãs no Catar. Pedimos de modo especial por aquelas pessoas que encontraram a verdade de Cristo e se converteram do islã. Pedimos proteção sobre elas e um espírito de paz e esperança. Também apresentamos cristãos que são trabalhadores migrantes, poupe-os de abusos no local de trabalho, racismo e ataques xenófobos. Pedimos tudo isso em nome de Jesus, que vive e reina agora e para sempre. Amém.   

Desde que declarou a independência da Grã-Bretanha em 1971, o Catar passou por mudanças econômicas, sociais e políticas marcantes. O país é dominado pela família al-Thani há quase 150 anos. Uma vez uma nação pobre de pescadores, o Catar tornou-se um país próspero e moderno, devido à exploração de campos de petróleo e gás desde a década de 1940. O Catar procurou estabelecer para si um papel único, especialmente através da sua estação de notícias Al-Jazeera, o canal de televisão por satélite mais assistido do Oriente Médio, fundada em 1996. 

Até junho de 2017, o Catar parecia ser uma nação estável, mantendo relações amigáveis com os Estados Unidos e a Arábia Saudita, mas também com o Irã, o Hamas e o Hezbollah (grupos armados islâmicos). Além de alguns protestos on-line, a Primavera Árabe não parece ter causado qualquer transtorno ao Catar, apesar do seu papel ativo no exterior, sobretudo na Líbia. Isso mudou em 2017, quando Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito, liderados pela Arábia Saudita, romperam todos os laços diplomáticos e econômicos. 

Desde então, todas as fronteiras terrestres e marítimas entre o Catar e, respectivamente, a Arábia Saudita, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos foram fechadas. O motivo oficial do boicote é o suposto apoio do Catar a grupos terroristas. 

CENÁRIO POLÍTICO E LEGAL 

O Catar é uma monarquia absolutista, governada pelo emir. O xeique Tamim bin Hamad al-Thani assumiu o poder após seu pai abdicar em 2013. Curiosamente, ele foi educado no Reino Unido. O xeique do Catar se dedica a diversificar a economia e renovar a infraestrutura nacional. A Economist Intelligence Unit classifica o sistema político em vigor no Catar como autoritário. Os catarianos conservadores e majoritariamente wahabi não são a favor da democracia, que eles percebem como um conceito ocidental que provavelmente causará dificuldades, como testemunhado em vários países árabes democratizados. 

Como o governo criou um estado de bem-estar com muitos benefícios financeiros para os catarianoss nativos, em troca espera obediência e não permite oposição. A prioridade do governo é manter o país distintamente islâmico, principalmente devido ao baixo número de nativos comparado ao altíssimo número de expatriados (estrangeiros residentes no país). Embora cristãos expatriados sejam relativamente livres para praticar a fé, o governo monitora todas as atividades. O país é bem policiado e muitos expatriados têm que se comportar com cuidado, pois podem facilmente ser expulsos.  

O relatório da Freedom of Thought (relatório da organização Humanists International que avalia todos os países do mundo com base nos direitos humanos) classifica o governo e a Constituição do Catar como severamente discriminatórios. Incomum para a região, há pouca expressão pública de descontentamento econômico ou social. Provavelmente, isso se deve ao fato de o Estado distribuir a riqueza entre os cidadãos do Catar, o que leva à apatia política. O relatório Freedom of Thought afirma: “O costume supera a aplicação governamental de leis que proíbem a discriminação religiosa, e a discriminação legal, cultural e institucional é predominante. Enquanto a Constituição do Catar e outras leis preveem liberdade de associação, assembleia pública e culto, essas liberdades são dentro de limites baseados na sharia (conjunto de leis islâmicas) e em ‘questões morais’. A conversão do islã para outra religião é considerada apostasia e continua a ser uma ofensa capital no Catar. Uma acusação de blasfêmia pode ser tomada como evidência de apostasia. No entanto, desde 1971, nenhuma punição por apostasia foi registrada”. 

Os indicadores políticos do Fragile States Index (FSI) mostram um forte aumento na intervenção externa em 2017, o que está alinhado com o início do boicote liderado pela Arábia Saudita, afetando tanto os indicadores políticos quanto os econômicos. No entanto, os indicadores médios permanecem estáveis, sinalizando que o Catar conseguiu lidar com o aumento da pressão externa (caso contrário, a pontuação dos indicadores médios teria aumentado). 

Outra razão pela qual o Catar é estável é a ausência de divisões sectárias. No entanto, o país teve um papel ativo no movimento da Primavera Árabe no exterior, especialmente na Líbia, onde cooperou na intervenção militar. No Iraque, Síria e Líbia, apoiou militantes islâmicos. Também apoiou o governo do Bahrein enviando tropas para reprimir a revolta xiita no país em 2011. As razões para isso foram manter a estabilidade na região do Golfo e sustentar uma agenda sunita e pró-islâmica. Essa última é uma grande diferença em comparação com a vizinha Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que não apoiam grupos pró-islâmicos, e que até designaram a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista. 

Além de apoiar grupos islâmicos e o islamismo político, o Catar também enfureceu a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos ao estabelecer um papel bastante independente para si. O país tem relações com o arquiinimigo da Arábia Saudita, o Irã, e tenta se tornar um importante ator regional por meio de sua companhia aérea e de receber a Copa do Mundo da FIFA de 2022. Por último, mas não menos importante, abriga a emissora Al-Jazeera, o canal de TV via satélite mais visto no Oriente Médio, fundada em 1996. Diz-se que a Al-Jazeera foi um motor do movimento Primavera Árabe, servindo de porta-voz para líderes da oposição e insurgentes. A Al-Jazeera também critica os governos dos países vizinhos e isso pode ter irritado a Arábia Saudita e seus aliados. Com o boicote, a Arábia Saudita pode estar tentando forçar o Catar a voltar ao papel de subordinado que teve no passado. 

Apesar da crise política com a Arábia Saudita e os países aliados, a situação política, social e econômica do Catar parece estável. De certa forma, a crise parece ser mais um jogo de poder, sem a intenção de se tornar um conflito armado. Por outro lado, o bloqueio poderia prejudicar a economia do Catar a longo prazo, o que poderia causar uma recaída econômica para todos os trabalhadores imigrantes no país, inclusive os cristãos.  

CENÁRIO RELIGIOSO 

Dos 2,75 milhões de habitantes do Catar, apenas 12% são catarianos nativos, sendo os demais estrangeiros residentes no país. Existem dois grupos de cristãos no Catar, que são estritamente separados um do outro. As comunidades de expatriados constituídas por trabalhadores migrantes cristãos são o maior grupo. O governo só lhes permite adorar a Deus em público em um lugar designado, fora da capital Doha. Evangelizar muçulmanos é rigorosamente proibido e pode levar a perseguições e expulsões do país. Os migrantes convertidos enfrentam alta pressão e são controlados pelo ambiente social nos campos de trabalho onde vivem. Mesmo seus empregadores podem ser uma fonte de perseguição. Muitos desses trabalhadores migrantes precisam viver e trabalhar em condições precárias, e o fato de serem cristãos só aumenta a vulnerabilidade. Apesar das condições de vida, essas comunidades cristãs estão crescendo.  

O outro grupo consiste de cristãos ex-muçulmanos. Esses convertidos, de origem nativa e migratória, enfrentam o pior da perseguição. Muitos nativos se convertem fora do país. Eles enfrentam a pressão dos membros da família e da comunidade local para negar a fé cristã.  

Tanto os cristãos ex-muçulmanos nativos quanto os migrantes têm risco de discriminação, assédio, monitoramento da polícia e todo tipo de intimidação por grupos de vigilantes. Além disso, a mudança de fé (deixar o islamismo) não é oficialmente reconhecida e é suscetível de levar a problemas legais no âmbito pessoal e nas questões de propriedade. Quase nunca há relatos de cristãos mortos, presos ou prejudicados pela fé, pois o número de cristãos é baixo e eles mantêm a fé em segredo.  

Existem diferentes níveis de perseguição, dependendo dos antecedentes dos convertidos do islamismo para o cristianismo. Os que têm origem catariana enfrentam níveis mais altos de pressão. Para os convertidos do islã de outras origens, como os originários do Paquistão ou do Levante (por exemplo, Jordânia, Líbano, Territórios Palestinos e Síria, entre outros países), depende da resposta da comunidade do cristão no Catar.  

Dentro das comunidades expatriadas, as consequências para os ex-muçulmanos dependem mais das normas culturais do país de origem do que das práticas culturais do Catar. Para os expatriados, a conversão ao cristianismo às vezes é mais fácil do que em seu país de origem, porque a família e os parentes estão frequentemente distantes e a pressão social é menos rigorosa.  

Middle East Concern (organização que defende a liberdade religiosa de cristãos) informa: “Estima-se que aproximadamente 16% da população migrante seja cristã. Presume-se que todos os cidadãos do Catar sejam muçulmanos, 90% sunitas e 10% xiitas”. O Catar é um dos únicos países wahabistas do mundo, seguindo uma versão puritana do islã. O outro país wahabista é a Arábia Saudita, mas desde os anos 1990 o Catar adotou sua própria versão do wahabismo, menos rigorosa do que na Arábia Saudita. Essa diferença também é conhecida como “wahabismo do mar” versus “wahabismo da terra”. 

Embora os muçulmanos sejam livres para adorar em público, grupos religiosos não muçulmanos, como cristãos, só podem adorar em casas particulares ou locais designados. O proselitismo é ilegal e pode levar a penas de até dez anos de prisão. As críticas ao islã são punidas. A conversão do islã para outra religião constitui apostasia, que é proibida e socialmente inaceitável. O direito da família é regulamentado pela sharia. Quase todos os cidadãos e nativos do Catar são por definição muçulmanos sunitas ou xiitas.  

Entretanto, em contraste com a Arábia Saudita, o Catar tem sido relativamente tolerante com a crescente comunidade cristã de expatriados e forneceu terras para a construção de igrejas. A primeira igreja cristã oficial do país foi construída em 2008; a segunda foi aberta em 2009. As denominações oficialmente reconhecidas com instalações construídas em complexos oficiais são as igrejas católica romana, ortodoxa grega, ortodoxa síria, ortodoxa copta, anglicana e ortodoxa indiana. Outros grupos cristãos podem operar sob o patrocínio dessas igrejas reconhecidas. 

Em 2015, a Igreja Evangélica Filipina obteve reconhecimento e recebeu terra para um lugar de culto junto com outras igrejas dentro do Complexo Religioso, e também foi aprovada uma igreja maronita. Embora a maioria dos expatriados cristãos locais goste disso, há um porém, já que as igrejas concentradas em apenas uma área podem ser consideradas “guetos”. Assim, os cristãos podem ser facilmente monitorados e vigiados, o que geralmente acontece com o pretexto de garantir a segurança deles. 

CENÁRIO ECONÔMICO 

O Banco Mundial classifica o Catar como uma economia de alta renda. Isso não é surpreendente visto que tem a terceira maior reserva de gás natural do mundo. O petróleo desempenha um papel fundamental em muitos aspectos, apesar do esforço do governo em diversificar a economia. 

O boicote de dois anos ao Catar pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros aliados levou a uma diversificação da economia do Catar, mas não a prejudicou devido às enormes reservas financeiras. No entanto, alguns setores da economia, como a aviação, representada pela Qatar Airways e a indústria do turismo, sofreram perdas significativas devido ao fechamento de todas as fronteiras entre o Catar e seus vizinhos. 

Os indicadores econômicos da Fragile States Index (FSI) mostram que o Catar é relativamente estável, apesar de um aumento acentuado da intervenção externa (causada pelo boicote liderado pela Arábia Saudita). Segundo o IDH, as taxas de alfabetização são altas, 93,5%, e uma grande parte da população (86,9%) é empregada. A pobreza entre trabalhadores expatriados provavelmente é subnotificada. 

CENÁRIO SOCIOCULTURAL 

A população é composta quase que inteiramente de trabalhadores migrantes, mais de 80% da população do país, o que cria um sistema dual de direitos e privilégios. O trabalho forçado e o tráfico de pessoas também são problemas e trabalhadores estrangeiros são sujeitos a abusos, como pagamento insuficiente, falta de habitação e saneamento adequados (devido a complexos de trabalhadores superlotados), violência doméstica e assédio sexual. 

Um desafio para o país é manter seus padrões culturais e religiosos em meio à rápida modernização e desenvolvimento. Enquanto se prepara para a Copa do Mundo de Futebol de 2022, o Catar e seu tratamento deplorável para com os trabalhadores migrantes têm cada vez mais captado a atenção do mundo. Sob a pressão do Ocidente, o Catar tem feito pequenas reformas nas condições de trabalho para migrantes, de acordo com organizações de direitos humanos.  

Em 2022, o país sediará a Copa do Mundo da FIFA. O governo parece determinado a causar uma boa impressão —parecer um país moderno, sofisticado e bem-sucedido, que é acolhedor para todos que estão dispostos a gastar dinheiro e se divertir. Isso não pode ocultar, no entanto, o outro lado do Catar — um país profundamente intolerante com os não muçulmanos, com uma divisão profunda entre os cidadãos extremamente ricos e as centenas de milhares de trabalhadores explorados com frequência, principalmente de países asiáticos.  

Apesar da pressão para melhorar os direitos humanos no Catar, não se preveem grandes melhorias no estrito país islâmico, conhecido por seu controle geral da sociedade. Como tal, não são esperadas mudanças importantes na liberdade religiosa para os cristãos em um futuro próximo.  

Desde 2013, relatórios de grupos da sociedade civil revelaram que os trabalhadores no Catar experimentam a “escravidão moderna”. Isso se tornou um problema sério, já que o Catar se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2022. A acusação sobre a escravidão moderna é particularmente relevante no contexto do trabalho doméstico. A Anistia Internacional informou em abril de 2014: “As autoridades do Catar não estão protegendo os trabalhadores domésticos migrantes. Eles enfrentam uma exploração severa, incluindo trabalho forçado e violência física e sexual”. Melhorias legais foram feitas em 2018, mas se as coisas mudarão na prática continua uma interrogação. 

É amplamente conhecido que as empregadas domésticas são vulneráveis a incidentes de abuso sexual. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, da sigla em inglês) relata: “As empregadas domésticas não são protegidas pela Lei do Trabalho. Elas são frequentemente pagas com atraso ou não são pagas, convidadas a trabalhar horas excessivas sem dias de folga e recebem espaço de vida inadequado”. Além disso, a Anistia Internacional (2014) relata “as restrições à liberdade de circulação e comunicação, tratamento humilhante e trabalho forçado sofrido por empregados domésticos no Catar”. 

No entanto, as estatísticas são escassas, pois quase todas as pessoas, organizações e estados envolvidos não têm interesse em revelar a verdadeira situação: o Catar precisa da equipe doméstica para trabalhar em residências, mas tem uma cultura de vergonha e não quer uma má reputação. Além disso, os países de origem das empregadas domésticas precisam do dinheiro dos milhares de migrantes que trabalham nos estados do Golfo e não querem colocar em risco seus interesses econômicos (embora o presidente filipino Duterte tenha imposto uma proibição temporária de viagem ao Kuwait, depois que o corpo de uma empregada doméstica das Filipinas foi encontrado em um freezer de uma família do Kuwait em fevereiro de 2018). 

Ou os empregadores de empregadas domésticas abusadas são os autores dos abusos ou não têm interesse real em seu bem-estar. As empregadas domésticas costumam ter vergonha por causa dos abusos e não querem ser vistas como “sujas”, seja no próprio Catar, seja por sua família, em casa. Além disso, muitas fornecem uma fonte de renda muito necessária para a família em seus países de origem. Os familiares orgulham-se do trabalho realizado no Catar e a empregada doméstica não quer decepcionar a família.  

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a expectativa de vida dos catarianos é de 79,4 anos e as crianças passam 12 anos na escola, assegurando uma classe média bem escolarizada. 

Segundo especialistas do país, ser cristão é uma vulnerabilidade extra no Catar e pode levar a níveis mais altos de discriminação ou abuso. No entanto, a cor da pele e a origem étnica costumam ter um papel maior. Portanto, os expatriados cristãos ocidentais (brancos) têm muito menos probabilidade de sofrer assédio do que os expatriados cristãos africanos ou asiáticos. Além disso, trabalhadores altamente qualificados enfrentarão menos dificuldades do que trabalhadores pouco qualificados. Portanto, um migrante cristão pouco qualificado de origem africana será mais vulnerável no Catar. 

O tribalismo ainda desempenha um papel enorme na sociedade do Catar, apesar da chegada da tecnologia (e da arquitetura) moderna. Existe uma contínua influência e aplicação de normas e valores milenares. Esse tribalismo está claramente misturado com o islã e afeta especialmente os cristãos ex-muçulmanos. Como no resto do Oriente Médio, a religião está ligada à identidade da família. Portanto, deixar o islamismo é interpretado como trair a família. Em geral, as famílias exercem forte pressão social sobre os convertidos para fazê-los retornar ao islã, deixar a região ou silenciar sobre a nova fé. Em muitos casos, os convertidos são separados da família como resultado da conversão.  

O país é bem policiado e em geral é pacífico. No entanto, há incidentes em que os trabalhadores migrantes cristãos são alvos. Provavelmente os casos não são relatados porque não é do interesse de ninguém divulgar detalhes publicamente; a vítima deseja manter o emprego e outros atores (como o governo) não estão interessados em registrar tais ocorrências. Em segundo lugar, às vezes é difícil discernir se os maus-tratos são devidos à fé cristã de um trabalhador. No entanto, em geral, supõe-se que a fé de trabalhadores migrantes não muçulmanos, incluindo cristãos, leve a uma vulnerabilidade extra. Segundo um relatório recente da Anistia Internacional (AI), apesar das promessas de melhorar as condições de trabalho, milhares de trabalhadores migrantes ainda sofrem abusos. Em um relatório anterior (2014), a AI destacou práticas de abuso sexual de trabalhadoras migrantes, muitas das quais são cristãs. 

Restos de uma estrutura que se acredita ser uma igreja nestoriana foram encontrados na costa sudeste do Catar, perto de al-Warkah. É certo que o local foi ocupado desde o início do século 7 até meados do século 8. Além disso, uma cruz nestoriana foi encontrada em Umm al-Maradim, no Centro do Catar. Essa é a única prova material da presença do cristianismo primitivo no Catar. No entanto, existem muitas evidências documentais do cristianismo no que na antiguidade nestoriana era chamado de Bet Qatraye, as partes do norte do Golfo Pérsico, das quais o Catar era uma parte importante. Isaac de Nínive, um bispo do século 7 considerado santo em algumas igrejas, nasceu no Catar. 

Cristãos nestorianos do Iraque e da Pérsia e cristãos árabes da Península Arábica podem ter se mudado para o Catar nos séculos 4 e 5 para estabelecer uma presença cristã, como aconteceu no Kuwait, Bahrein e em outros lugares. Há razões acadêmicas para acreditar que, em toda a região, apesar do surgimento do islã, o cristianismo nestoriano floresceu no final do século 7 ao 9. Isso, supostamente, também aconteceu no Catar. No entanto, poucos séculos após a chegada do islã, o cristianismo havia desaparecido. 

Como o Catar fazia parte das importantes rotas marítimas entre o Iraque e a Índia, deve ter tido contato com cristãos, mesmo depois de não ter mais cristãos nativos. Isso pode ter aumentado quando, em 1871, o Império Otomano estendeu seu domínio sobre o Catar. O que durou até 1915, quando a Grã-Bretanha derrotou os otomanos e assumiu o Catar. Em 1916, o país se tornou um protetorado britânico. Em 1949, a exportação de petróleo começou de verdade, levando muitos expatriados ao país. O Catar se tornou independente em 1971. Após o boom dos preços do petróleo em 1973, o número de expatriados aumentou rapidamente, assim como a presença de igrejas para esses estrangeiros. 

Atualmente, a grande maioria dos cristãos migrantes são asiáticos católicos romanos. Até 2008, eles não tinham permissão para construir igrejas e precisavam se reunir em casas, escolas ou outros edifícios particulares. Em 2008, o Catar permitiu a abertura de várias igrejas grandes fora da capital Doha. 

O Catar é um dos únicos países wahhabistas do mundo, seguindo uma versão puritana do islã

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